Manila, Filipinas, 27/09/2010 – Os filipinos estão acostumados com chuva por seis meses seguidos, mas um ano depois das inundações causadas pelo Tufão Ketsana a tensão é sentida no ar cada vez que começam a cair algumas gotas. Isto ocorre apesar de muitos deles tenham se arranjado para reconstruir suas vidas, um ano depois da destruição de milhares de lares em Luzón, a principal ilha, onde morreram quase mil pessoas neste país de 94 milhões de habitantes. No dia 26 de setembro de 2009, o Tufão Ketsana açoitou as Filipinas, e depois desatou sua fúria em países vizinhos do sudeste asiático. Em questão de horas, porções da região metropolitana de Manila e localidades ao Sul e Norte da mesma foram inundados a ponto de a água engolir casas de dois andares.
Conhecido no lugar como Ondoy, o Tufão trouxe consigo as chuvas mais fortes já registradas na região, transformando as ruas em rios furiosos. Em algumas áreas rurais, as inundações atingiram mais de seis metros de altura. Nora Abella recorda que seu marido, Raymond, e seus cinco filhos tiveram que fugir de casa no meio da noite.
Como a família corria o risco de se afogar devido às inundações causadas pelas fortes chuvas que acompanharam o Tufão, dormiram em sua casa de Santa Cruz, capital da província de Laguna, em Luzón. “Quando acordei vi meus cinco filhos vestindo casacos e se preparando para sair da casa”, conta. “Enquanto meu marido e eu dormíamos, os meninos ficavam acordados checando o nível da água fora de nossa casa”, acrescenta.
O Ketsana seguiu sua rota de destruição por Vietnã, Camboja, Laos e Tailândia, matando outras centenas e deixando centenas de milhares sem teto. Nas Filipinas, os Abella tiveram que permanecer em um centro para abrigados com outras centenas de pessoas durante meses. Ao Ketsana seguiu-se o Tufão Parma (conhecido como Pepeng, nas Filipinas), que, embora tenha sido menos destrutivo, causou mais estragos nas comunidades já devastadas. No dia seguinte ao Natal, os Abella voltaram para casa, mas a encontraram em escombros. E como a bomba de água estava estragada, não puderam conseguir água potável para beber.
As comunidades de Luzón devastadas pelas inundações se recuperaram quase ao mesmo tempo em que as águas baixavam, graças à ajuda de muitos voluntários, que doaram alimentos, roupas e dinheiro, e organizaram grupos de limpeza de ruas e casas. Organizações humanitárias com Oxfam e World Vision participaram com iniciativas de longo prazo, que além de ajudar as comunidades a se restabelecer, buscaram ajudar a se prepararem melhor para os desastres.
“Há certa sabedoria em guardar provisões, para não ser pego com a guarda baixa quando ocorrem desastres como o Ketsana”, disse Boris Joaquin, da World Vision. A Oxfam começou “a trabalhar com os moradores da região quando estavam no centro de evacuação e em locais transitórios, e continuamos dando nosso apoio depois que voltaram para suas casas ou foram para os locais onde os assentamos”, informou o diretor do programa para as Filipinas, Snehal Soneji.
A Oxfam também abordou o problema de existir um fornecimento estável de água potável. “Frequentemente se dá pouquíssima atenção à água, ao saneamento e à higiene, apesar dos desafios que sua falta apresenta”, disse Snehal, destacando o aumento dos casos de dengue no país.
Agora, Nora Abella integra o Comitê local de água, saneamento e higiene, que coordena com a comunidade a ajuda para organizar a manutenção dos banheiros domésticos, controlar o uso das bombas de água e ajudar na distribuição de elementos básicos. Estes comitês garantem que o trabalho continue bem depois do desastre.
Por sua vez, o Conselho Nacional de Redução de Risco de Desastres, diz que agora está mais preparado para enfrentar as catástrofes, após realizar campanhas de informação após os tufões Ketsana e Parma. O diretor-executivo do Conselho, general da reserva Benito Ramos, disse que o novo equipamento para dar alarme, bem como distribuir alimentos ou remédios, já se instalou nas principais áreas do país.
“Temos que nos preparar para o pior, especialmente em outubro, quando é comum que fortes tufões atinjam o país”, disse Benito em entrevista coletiva em Manila. “E se houver um tufão, esperamos que não seja tão forte como o Ondoy”, acrescentou.
Porém, Snehal acredita que é necessário implementar medidas mais fortes para garantir que as comunidades vulneráveis estejam preparadas. “Eventos climáticos extremos, como tufões mais fortes, chuvas intensas e secas severas serão a norma, a menos que se freie o descontrolado aumento das emissões de carbono”, disse.
“A fúria com que o Ondoy apareceu no ano passado é apenas um sinal do que virá”, alertou Snehal, acrescentando que, para uma defesa nacional contra a mudança climática, são necessários dirigentes cuja visão vá “além do próximo exercício eleitoral”. Envolverde/IPS

