México e Uruguai, 19/10/2010 – Um método de controle biológico que terminou com a “bicheira” do gado nos Estados Unidos, no México e na América Central, acaba de ser testado com sucesso em dois países sul-americanos com vistas a ser adotado por todo o Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai).
A fêmea da mosca copula uma única vez e coloca seus ovos em qualquer área ferida dos animais. As larvas escavam, literalmente, os tecidos e podem chegar até o osso. No Uruguai, um país pecuarista, afeta 5,7% dos ovinos e 3,4% dos bovinos, segundo um estudo oficial feito com 430 produtores. As perdas são muitas para um país pequeno e estão estimadas em US$ 210 milhões ao ano.
“É preciso trabalhar muito para combatê-la. Se é um ano de chuvas, os cascos das ovelhas amolecem, e a mosca aproveita para depositar ali seus vermes que, em seguida, começam a comer”, disse à IPS o pecuarista Gustavo Rianni García, que tem seis mil hectares no Departamento de Artigas, fronteira com o Brasil. “O animal afetado deixa de comer e procura a sombra”. Então, “é afastado para erradicar a doença, e se não há solução é colocado para realizar trabalhos”, acrescentou.
Exterminar esta zoonose, que causa grandes prejuízos, é a missão da Comissão México-Americana para a Erradicação da Bicheira do Gado (Comexa), criada por Estados Unidos e México em 1972. Para isso produz machos estéreis em sua fábrica de Tuxtla Gutiérrez, capital do Estado mexicano de Chiapas. O método consiste em criar e esterilizar os machos em laboratório, irradiando-os com césio 137, e depois soltá-los no campo para que cruzem com as fêmeas, que não poderão procriar, levando ao desaparecimento paulatino da espécie na região.
Os Estados Unidos se libertaram da praga em 1966, e o México em 1991. Desde então, a Comexa conseguiu eliminar alguns focos locais e estender os êxitos a quase toda a América Central, Caribe e inclusive Líbia, explicou à IPS seu diretor, Alejandro Parra. A técnica foi desenvolvida pelos entomologistas norte-americanos Edward Knipling (1909-2000) e Raymond Bushland (1910-1995), que estudavam o problema desde 1937, mas apenas na década de 1950 concretizaram a ideia de aplicar radiações curtas que alterassem a capacidade reprodutiva dos insetos sem afetar suas demais funções.
Um plano-piloto com moscas esterilizadas no México foi aplicado em 2009 no Brasil e no Uruguai, e as avaliações recém-concluídas são promissoras. Entre 23 de janeiro e 15 de maio do ano passado foram espalhados em voos baixos mais de 200 milhões de machos estéreis, trazidos de Chiapas, em uma faixa de cem quilômetros de comprimento por 60 de largura na fronteira uruguaio-brasileira, tomando como eixos as cidades de Artigas, no Uruguai, e Quaraí, no Brasil.
“O teste serviu para demonstrar que a técnica funciona com cepas autóctones e também para capacitar pessoal. Foi uma boa experiência para ver as possibilidades de um plano regional”, disse à IPS o diretor-geral de Serviços Pecuários do Ministério da Pecuária, Agricultura e Pesca do Uruguai, Francisco Muzio. A porcentagem máxima de esterilização foi obtida na faixa brasileira, onde chegou a 40,7% da população de moscas, enquanto a esterilização em toda a área estudada foi de 25%.
“Tudo leva a concluir que isso ocorreu porque a densidade de população animal no Uruguai era maior, sobretudo porque havia muita presença de ovinos (mais vulneráveis), enquanto há mais agricultura do lado brasileiro”, disse Francisco. Em uma reunião de agosto deste ano, os pesquisadores concluíram que se a técnica continuar sendo aplicada, será conseguida uma efetiva predominância da população estéril sobre a fértil. A operação custou US$ 2,6 milhões e contou com apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento, que entrou com US$ 1 milhão.
Gustavo, cuja propriedade foi uma das beneficiadas pela esterilização, constatou uma queda da praga desde então. “Se continuar, poderá ser uma solução. O Ministério não deveria deixar de investir nisto”, afirmou. Agora, o objetivo é conhecer a população autóctone total de moscas, a utilidade das barreiras naturais, a densidade pecuária, a mobilidade dos animais e a incidência em humanos, para aplicar um plano de alcance regional. Da experiência também participaram representantes paraguaios e argentinos
A bicheira não só deixa doente e mata o gado, como também destroi pele e couros, e causa enormes gastos com inseticidas, tratamentos e fechamento de mercados ao gado de países afetados. Segundo estimativas feitas em 2000, as perdas anuais chegavam a US$ 210 milhões no Uruguai, US$ 1,77 bilhão no Brasil e US$ 103 milhões no Paraguai, afirma a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). Embora o controle biológico empregue um material muito radiativo, a FAO afirma que não é agressivo ao meio ambiente e que é inócuo para o ser humano.
Por outro lado, “não foi registrado impacto na biodiversidade, já que existem muitas outras espécies de moscas que cobrem esse nicho biológico”, afirmou Alejandro. Depois que os Estados Unidos erradicaram a praga e fechou sua própria unidade produtora, o México se converteu em “uma referência mundial do avanço da tecnologia”, acrescentou. Além destes dois, a bicheira foi erradicada de Belize, Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras e Nicarágua, e está em vias de extinção no Panamá, onde funciona outra fábrica de moscas estéreis.
Também desapareceu de Aruba, Curaçao e Ilhas Virgens, no Caribe. Na América do Sul apenas o Chile está livre desta zoonose. Em 1988, surgiu um foco na Líbia, pela exportação de ovinos sul-americanos infectados. A primeira notificação foi de 200 contágios humanos. Com apoio da FAO e do Banco Mundial, a Comexa extirpou a praga em 1992, após ter realizado 50 voos com 1,3 bilhão de moscas estéreis. Envolverde/IPS


