Desencanto judeu com Obama

Washington, Estados Unidos, 15/10/2010 – A comunidade judia dos Estados Unidos se torna mais cética sobre o desempenho do presidente Barack Obama e exige ações mais firmes contra o Irã, segundo uma pesquisa recente. Trata-se da última de uma série de pesquisas anuais elaboradas pelo Comitê Judeu Norte-Americano (ACJ) há mais de uma década. A pesquisa, que ouviu 800 pessoas que se autoidentificaram como judias norte-americanas, também constatou queda no apoio à maneira como Obama lida com as relações entre Estados Unidos e Israel, em relação à pesquisa do ACJ divulgada há oito meses. Em março, 55% dos consultados expressaram sua aprovação ao desempenho de Obama nas relações com Israel, e apenas 39% o desaprovaram. Na última pesquisa, o apoio ao presidente nesse campo caiu para 49%, e a reprovação subiu para 45%. Por outro lado, o apoio da comunidade judia a eventuais ações militares contra o Irã, “para evitar que desenvolva armas nucleares, se a diplomacia e as sanções falharem”, cresceu de 53% para 59% desde março, enquanto a rejeição a essa opção caiu de 42% para 35% no mesmo período. Trata-se de uma clara tendência a favor da alternativa militar. Na pesquisa de 2008, 47% dos entrevistados foram contra o ataque e 42% o apoiavam.

“Não creio que esses resultados sejam surpreendentes, especialmente considerando a propagada islamofobia na mídia norte-americana, o discurso constante sobre a ameaça iraniana por parte dos políticos israelenses e seus partidários nos Estados Unidos, além do repetido fracasso da administração Obama para explicar o que está fazendo no Oriente Médio”, disse o analista Stephen Walt, da Universidade de Harvard. Stephen também é coautor do polêmico livro “The Israel Lobby” (O lobby israelense), de 2007.

A pesquisa revela que as posturas mais belicistas das principais organizações judias, incluindo o ACJ, ganharam terreno contra as mais liberais nos últimos oito meses. A pesquisa foi divulgada faltando três semanas para as eleições legislativas de novembro. Na campanha, o opositor Partido Republicano critica duramente Obama por suas cambaleantes relações com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Segundo as pesquisas, os republicanos poderiam voltar a controlar pelo menos uma das casas do Congresso.

O presidente o ACJ, David Harris, fez declarações em consonância com o discurso republicano do dia 12, ao afirmar que “o mais perturbador” da pesquisa é “o nervosismo dos judeus norte-americanos sobre os dois temas de política externa” importantes para os Estados Unidos e a forma como Obama respondia a eles. É a primeira vez que o ACJ realiza duas pesquisas no mesmo ano. “As coisas estão muito incertas no Oriente Médio, e nos pareceu um bom momento voltar a considerar a ameaça nuclear iraniana, e como está sendo encarada, bem como as relações entre Estados Unidos e Israel e o processo de paz”, disse o porta-voz do ACJ, Kenneth Bandler. Além disso, “queríamos avaliar a opinião com vistas às eleições” legislativas, acrescentou.

Esta última pesquisa deu boas notícias à oposição. Um terço dos consultados disseram acreditar que “o país estaria melhor se os republicanos controlassem o Congresso”. Historicamente, o apoio da comunidade judia aos republicanos gira em torno dos 20%. Apesar de seu número relativamente pequeno (cerca de 2% da população total dos Estados Unidos e em torno de 3% dos eleitores na maioria das eleições), os judeus norte-americanos são importantes financiadores das campanhas políticas. Respondem por, pelo menos, 25% de todas as contribuições financeiras para as campanhas nacionais, e até com 40% das recebidas pelo Partido Democrata.

Nos últimos anos, os republicanos tentaram atrair esse apoio, com pouco êxito. Para cortejar os eleitores e contribuintes judeus, destacam seu apoio praticamente incondicional ao Estado de Israel, particularmente no governo de Netanyahu, que forjou estreitos vínculos com os neoconservadores e a direita cristã, que formam a ala mais belicista do Partido Republicano. A última pesquisa sugere que sua estratégia pode estar dando resultado.

“Diante da pergunta se algo pode fazer com que os judeus abandonem sua dedicação ao Partido Democrata, a resposta é Obama”, escreveu a comentarista política Jennifer Rubin em seu blog “Contentions”. Jennifer acrescentou que o apoio a Obama na comunidade judia caiu de 57% em março para 51% em setembro, apenas uns poucos pontos percentuais acima do apoio do público em geral ao presidente.

“Um apoio de 50% para um presidente democrata entre os judeus é, francamente, terrível”, disse ao semanário New York Jewish Week o especialista político Larry Sabato, da Universidade de Virginia. A pesquisa do ACJ sugere que o desencanto judeu com Obama pode ter mais a ver com temas econômicos do que com suas políticas no Oriente Médio. O nível de apoio mais baixo que recebeu (45%) foi quando os entrevistados foram consultados sobre a maneira como lida com a economia.

* O blog de Jim Lobe sobre política externa pode ser lido no http://www.lobelog.com.

Jim Lobe

Jim Lobe joined IPS in 1979 and opened its Washington, D.C. bureau in 1980, serving as bureau chief for most of the years since. He founded his popular blog dedicated to United Stated foreign policy in 2007. Jim is best known for his coverage of U.S. foreign policy for IPS, particularly the neo–conservative influence in the former George W. Bush administration. He has also written for Foreign Policy In Focus, AlterNet, The American Prospect and Tompaine.com, among numerous other outlets; has been featured in on-air interviews for various television news stations around the world, including Al Jazeera English; and was featured in BBC and ABC television documentaries about motivations for the U.S. invasion of Iraq. Jim has also lectured on U.S. foreign policy, neo-conservative ideology, the Bush administration and foreign policy and the U.S. mainstream media at various colleges and universities around the United States and world. A proud native of Seattle, Washington, Jim received a B.A. degree with highest honours in history at Williams College and a J.D. degree from the University of California at Berkeley’s Boalt Hall School of Law.

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