Ricos do Sul também cobram caro

Nações Unidas, 24/09/2010 – A cooperação entre países do Sul apresenta-se como chave na cúpula de três dias que começou ontem em Nova York para revisar o compromisso mundial com os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. O problema é que no Sul também há grandes e pequenos, poderosos e fracos. “É muito emocionante olhar a cooperação Sul-Sul no contexto do que está ocorrendo aqui”, disse Olav Kjorven, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). Trata-se de “um elemento muito importante e deveríamos dar mais atenção a ele, porque pode nos ajudar a acelerar o progresso rumo aos ODM”, acrescentou.

Alguns se preocupam por esta cooperação poder reproduzir as desigualdades existentes entre os países ricos e pobres, especialmente nas áreas do comércio e da assistência. “Há muitas coisas positivas em torno dela”, mas isso não impede que seja problemática, disse à IPS o diretor do capítulo africano da Rede do Terceiro Mundo, Yao Graham.

Como dentro do Sul em desenvolvimento convivem distintos casos, com nações menos adiantadas, como Somália e Afeganistão, e potências emergentes, como China e Índia, preocupa a possibilidade de a cooperação Sul-Sul levar ao mesmo tipo de políticas de ajuda sujeitas a condições que muitos países pobres condenam.

“As críticas à Índia como doadora se centram no fato de impor para sua ajuda ao exterior as mesmas condições que se nega a aceitar como país receptor, vinculando sua assistência à compra de bens e serviços indianos”, escreveu Himanshu Jha em um informe apresentado no dia 17 pela organização Social Watch.

O Escritório do Assessor Especial das Nações Unidas para a África divulgou ontem um relatório alertando que as interações financeiras entre os sócios de desenvolvimento do Sul podem ser potencialmente negativas. O informe pede urgência à África na adoção de uma posição mais estratégica e para exercer maior controle sobre suas relações econômicas com seus vizinhos do Sul.

“Embora algumas economias emergentes tenham uma estratégia para a África, este continente não possui uma estratégia para as economias emergentes”, diz o estudo.

Em 2007, as atividades comerciais entre os países africanos e outras nações pobres geraram US$ 148 bilhões, o que implicou multiplicar por mais de 16 o faturamento de 1990. Embora os ganhos para os governos africanos aumentem a consequência destas relações, o informe também mostra que o setor manufatureiro e da construção foram prejudicados por abrirem seus mercados a sócios do Sul.

De fato, o projeto de documento final da Cúpula Mundial sobre os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio se compromete a “ajudar a fortalecer e potencializar a capacidade comercial e a competitividade internacional dos países em desenvolvimento para garantir benefícios equitativos a partir de maiores oportunidades comerciais, e impulsionar o crescimento econômico”.

Entretanto, o documento também reconhece a importância da cooperação Sul-Sul, que é mencionada seis vezes. “Enfatizamos que a cooperação Sul-Sul não é um substituto, mas um complemento, da cooperação Norte-Sul”, acrescenta.

Os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio definidos em 2000 pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas incluem reduzir pela metade o número de pessoas que sofrem pobreza e fome, com relação a 1990; garantir a educação primária universal; promover a igualdade de gênero e reduzir a mortalidade infantil e a materna; combater a aids, a malária e outras enfermidades; assegurar a sustentabilidade ambiental e fomentar uma associação mundial para o desenvolvimento. Tudo isto até 2015.

Um informe divulgado no dia 16 pelo Grupo de Tarefas sobre a Defasagem no Êxito dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio centra-se no impacto da crise econômica sobre a ajuda oficial ao desenvolvimento. Em 1970, os líderes mundiais se comprometeram a destinar 0,7% de seu produto interno bruto ao desenvolvimento, e atualmente esta porcentagem é de apenas 0,33%.

O informe mostra que as crises financeiras contribuíram para o não cumprimento dos compromissos de assistência, para os quais este ano faltam US$ 20 bilhões. Assim, e apesar de representar uma pequena porção de toda a assistência oficial ao desenvolvimento, a ajuda do Comitê de Assistência para o Desenvolvimento e dos doadores dos países pobres é cada vez mais importante, afirma.

Em 2008, os países pobres e emergentes aportaram US$ 10 bilhões em assistência. Acredita-se que esse número aumentou em 2009 e espera-se que chegue a US$ 15 bilhões este ano. Estas estimativas são parciais, já que só representam o dinheiro de nações que informam suas atividades de assistência junto à Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos (OCDE), que recopila estes números. China, Índia e Venezuela, por exemplo, não informam seus esforços de ajuda junto a essa entidade, mas também são consideradas doadoras importantes.

Mas a cooperação Sul-Sul “é muito mais do que transferências financeiras”, explicou Olav. “Trata-se de compartilhar conhecimentos e experiência. A crise econômica mostrou que boa parte da inovação real que acontece no mundo para enfrentar a crise ocorre nos países em desenvolvimento, e levar a experiência de êxitos em uma parte específica do mundo para outros países em desenvolvimento é uma maneira muito efetiva e rentável de conseguir avançar nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio”, afirmou. Envolverde/IPS

Aprille Muscara

Aprille Muscara is based in Washington, D.C. and is IPS’s online content and community manager. Prior to this position, she was the deputy bureau chief in Washington, D.C., covering global issues and United States foreign policy. She joined IPS in 2010 as a United Nations correspondent in New York covering the U.N. Security Council, international development and human rights. She is also co-coordinator of IPS’s North America intern programme. Aprille’s work has been published by IPS, Al Jazeera English, Truthout, Reuters AlertNet, Asia Times, Lobelog.com and The Electronic Intifida, among other outlets and translated into multiple languages worldwide.

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