Tradição gastronômica esgota a pesca

MÁLAGA, Espanha, 27/09/2010 – A gastronomia do sul da Espanha se caracteriza pelo prato “pescadito frito”, um hábito que está acabando com espécies muito exploradas no Mar Mediterrâneo e no Oceano Atlântico. “Temos biqueirão, carapau, salmão”, recita um garçom aos clientes em um restaurante da costa de Málaga, cidade do sul da Espanha conhecida por seu “pescadito frito”. Aqui a pesca e venda de espécies imaturas é uma prática perseguida que, apesar disto, esgotou os pesqueiros. Os “pescaditos” são exemplares muito jovens, de um tamanho inferior ao mínimo legal de 20 centímetros para a merluza, 11 para a sardinha e salmão, e nove para anchova e biqueirão, segundo o Regulamento 3760/92 do Conselho da União Europeia, de 20 de dezembro de 1992.

A baía de Málaga, confluência de águas atlânticas e mediterrâneas, é um “criadouro natural de peixes” onde se reproduzem muitas espécies, contou ao Terramérica o responsável de recursos marinhos do Centro de Educação Ambiental Aula do Mar, Juan Antonio López. A captura de filhotes antes que possam desovar dizima as populações. “Estamos perdendo o biqueirão no Mediterrâneo”, assegurou Juan Antonio. Embora hoje exista maior consciência, “há uma cultura que se mantém”, contou.

Segundo a delegada em Málaga do Conselho de Agricultura e Pesca da Junta da comunidade autônoma de Andalucía, Mónica Bermúdez, “o consumidor está cada vez mais consciente e compra pescado fresco, mas no tamanho ideal”. Málaga é uma cidade turística, na qual milhares de famílias vivem da pesca, e é conhecida por seu “pescadito frito”, reconhece, mas isso não significa “que os restaurantes oferecem filhotes de pescado”, defendeu.

Dados oficiais indicam que neste ano foram apreendidos em Málaga 2.169 quilos de pescado e marisco imaturos, a maioria procedente de outras cidades. Ainda há restaurantes que oferecem caboz-transparente (Aphia minuta), cuja pesca e venda está proibida em Andalucía desde 1988, pois esta espécie da costa atlântica e mediterrânea tem um tamanho médio quando adulta de quatro ou cinco centímetros e só pode ser capturada com redes compactas, ilegais, pois arrastam alevinos de sardinha e biqueirão.

A proibição tem o objetivo de evitar que em lugar do verdadeiro caboz-transparente sejam vendidos outros pescados, filhotes. “Embora menos que antes”, o caboz-transparente continua sendo pescado na madrugada e vendido nas ruas, escondido em sacolas, apesar das elevadas multas impostas pelas autoridades, disse ao Terramérica Guadalupe Cerdón, que há 15 anos vende pescado no Mercado Central.

“Com o caboz-transparente se ganha dinheiro. Com a crise, muitos dos que ficaram sem trabalho na construção estão pescando”, disse ao Terramérica outro vendedor do mercado, que estimou em 20 euros (US$ 27) o preço do quilo. “Alguns clientes contam que compram caboz-transparente no barbeiro. Vamos mal”, disse ao Terramérica Antonio Burgos, peixaria que há 30 anos dirige com sua mulher, Mariló Pérez. Ela culpa o consumidor e espera que no futuro “nossos netos possam comer pescado”.

Em seu informe “Espécies Ameaçadas”, publicado em janeiro deste ano, a organização internacional de conservação marinha Oceana alerta para o risco que correm as espécies comerciais do Mediterrâneo. “Dos estoques avaliados no Mediterrâneo, 54% ultrapassam os limites biológicos de segurança”, disseram ao Terramérica fontes da Oceana. O biqueirão (Engraulis encrasicolus) e o caboz-transparente deveriam constar de “uma lista de espécies para incluir em acordos de proteção”, propuseram.

Segundo a Comissão Geral de Pesca do Mediterrâneo, reunida em Atenas em abril deste ano, a pesca de sardinha, biqueirão, merluza, salmonete e camarão vermelho está “superexplorada” ou “completamente esgotada”. Um funcionário de um restaurante, que não quis se identificar, lembrou que em Málaga “toda a vida se capturou pescado pequeno e que por isso a pesca não vai acabar”.

O caboz-transparente continua sendo servido “por baixo do pano” a clientes de confiança, disseram pescadores de camarão consultados em vários restaurantes. O caboz-transparente é lavado, empanado em farinha e frito em azeite de oliva. Costuma ser servido com meio limão. Biqueirões, salmonetes ou outros pescados são simplesmente fritos. O prato de caboz-transparente não sai por menos de 18 euros (US$ 24) nos restaurantes.

Manuel Villafaina, presidente da Associação de Empresários de Praias de Málaga e dono de um conhecido restaurante, disse ao Terramérica que a pesca de filhotes diminuiu “uma barbaridade”, até representar “cerca de 2% do total”, porque as pessoas se sensibilizaram e os estabelecimentos “se ajustaram à lei”.

Para sensibilizar clientes e chefes, será apresentado em outubro na Espanha o Fish2fork (Pescado para o Garfo), um guia online que avalia restaurantes segundo a espécie servida, a disponibilidade de informação sobre esta espécie no cardápio e a forma de pesca utilizada. O Fish2fork, que começou em outubro de 2009 na Grã-Bretanha e depois nos Estados Unidos, é uma iniciativa de Charles Clover, autor do livro sobre o desaparecimento de vida nos oceanos “The End of The Line” (O Fim da Linha), Tim Glover e Paul Eccleston, associados com a Fundação MarViva.

Este site, promovido como complemento do documentário “The End of The Line”, que estreou no Festival de Cinema de Sundance em janeiro de 2009, avaliará 75 restaurantes espanhóis em La Coruña, Barcelona, Bilbao, Madri, Málaga, Palma de Mallorca e San Sebastián, afirmou ao Terramérica Clemmie Mason, da Fish2fork na Grã-Bretanha. “A ideia é que as pessoas saibam que é preciso dar um tempo a certas espécies”, explicou ao Terramérica Daniel Rolleri, coordenador da MarViva na Europa, destacando que a iniciativa teve impacto em restaurantes britânicos “que retiraram alguns peixes do cardápio”.

O Fish2fork elaborou uma lista de espécies “a serem evitadas”, como biqueirão, mero e tamboril, muito presentes nos cardápios dos restaurantes espanhóis. “Eu não retiraria o biqueirão do cardápio. É típico de Málaga e os clientes pedem”, afirmou Jorge García, há 15 anos dono de um restaurante.

* A autora é correspondente da IPS.

Inés Benítez

Inés Benítez colabora con IPS desde España. Es periodista, licenciada en ciencias de la información en la Universidad Complutense de Madrid y cursó estudios de posgrado en Bilbao en el Master de Periodismo del diario El Correo y la Universidad del País Vasco. Ha colaborado con IPS desde Guatemala y ha trabajado para la agencia de noticias Efe en su país y  en la República Dominicana, donde fue redactora jefe de la delegación nacional en Santo Domingo y viajó en varias ocasiones a Haití a distintas coberturas. Tanto en España como en el extranjero ha escrito para periódicos y revistas. Puedes leer su blog y la puedes seguir en @Ines_Benitez.

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