Recessão compromete êxitos na luta contra a aids

Washington, Estados Unidos, 29/09/2010 – Embora o mundo não cumpra este ano o compromisso de acesso universal ao tratamento contra o vírus HIV, causador da aids, alguns países, especialmente na África subsaariana, avançaram muito, informaram ontem três agências da Organização das Nações Unidas. O objetivo foi fixado em 2006, mas apenas alguns países concretizaram o acesso universal, que se define como a cobertura de pelo menos 80% da população que dele necessita, até o final deste ano, segundo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/aids (Onusida).

Com ocorre com muitas metas de saúde, para medir os progressos toma-se como parâmetro a desigualdade, tanto entre regiões como entre aspectos do tratamento exigido. O informe “Para o Acesso Universal” diz que ainda são limitados os esforços preventivos para chegar às populações de maior risco no mundo, como os trabalhadores sexuais, usuários de drogas e homens que fazem sexo com outros homens. Mas destaca que há um contínuo avanço no acesso aos serviços que buscam prevenir o contágio de mãe e filho.

Para isso, cerca de metade de todas as grávidas portadoras de HIV em países de baixa e média renda receberam tratamento antirretroviral, segundo o estudo. Oito países do mundo em desenvolvimento atingiram em 2009 o objetivo de acesso universal ao tratamento contra esse vírus: Botsuana, Camboja, Croácia, Cuba, Guiana, Omã, Romênia e Ruanda.

“Há países, especialmente na África austral, que tiveram avanços realmente animadores”, disse à IPS Jimmy Kolker, do Unicef. Contudo, o mesmo não ocorre em lugares como Nigéria, onde vive quase um terço das mulheres que deveriam estar recebendo antirretroviral e não têm acesso a ele, acrescentou. Outros países onde se concentra essa carência são República Democrática do Congo, Índia e Uganda.

O informe se baseia em cifras de 2009, por isso a última palavra em matéria de avanços obtidos chegará no próximo ano, quando também forem fixados novos objetivos na luta contra o HIV e a aids. Dentro deste tema, Jimmy disse que agora se percebe que o objetivo para 2015 deveria ser eliminar a transmissão de mãe para filho, leve mudança de ênfase em relação às metas de acesso à saúde de 2006 a 2010. “Isto não mediria o insumo, que é dar os medicamentos à mãe, mas o resultado, que é um bebê sem aids”, explicou.

Um obstáculo para os objetivos existentes e os novos é a paralisação e inclusive a redução dos fundos dados por doadores nos últimos anos, o que se atribui amplamente à crise financeira, destaca o estudo. Para manter os programas de luta contra a aids são necessários US$ 10 bilhões, disse à IPS Bernhard Schwartländer, da Onusida.

A previsão é que na próxima semana os países doadores reafirmarão seus compromissos com o Fundo Mundial de Luta contra a Aids, a Tuberculose e a Malária em uma reunião das Nações Unidas, em Nova York.

Entretanto, segundo Jimmy, além de doações, será preciso que os governos dos países pobres aproveitem ao máximo sua capacidade. “A boa notícia é que a proporção maior do gasto na luta contra a aids procede de governos nacionais. Que países como Quênia, Botsuana, África do Sul e Namíbia decidam pagar por si mesmos os antirretrovirais é um grande passo adiante, e é necessário apoiá-lo”, ressaltou.

Bernhard disse que é preciso mais dinheiro, mas também é um fato que “é preciso ser mais eficiente”. Os serviços “precisam estar integrados, e não oferecidos em lugares diferentes, como se não estivessem vinculados. Claramente, vamos na direção da integração de serviços”, acrescentou.

Ainda que existam 33,4 milhões de pessoas vivendo com HIV em todo o mundo e 2,7 milhões tenham sido diagnosticadas apenas em 2008, a quantidade dos que recebem terapia antirretroviral nos países de renda média e baixa aumentou em 1,2 milhão no ano passado. Isto representa o maior aumento já registrado em um único ano, e faz com que o número suba para 5,25 milhões, segundo o informe.

De todo modo, dois terços da população que precisa de medicamento antirretroviral não tem acesso a ele. Além disso, estima-se que 60% dos pacientes no mundo em desenvolvimento não sabem se têm HIV e muitos esforços de prevenção continuam defasados.

O informe alerta que as estratégias nacionais devem incluir esforços especiais para chegar aos indigentes e aos socialmente excluídos, e que os esforços para cumprir o sexto dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio – frear e reverter o avanço do HIV/aids e outras doenças até 2015 – geraram mudanças nos sistemas de saúde de muitos países. Como explicou Jimmy, originalmente o tratamento do HIV foi introduzido nos hospitais centrais como cuidados especializados, mas “o princípio do acesso universal implicou aumento do nível de atenção mais básica”.

Para evitar a transmissão de mãe para filho foi preciso “ir a clínicas maternais e pré-natais, às unidades de saúde das aldeias, e isso foi feito em boa parte. O esforço para que isso estivesse universalmente disponível teve sucesso em quase todo os países”, acrescentou. “Porém, não é o mesmo ter acesso a esses centros e prevenir realmente as novas infecções”, concluiu. Envolverde/IPS

Peter Boaz

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *