Manágua, Nicarágua, 19/10/2010 – Alejandro Silva foi forçado a defender sua posição contra o machismo a socos, quando, ao sair de um painel sobre igualdade de gênero, foi agredido por outros colegas de classe na Nicarágua que o chamavam de homossexual.
Aguentou enquanto gritavam obscenidades e o chamavam de “homossexual e mulherzinha”, mas esqueceu o que aprendera quando os demais adolescentes tocaram sua namorada, que o acompanhava, e tentaram pintar o rosto dele com batom.
Tinha muito claro em sua mente um ensinamento do painel: “homens e mulheres são iguais, pensar que o homem é superior é machismo, e o machismo só deixa violência”.
Porém, brigou e, apesar de ter se saído bem na luta, ficou tão desmoralizado e envergonhado que deixou de assistir os paineis. Só agora voltou a outro, com objetivos parecidos que é apresentado em seu bairro, em uma área pobre do leste da capital.
Alejandro participava com outros adolescentes de sua escola da campanha educativa “Ser machista é ‘balurde’”, uma palavra que na gíria juvenil nicaraguense define o mau gosto ou significa que “não é uma boa”,
Esse programa é voltado a crianças e adolescentes entre dez e 15 anos, e é promovido desde 2007 pela Rede Masculinidade pela Igualdade de Gênero (Redmas).
Mais de 25 mil nicaraguenses participaram de diferentes programas de gênero nos últimos três anos e, como Alejandro, começaram o nada fácil caminho de transformar condutas como o machismo e a desigualdade de gênero.
Douglas Mendoza, responsável de Capacitação e Aliança da não governamental Fundação Pontos de Encontro e coordenador da Redmas, disse à IPS que a construção de uma nova visão de masculinidades não machistas enfrenta posturas tradicionais violentas e a rejeição contra os que participam dos programas.
A Redmas reúne 17 organizações não governamentais e sete instituições estatais da Nicarágua. Por sua vez, a rede integra a MenEngage, uma aliança global de ONGs e agências da Organização das Nações Unidas (ONU) que possui 500 integrantes na América Central.
A MenEngage realiza pesquisas, intervenções e incidência política que objetivam o envolvimento dos homens na promoção da igualdade de gênero, da saúde e do bem-estar de crianças e mulheres.
Douglas explicou à IPS que a Redmas promove espaços coletivos para trabalhar especialmente com crianças, adolescentes e jovens de ambos os sexos, bem como casais, na formação de uma masculinidade com enfoque de gênero.
Contou que, para isso, capacitou 1.500 promotores e promotoras, para levarem a mensagem a mais de 25 mil crianças e jovens de todo o país. Não apenas com a campanha “Ser machista é balurde”, mas com outras como “‘Jalencia’ sem violência” (jalencia significa namorar na gíria dos jovens nicaraguenses).
A experiência na Nicarágua serviu para que ONGs centro-americanas visitem o país para capacitação nos projetos sobre novas masculinidades da Pontos de Encontro, para adaptá-los às suas realidades.
Os programas que mais interesse despertam são “Ser machista é balurde” e “Escola para pais”, uma proposta de capacitação com enfoque de gênero e masculinidade com pais e mães jovens.
Elisa Villavicencio, jovem de 23 anos de Manágua, se sente beneficiária direta da campanha de paternidade responsável, depois que conseguiu superar a reticência de seu companheiro em participar do programa.
“No começo, me dizia que isso era para homossexuais, e que ninguém tinha que ensinar como criar nossa filha”, contou.
“Depois o convenci a ir e, na verdade, ele foi mudando. Agora, já dá até banho na menina e troca as fraldas”, contou, rindo à IPS.
Essas campanhas contam com apoio de algumas ONGs internacionais, agências da ONU, ministérios nicaraguenses e de outras instituições públicas e privadas locais.
Ligia Arana, diretora do Programa Interdisciplinar de Estudos de Gênero da Universidade Centro-Americana (UCA), de Manágua, disse à IPS que uma nova forma de construção de masculinidades vai se tornando realidade nos países do istmo, apesar das muitas resistências.
Destacou que seu programa e todas as demais instituições envolvidas partem do princípio de que “a educação é a base fundamental para todas as transformações humanas”.
Explicou que por meio de seminários, pós-graduação, mestrados e cursos dirigidos principalmente a homens, contribui para superar essa “visão machista que historicamente mantém atados os direitos das mulheres à condição biológica, ao determinismo biológico”.
“Esse modelo, onde o homem se coloca acima da mulher como ser superior, está caindo pouco a pouco e hoje esse modelo de masculinidade tradicional entrou em crise”, acrescentou.
Um estudo do Centro de Análise Sócio-Cultural da UCA, feito em 2005 em nível centro-americano, revelou que na Nicarágua e no resto da região se percebia uma mudança de visão e atitude nos homens em relação ao papel tradicional de masculinidade.
O estudo “Masculinidade e fatores socioculturais associados à paternidade” aplicou uma pesquisa em 1.200 homens casados e solteiros, urbanos e rurais, sobre representações e comportamentos masculinos diante de paternidade, religião, natureza, sexualidade, reprodução, família, masculinidade e visão do mundo.
A pesquisa revelou que 90,2% dos homens centro-americanos estavam de acordo quanto a colaborar nas tarefas domésticas.
Diante da afirmação de que “o homem não deve expressar sentimentos nem carinho”, 61% se mostraram contrários, e 96% concordaram que “se um homem engravida uma mulher, a responsabilidade é de ambos”.
Na América Central, um dos principais problemas de segurança social é a violência de gênero e as agressões sexuais, segundo estudos da ONU e de instituições do istmo.
O informe “Abrir Espaços à Segurança Social e ao Desenvolvimento Humano”, que analisou a situação de insegurança na América Central, estima que duas em cada três mulheres assassinadas na região morrem por razão de gênero. Os feminicídios – como se chama esse tipo de crime – já estão incluídos nas leis destes países.
Além disso, pelo menos 15 mil mulheres foram violadas entre 2000 e 2005 nos quatro países dos quais se obteve registros oficiais: Costa Rica, El Salvador, Guatemala e Nicarágua. Envolverde/IPS


