Gaza, Palestina, 14/10/2010 – Samir Tahseen Al Nadeem morreu após esperar por 35 dias uma autorização para sair de Gaza e poder tratar seus problemas cardíacos. Tinha 26 anos. Os remédios que precisava nunca chegaram, mas seu caixão chegou. O Ministério da Saúde palestino registrou até agora 375 mortes causadas pela falta de medicamentos em Gaza. A maioria fica presa nos postos de controle israelenses até vencerem. Porém, não há data de vencimento para os cerca de dez mil caixões que foram doados a Gaza. Estes podem entrar neste território costeiro palestino submetido a férreo bloqueio israelense. No final do mês passado, mais de 70% dos medicamentos doados para Gaza, avaliados em vários milhões de dólares, tiveram de ser jogados fora por estarem com prazo de validade vencido, informou o Ministério da Saúde palestino. “Grande parte dos remédios doados veio de Estados árabes”, disse à IPS o diretor do Departamento Farmacêutico, Mounir Al-Boursh, explicando que as nações árabes entregaram mais de 10,3 toneladas de medicamentos, no valor de US$ 25 milhões. No entanto, apenas 30% destes poderão ser usados, pois o restante venceu ou ainda está nas mãos dos israelenses, acrescentou.
Tampouco é fácil se desfazer dos medicamentos. Se forem jogados com o lixo comum pode-se colocar em risco a saúde da população de Gaza. A Organização Mundial da Saúde está preocupada com “a disposição insegura dos remédios e outros materiais médicos”, disse um porta-voz da entidade à IPS. Por outro lado, as autoridades de Gaza receberam dez mil caixões, cerca de mil para crianças, informou Mounir. Entretanto, isso não “cobre as necessidades”.
O que Gaza precisa são 110 tipos de remédios e 123 tipos diferentes de equipamentos médicos. Calcula-se que o território ficará sem medicamentos nos próximos meses. O anunciado alívio do bloqueio israelense até agora não se traduziu em maior entrada de suprimentos médicos. Os remédios mais necessitados são os destinados a crianças, aos departamentos de maternidade e para quem se trata de doenças como câncer, epilepsia, hemofilia e talassemia.
“A morte virou rotina”, disse uma jovem mulher de Jabaliya, norte da Faixa de Gaza, enquanto espera no corredor do Hospital Infantil de Al Nasser. Ao seu lado, os pais de Israa Tabsh, de dois anos, lutam para salvar a filha de um problema cardíaco congênito. “Esperamos durante semanas pela autorização para sair de Gaza para que Israa faça a cirurgia cardíaca que precisa”, disse o pai, Fayez Al Tabsh. O hospital Al Maqased, em Jerusalém oriental, oferece o tratamento adequado, mas não podem chegar lá.
A família, como tantas outras, primeiro precisa de uma autorização de saúde e depois de uma garantia financeira do Ministério da Saúde na Cisjordânia, governada pelo secular Al Fatah. Gaza é controlada pelo Movimento de Resistência Islâmica (Hamas). Conseguir tal apoio financeiro é quase impossível para a maioria dos pacientes. “São necessários conhecimentos”, disse uma mãe de 53 anos que pediu uma garantia para seu filho. “Estamos presos entre funcionários corruptos e a morte”, lamentou.
Os pacientes em Gaza dependem do governo da Cisjordânia para obter autorizações e remédios. Neste ano, Gaza recebeu apenas 22% dos medicamentos que necessitava da Autoridade Nacional Palestina, disse Mounir. O fornecimento diminuiu. “Em 2008 recebemos 50% e em 2009, 49%”, declarou. Por outro lado, os remédios que chegam a tempo não são armazenados adequadamente. No depósito de Al Ghifari, em Gaza, há vazamentos de líquidos. “São os ratos”, disse um funcionário. “Eles chegam aos remédios, e os pacientes aos caixões”, acrescentou. Envolverde/IPS

