Corais resistem em Bonaire

Bonaire, Antilhas Holandesas, 18/10/2010 – Uma equipe de cientistas examinou minuciosamente os arrecifes desta ilha localizada ao norte da Venezuela para determinar o motivo de sobreviverem à devastação de 85% dos corais do Caribe desde a década de 1970.

Corais resistem em Bonaire

Neste arrecife de Bonaire, o coral verde oliva está vivo, e o de manchas cinza está morto. - Living Oceans Foundation/IPS

Só nos últimos 30 anos, a cobertura coralina do Caribe passou de saudáveis 65% para aproximadamente 20%. Novas doenças e invasões de algas mataram boa parte dos corais que se estendem do Estado norte-americana da Flórida, onde essa coberta é diminuta, até Bonaire, onde fica boa parte dos 20% remanescentes. A costa caribenha da América Central está igualmente danificada.

Se for comprovada a previsão de oceanos mais quentes e mais ácidos devido à mudança climática, o futuro será ainda mais devastador para os corais sobreviventes. Quando a água esquenta muito, os corais descolorem e, em geral, morrem. Embora o Golfo Pérsico tenha sofrido um destino semelhante, principalmente por culpa da contaminação com petróleo, o Caribe é, de longe, a maior região a perder a maior parte de seus corais. Estes são colônias de animais individuais e diminutos que se alimentam de algas igualmente diminutas.

“Isto significa que milhões de pessoas estão perdendo um abundante fornecimento de peixes baratos e nutritivos”, explicou Andrew Bruckner, chefe da equipe científica da Khaled Bin Sultan Living Oceans Foundation, com sede em Washington. Além disso, os corais dão proteção contra as ondas e atraem turistas, disseram ele e outros cientistas. Por contraste, Bonaire tem águas excepcionalmente claras, o que, desde a década de 1970, converteu esta ilha em paraíso dos mergulhadores. Em um clássico círculo virtuoso, o governo local restringiu com sucesso a pesca para manter peixes e arrecifes em bom estado e fazer com que continuem chegando mergulhadores para se divertir e gastar dinheiro.

Entretanto, enfermidades prevalentes em todo o Caribe quase erradicaram os corais chifre de alce e chifre de cervo, que antes cobriram as zonas mais rasas de Bonaire, junto à costa, proporcionando hábitat para muitos peixes e crustáceos comestíveis. Em águas um pouco mais profundas, muitos dos enormes corais estrela, chaves na hora de construir os arrecifes, não tiveram a mesma sorte. Poucos continuam vivos.

Utilizando um tanque para mergulho e aparelhos para medições, entre outros implementos, Andrew entrou uma manhã nas águas de Taylor Made, uma das desertas praias da ilha. O fez na qualidade de líder de uma dezena de cientistas que durante uma semana realizaram uma expedição para contar os corais mortos e os sadios, junto com as populações de peixes. Debaixo d’água, observou alguns dos últimos chifres de cervo. Então, a equipe que este jornalista acompanhava chegou a alguns corais estrela gigantes, de até seis metros de altura, com idade entre 500 e mil anos, e Andrew fez um sinal de positivo com o polegar: eram verde-oliva e estavam sãos.

Um pouco mais distante, outros corais estrela eram metade verdes, metade marrons, separados por uma linha esbranquiçada. Sofriam da doença da praga branca, pertencente a uma família de patologias que dizimam corais do Caribe. Andrew fez sinal de negativo. No entanto, sobre muitos dos corais mortos havia pequenos sinais de corais vivos. De regresso do mar, o cientista destacou que “o que vemos aqui é um arrecife que sofreu enfermidades e descoloração, mas os novos corais nos dizem que o arrecife está se recuperando rapidamente”.

Isso se deve ao fato de ainda haver suficientes peixes que comem algas em seu entorno, para manter limpa a superfície dos corais mortos. Também ajuda o fato de no lugar chover pouco e não serem comuns furacões, que danificam os arrecifes. No restante do Caribe, os corais mortos logo ficam cobertos de algas e as larvas coralinas não têm onde se assentar. Depois de um furacão, muito pouco volta a crescer. Mas em Bonaire, Andrew disse que, desde 2005, quando investigou pela última vez os arrecifes da ilha, houve uma degradação muito menor do que no restante do Caribe no mesmo período.

Pescadores e contaminantes são apenas os assassinos mais tangíveis dos corais. Mas na medida em que a Terra fica mais quente os períodos de águas quentes arrasam corais inteiros. A primeira elevação de temperatura importante aconteceu em 1998, e a maioria dos arrecifes caribenhos nunca se recuperou. Este ano promete ser o mais quente desde 1998 no Caribe, e já se observa que alguns corais estão morrendo. E se não bastarem as águas mais quentes, uma falta de seres que se alimentam de algas e a contaminação, há outra inimiga: a acidificação dos oceanos.

Enquanto nos últimos dois séculos aumentou um terço o dióxido de carbono na atmosfera, um terço desse aumento foi absorvido pelos oceanos. Assim, a água oceânica agora está mais ácida do que antes, o que dificulta a formação dos esqueletos coralinos. E os efeitos já são sentidos. “Na Grande Barreira de Coral, o ritmo de calcificação diminuiu 15% desde 1990”, afirmou Ove Hoegh-Gulberg, biólogo especialista em corais da Australiana Universidade de Queensland.

“Pouquíssimos corais sobreviverão neste século, e os que sobreviverem estarão em muito mal estado”, acrescentou Ken Caldeira, da Carnegie Institution. Andrew se mostrou mais otimista. “Os antecedentes históricos mostram que os corais são muito adaptáveis”, disse. “Se pudermos restringir a pesca e a contaminação, e criar mais reservas marinhas, poderemos salvar alguns dos arrecifes de coral do Caribe. E, mesmo se não o fizermos, em lugares como as remotas ilhas do Pacífico, as espécies de corais mais vulneráveis morrerão e serão substituídas por outras mais fortes. Simplesmente, não creio que desaparecerão totalmente”, ressaltou. Envolverde/IPS

* Este artigo é parte de uma série de reportagens sobre biodiversidade produzida por IPS, CGIAR/Bioversity International, IFEJ e Pnuma/CDB, membros da Aliança de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustentável (www.complusalliance.org).

Christopher Pala

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