“A indústria cervejeira é líder em autorregulamentação”

Montevidéu, Uruguai, 29/09/2010 – Cerca de dois bilhões de pessoas consomem bebidas alcoólicas em todo o mundo, um hábito de raízes ancestrais e perene atrativo. Mas o consumo responsável é apenas uma parte da questão. O uso nocivo de bebidas alcoólicas afeta dezenas de milhões de pessoas e mata 2,5 milhões a cada ano, por causas que vão desde doenças até acidentes de trânsito, afirma a Organização Mundial da Saúde (OMS). Em maio, a OMS adotou uma política para abater esse consumo, e colocou a autorregulamentação da indústria como um de seus componentes. A IPS perguntou a Carlos Brito, diretor-executivo do maior grupo cervejeiro do mundo, por que sua empresa investe em campanhas que limitam suas oportunidades de venda.

Segundo Brito, o gigante cervejeiro Anheuser-Busch InBeb (AB InBev) tem uma “longa história de campanhas a favor do consumo responsável”, mas no dia 15 celebrou pela primeira vez seu “Dia da Cerveja Responsável” simultaneamente em todo o mundo. Brito participou das atividades realizadas na China. “Mais de três mil empregados distribuíram cem mil folhetos e dez mil adesivos com informação e promoção da bebida responsável”, disse em entrevista realizada por email.

IPS: As empresas lutam por mais mercados e mais lucro, o que implica maximizar as vendas. Por que se comprometer com iniciativas para promover o consumo responsável, que supõe redução nas vendas?

CARLOS BRITO: Como a maior cervejaria do mundo, levamos muito a sério o incentivo ao prazer responsável com nossos produtos. Promover esse tipo de prazer não vai contra o êxito de nossas metas de negócio. De fato, alcançar um crescimento sustentável e de longo prazo por meio de práticas comerciais responsáveis é central em nosso sonho de ser “a melhor cervejaria de um mundo melhor”. Por isso deixamos de lado com muito gosto as vendas que implicam mau uso ou abuso de nossos produtos.

IPS: Sua empresa há alguns anos organiza campanhas de consumo responsável do álcool. Com quais se sente mais de acordo?

CB: Nos agrada especialmente as de motoristas da vez (alguém que se compromete a não beber álcool e transportar de forma segura seus acompanhantes) aplicadas em várias partes do mundo, entre elas o primeiro anúncio de televisão sobre o tema que está sendo transmitido este ano na China. Também têm sucesso as campanhas educativas que incentivam os pais a conversar com seus filhos para prevenir a ingestão de álcool por menores de idade. Uma delas é “A Família Fala Sobre a Bebida” (Family Talk About Drinking), lançada primeiro nos Estados Unidos e agora traduzida para sete idiomas. Desde 2002, a ingestão de álcool entre adolescentes caiu 17% nos Estados Unidos. A fusão da AB Inbev nos deu mais recursos para expandir o alcance destes programas, e agora nos concentramos em disseminar os êxitos em nossos mercados mais importantes.

IPS: Os jovens são um grupo de alto risco quanto ao consumo nocivo. Quais medidas específicas podem ser adotadas para eles?

CB: Pesquisas independentes e governamentais indicam que os pais são uma influência poderosa. Os programas de educação, como “A Família Fala Sobre a Bebida” e “Vivamos Responsavelmente’, aplicado na Argentina, têm um especial êxito. Para aqueles jovens com idade legal para consumir álcool, criamos campanhas de consumo responsável e uso de motorista da vez. Uma das de maior impacto, “Controla Quem Dirige”, da Alemanha, chegou a mais de 67 mil jovens. Foram enviados representantes da empresa a clubes noturnos e discotecas para pedir aos presentes que se comprometessem a usar um motorista da vez.

IPS: A AB Inbev apoia a estratégia da OMS para reduzir o consumo nocivo de álcool? Com planeja contribuir para sua aplicação?

CB: Trata-se de um passo importante e construtivo para enfrentar os problemas do álcool em todo o mundo. A estratégia reconhece o sentido dos diferentes contextos nacionais, religiosos e culturais e propõe um cardápio de opções que os Estados-membros possam adaptar às suas culturas para reduzir esse consumo abusivo. Também reconhece a necessidade de participarem todos os atores, inclusive a indústria, e a importância da autorregulamentação, para ajudar a reduzir o abuso. Vamos trabalhar de forma construtiva com a OMS e seus Estados-membros, apoiando e contribuindo para políticas efetivas e possíveis.

IPS: São necessários mais esforços internacionais para promover a bebida responsável e reduzir seu abuso?

CB: Observamos uma queda significativa da bebida entre menores e de dirigir bêbado, mas sempre se pode fazer mais. Não há uma resposta única. A OMS admite isso quando fala de diferenças culturais entre os países. Para conseguir maior impacto, os esforços nacionais devem se basear em intervenções provadas, e que se concentrem naqueles que abusam do álcool, em lugar de se dirigir a quem bebe de maneira responsável.

IPS: Acredita que a estratégia da OMS evoluirá para maiores restrições e um contexto obrigatório, como o que impôs para o consumo de tabaco?

CB: Não se deve esquecer que o álcool não é tabaco. Os cigarros são prejudiciais quando fumados como está previsto. Não se pode dizer o mesmo da cerveja. Consumida com responsabilidade, pode ser parte de um estilo de vida equilibrado e saudável para a maioria dos adultos. Além disso, as pautas sanitárias de médicos e governos de todo o mundo reconhecem que beber moderadamente pode representar certos benefícios para a saúde de alguns adultos. A indústria da cerveja é líder em autorregulamentação. Não só seguimos todas as regulamentações governamentais aplicáveis como colocamos em prática com rigor nossas próprias normas na elaboração, promoção e distribuição de nossas cervejas.

IPS: A maior parte do crescimento do consumo nas últimas décadas foi nos países em desenvolvimento. A OMS destaca uma discrepância entre a crescente disponibilidade de bebidas alcoólicas em muitos países de renda média e baixa e sua escassa capacidade para responder à consequente sobrecarga sobre o sistema de saúde pública. Os países em desenvolvimento não necessitam de uma atenção especial?

CB: As pesquisas mostram que a maneira mais efetiva de combater o abuso são as intervenções focadas e provadas em lugar das medidas amplas dirigidas a toda a população, qualquer que seja a situação econômica do país. Mas há uma oportunidade, e a apoiamos plenamente, de ampliar programas educativos e de conscientização nos países em desenvolvimento na medida em que estes aumentam seu consumo de álcool. Envolverde/IPS

* Este artigo é parte de uma série de artigos e entrevistas sobre responsabilidade social corporativa, apoiada pela AB Inbev.

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