As águas baixam e as mortes maternas ficam

Karachi, Paquistão, 17/09/2010 – A retirada das águas que inundaram um quinto do Paquistão deixou descoberta uma das misérias ocultas deste país: a situação das mães, que morrem às dezenas de milhares a cada ano. O pessoal médico e humanitário se esforça para salvar a vida das grávidas nos acampamentos das vítimas das inundações, que afetaram o noroeste do país há mais de um mês. Mas o estado em que estão as mulheres lembra a alta mortalidade materna deste país, mesmo em épocas normais. Morrem 320 mulheres para cada cem mil nascidos vivos no Paquistão, segundo o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). Além disso, cerca de 30 mil grávidas perdem a vida anualmente por causas relacionadas com a gravidez, segundo a pesquisa sobre saúde e demografia, realizada entre 2006 e 2007.

Entre as principais causas destaca-se o mau estado da saúde, muitas mulheres sofrendo desnutrição e anemia, e falta de atenção profissional no parto, que costuma acontecer em lugares sem as condições higiênicas adequadas. Outro problema é o número de gravidezes consecutivas por falta de planejamento familiar. A taxa de natalidade é superior a três filhos por mulher, e nas regiões distantes sobre para entre 10 e 15.

Em um dos acampamentos, uma mulher ficou encantada ao dar à luz a um menino, porque já tinha 14 filhas, contou a secretária-geral da Sociedade de Obstetrícia e Ginecologia do Paquistão, Nighat Shah. “Deram ao menino o nome de Sailab (inundação, no idioma urudu)”, disse Nighat, por ver neste fenômeno climático um bom presságio. Porém, “antes do próximo ano e do nascimento de Toofan (tempestade), será preciso fazer algumas intervenções para salvar a vida desta mãe”, ironizou.

Das 18 milhões de pessoas vítimas das águas, 70% são mulheres, segundo o UNFPA. Há quase 500 mil grávidas e 1.700 partos por dia, dos quais 250 “apresentam complicações” que exigem intervenção médica de emergência. Azra Ahsan, do Comitê Nacional de Saúde Materna, Neonatal e Infantil, recordou ter visto “muitas grávidas com anemia grave” em acampamentos da província de Sindh, a mais afetada pelas enchentes.

Muitas mulheres tinham dez filhos. Mas Azra não se surpreendeu, pois trabalhou por muitos anos em aldeias distantes. “Sua vida não era melhor antes. São de outro tempo, de um planeta diferente”, disse. A falta de alimento, o estresse extremo que sofrem e a total falta de higiene nas áreas afetadas aumentam o risco de complicações.

“É fundamental dar atenção qualificada”, insistiu William Ryan, porta-voz do UNFPA para a Ásia Pacífico. “O parto sempre pode ter complicações, e a mortalidade materna é alta no Paquistão nos melhores tempos. Mas o trauma que sofrem as mulheres vítimas das enchentes amplifica enormemente os riscos”, acrescentou. O UNFPA enviou pessoal médico especializado para 23 unidades móveis e 13 clínicas instaladas pelo governo nas regiões afetadas.

As mulheres estão recebendo muita informação sobre saúde reprodutiva graças à presença deste pessoal, disse Nighat, esperando que isso contribua para libertar as mulheres do que chama de “armadilha mortal” da gravidez frequente. Apenas 22% das paquistanesas casadas utilizam métodos de planejamento familiar, ressaltou Azra. A conjuntura atual pode ser uma “oportunidade” para ampliar o uso de dispositivos intrauterinos.

As pílulas anticoncepcionais não são uma boa solução, segundo Azra. “Podem esquecer de tomar ou fazer de maneira errada”, explicou. Por outro lado, Nighat inclina-se pela ligadura de trompas para as que têm mais de três ou quatro filhos. Inclusive, propôs auxiliar as mulheres atendidas nos hospitais e recomendar este procedimento para quando a família estiver “completa”.

Uma das principais intervenções do Comitê Nacional de Saúde Materna, Neonatal e Infantil é a distribuição do medicamento misoprostol a mulheres que estão entre o oitavo e o nono mês de gestação, para reduzir o risco de sofrerem hemorragias após o parto. “Esta é a primeira causa direta de mortalidade materna” neste país, explicou Azra.

As mulheres que correm mais risco de hemorragias são as que sofrem desnutrição e anemia e tiveram múltiplos partos, como a maioria das que estão nos acampamentos, explicou a ginecologista Shershah Syed. “Dizemos às mulheres e às parteiras para usarem misoprostol logo após o parto”, disse Azra. “É fácil, não precisa injetar nada para deter a hemorragia nem contar com a presença de um profissional, pois é ministrado por via oral. É uma salvação, já que os partos são feitos ao ar livre”, acrescentou. Envolverde/IPS

Zofeen Ebrahim

Zofeen Ebrahim is a Karachi-based journalist who has been working independently since 2001, contributing to English dailies, including Dawn and The News, and current affairs monthly magazines, including Herald and Newsline, as well as the online paper Dawn.com. In between, Zofeen consults for various NGOs and INGOs. Prior to working as a freelance journalist, Zofeen worked for Pakistan’s widely circulated English daily, Dawn, as a feature writer. In all, Zofeen’s journalism career spans over 24 years and she has been commended nationwide and internationally for her work.

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