Santiago, Chile, 21/10/2010 – Um risco das missões de paz é que suas tropas atuem como um exército de ocupação, ou que façam vista grossa a dinâmicas que afetam sobretudo a população feminina.
Em novembro de 2007, a Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (Minustah) repatriou todo o batalhão de Sri Lanka, pois uma centena de seus integrantes foi acusada de abuso e exploração sexual.
Sobretudo depois do terremoto de 12 de janeiro, que matou 300 mil haitianos e deixou milhões sem teto, cresceram as denúncias de violência sexual nos acampamentos informais onde vivem aglomeradas centenas de milhares de pessoas.
Em meados deste ano, o Conselho de Segurança das Nações Unidas decidiu enviar um contingente policial exclusivamente feminino de 600 efetivos para alguns desses acampamentos. Em junho, chegou uma unidade de 110 policiais femininas de Bangladesh.
Embora dez países latino-americanos contribuam com tropas para a Minustah – algumas muito numerosas – não podem responder com essas quantidades, porque a presença feminina em suas forças de segurança e defesa é recente e escassa.
Os países da região que mais mulheres enviam para a missão no Haiti são Uruguai, Argentina e Chile. Mas, estão muito longe dos homens em quantidade e poder de decisão.
Do Uruguai são apenas 85 mulheres em um contingente de 1.700 militares, as argentinas são 31 entre 439 soldados e civis, e há apenas 11 chilenas entre 516 efetivos.
“Se aumentasse o número de mulheres poderíamos estar mais alerta” para a questão de gênero, disse ao Terraviva a capitã do exército chileno Andrea Fuentes, solteira, de 30 anos, que pretende se apresentar em 2011 para a missão de paz na Bósnia-Herzegovina.
Em junho de 2009, Andrea viajou para a cidade de Cap-Haïtien para integrar-se por seis meses no Batalhão Chile, que participa da Minustah.
Foi a primeira chilena com patente de oficial na unidade de Coordenação Cívico-Militar, que trabalha diretamente com o povo deste que é o país mais pobre da América.
Antes de ser enviada ao seu destino, capacitou-se no Chile sobre a Resolução 1325 do Conselho de Segurança, que decidiu há uma década pela participação prioritária das mulheres e a integração do gênero em todas as operações de paz.
Com duas suboficiais sob seu comando, coube a Andrea realizar tarefas como coordenar a construção de banheiros para homens e mulheres em uma escola ou dirigir um curso de confeitaria para apoiar a inserção trabalhista de haitianas.
“Ainda se vê muitas” mulheres cumprindo papeis tradicionais, como enfermeiras, médicas ou assistentes sociais, disse ao TerraViva a advogada Malena Derdoy, diretora de políticas de gênero do Ministério da Defesa da Argentina.
A incorporação feminina depende de vários fatores, disse a assessora de igualdade de oportunidades do Ministério da Defesa do Chile, Pamela Villalobos. A apresentação é voluntária e as mulheres devem atender padrões exigidos pelas Nações Unidas e passar com êxito nos testes.
Para a capitã Andrea, a contribuição das mulheres militares “é diferente” da dos homens. “Nem melhor, nem pior, porque nós temos outra sensibilidade, que nos aproxima muito mais das pessoas”, afirmou.
A Minustah chegou pouco depois do golpe de Estado de 2004, que derrubou Jean-Bertrand Aristide, e seu mandato foi sucessivamente renovado diante da debilidade do Estado e dos desastres naturais, como o terremoto de janeiro.
Apenas dois dos países latino-americanos na Minustah, Argentina e Chile, têm planos para implementar a Resolução 1325.
Em agosto de 2009, o Chile se converteu no primeiro país da América a contar com um plano de ação nacional nesse aspecto. A Argentina aprovou outro referente apenas à área de defesa. Apenas 22 Estados têm planos deste tipo em todo o mundo.
No Chile, um avanço concreto, segundo Pamela, é a incorporação de questões como a proteção especial das mulheres e meninas na formação das academias militares. Outro resultado é a produção de estatísticas de gênero, que tornam visíveis as mulheres nestas missões.
O encarregado de imprensa do exército uruguaio, major Jesus Aires, disse desconhecer se os militares uruguaios na Minustah recebem formação de igualdade de gênero. “A missão não está orientada ao tema gênero”, disse outra fonte militar que pediu para não ser identificada. Envolverde/IPS
* Com colaborações de Marcela Valente (Buenos Aires) e Silvana Silveira (Montevidéu).


