PUNO, Peru, 19/10/2010 – (Tierramérica).- Um trecho do Corredor Viário Interoceânico Sul na Amazônia peruana será inundado por uma represa hidrelétrica.

Trecho da estrada bioceânica em uma área que será inundada pela represa de Inambari, em Puno, no Peru - Milagros Salazar/IP
O projeto, que faz parte da Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana (IIRSA), avança a todo vapor para que seja cumprida a promessa governamental de concluí-lo em abril de 2011. O Corredor Viário é uma rede de várias estradas para unir três portos peruanos no Pacífico com a localidade de Iñapari, no departamento de Madre de Dios, fronteiriça com o Brasil. Os trechos quatro e três ligam uma até agora isolada região do sul, de Anzágaro, no departamento de Puno, até Iñapari.
O projeto de Inambari, a cargo da Empresa de Geração Elétrica Amazonas Sul (Egasur), incluirá uma central e uma represa de 37.800 hectares no coração da selva, que inundará 43,5 quilômetros do trecho dois da estrada, em Cusco, 61,5 quilômetros do trecho quatro, em Puno, e um quilômetro do trecho três, em Madre de Dios. O Terramérica comprovou que grande parte da estrada já está terminada. Os moradores e técnicos duvidam que os cem quilômetros que ficariam sob a água possam ser recuperados, pois o traçado alternativo proposto incluiria uma área muito acidentada e também implicaria em cortar florestas primárias.
A Egasur, de capital brasileiro, apresentou em janeiro de 2010 ao Ministério de Transporte e Comunicações um projeto para modificar os trechos dois e quatro da estrada, tal como aparece em uma carta da empresa à qual o Terramérica teve acesso. Segundo a proposta, o traçado alternativo, de 98 quilômetros, exigirá investimento de US$ 377 milhões da empresa, segundo uma versão preliminar do estudo de viabilidade de Inambari.
“Quem nos garante a nova estrada? Há montanhas e árvores onde dizem que vão construir. E se não puderem?”, disse ao Terramérica a presidente da Frente de Organizações do Rio Inambari, Olga Cutipa, uma dos muitos moradores que lutaram pela construção dessa via por 40 anos. De forma simultânea, a Egasur apresentou ao Ministério de Minas e Energia, na primeira semana deste mês, uma versão final do estudo de viabilidade da hidrelétrica, que se mantém em sigilo, segundo soube o Terramérica. Dirigentes sociais de Puno, que chegaram a Lima no dia 12 para protestar contra Inambari, exigiram que as autoridades o tornem público.
Os capitais das empresas que executam estas obras que se superpõem têm algo em comum: são brasileiros. A Egasur é formada pela construtora OAS e pela Eletrobrás Furnas, ambas do Brasil. Os trechos dois e três da estrada foram entregues ao Consórcio Concessionário Interoceânico, encabeçado pela construtora Norberto Odebrecht S.A., do Brasil, que realiza as principais obras de infraestrutura no Peru. O trecho quatro é executado pelo consórcio Intersur Concessões S.A., da Andrade Gutiérrez, Camargo Corrêa e Queiroz Galvão. Estas empresas, junto com a Odebrecht, formam um oligopólio da construção de grandes obras na América Latina e na África, normalmente financiadas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Inambari é uma das cinco hidrelétricas que se pretende construir na Amazônia peruana como parte do acordo assinado entre Peru e Brasil em junho, para geração de seis mil megawatts. Organizações não governamentais garantem que o acordo beneficiará principalmente o Brasil, pois o Peru deverá entregar ao país vizinho uma porcentagem permanente de energia sem poder elevar sua participação para uso interno durante 30 anos.
A engenheira Rosario Linares, da Sociedade Civil pela Construção da Estrada Transoceânica de Puno, disse ao Terramérica que o projeto da estrada alternativa é inviável por ficar uma área de deslizamentos. Também questionou que a proposta da Egasur apresentada em janeiro não incluiu um estudo ambiental e social. Não foi possível conseguir a posição do Ministério de Transportes para este artigo, apesar de duas semanas de gestões.
A via alternativa contempla sete pontes em Cusco e outras seis em Puno. Uma delas, sobre o Rio Inambari, preocupa Rosario por sua dimensão: 640 metros de comprimento e 220 metros de altura. Em uma resposta por e-mail, uma fonte da Egasur disse ao Terramérica que “o importante é que os novos traçados serão estradas de nível 1 e manterão os eixos conectados”. A Intersur, que trabalha no trecho de Puno, respondeu que a Egasur não a informou sobre seus planos de inundação e que a empresa continuará trabalhando para terminar o asfalto.
A situação revela falta de planejamento da infraestrutura em um ecossistema frágil como a Amazônia, disse o advogado Mariano Castro, da não governamental Sociedade Peruana de Direito Ambiental. “Estes projetos têm impactos sociais e ambientais que devem ser considerados com rigor, porque não são executados em territórios vazios”, ressaltou Mariano ao Terramérica.
* A autora é correspondente da IPS.

