A Fifa contra o tráfico de jovens

Abidjan, Costa do Marfim, 08/11/2010 – Adorado por suas habilidades técnicas e seu faro de gol em um bairro desta cidade da Costa do Marfim, aos 15 anos Maurice Koné sonhou converter-se em um grande jogador de futebol no estrangeiro.

Milhões de jovens africanos arriscam tudo para ser como a estrela do futebol marfinense Didier Drogba. - Mark Freeman/WikiCommons.

Milhões de jovens africanos arriscam tudo para ser como a estrela do futebol marfinense Didier Drogba. - Mark Freeman/WikiCommons.

“Certa tarde, chegou à minha casa um dos rapazes mais velhos do bairro e disse aos meus pais que um caça-talento ouvira falar de mim e queria que eu assinasse uma contrato na Suíça”, recordou Maurice. “Éramos sete jovens na mesma situação. Só o que tínhamos de fazer era conseguir 1,5 milhão de francos CFA (US$ 3,2 mil) em duas semanas”, contou.

Desde 2000, mais de três mil jogadores, a maioria menor de 18 anos, deixaram seus lares na África para tentar a sorte na Ásia e Europa, segundo o site da Associação de Futebol Solidário, uma organização com sede em Paris. Organizações do tipo mafiosas convencem jovens africanos a irem fazer teste em um grande clube europeu ou asiático e tiram dinheiro de seus pais, a maioria pobres. Depois os abandonam à própria sorte, sem recursos para se manterem.

“Eu ganhava 135 mil francos CFA (US$ 290)”, contou um amargurado Habib Koné, pai de Maurice. “Me endividei com a esperança de que em algum momento ele pudesse assumir seus sete irmãos e irmãs”, acrescentou.

Para surpresa dos sete aventureiros, o avião em que embarcaram em Abidjan não ia para a Europa, mas para a cidade tailandesa de Pattaya. “No mês em que chegamos e após vários testes em clubes locais sem que nada acontecesse, nosso guia desapareceu. Ficamos quatro meses no limbo, fazendo qualquer coisa para sobreviver. Depois nos deportaram para Tunis”, contou Maurice. “Eu e um outro avisamos nossos pais e voltamos para Abidjan”, acrescentou. Outros dois foram para a Espanha e três conseguiram testes em clubes de Tunis. Maurice não soube mais deles. “Não sei se conseguiram cumprir o sonho, ou não”, afirmou.

A Federação Internacional de Futebol (Fifa) implementou uma iniciativa para dar maior transparência às transferências de jogadores e proteger os mais jovens. O sistema de correlação de transferências (TMS) entrou em vigor no dia 1º de outubro. Para concretizar uma transação, os clubes devem preencher um formulário na Internet com 30 itens sobre cada jogador. A informação deve coincidir para que as associações que são membros da Fifa possam expedir o certificado de transferência internacional.

“Quer dizer que os jogadores jovens não poderão passar de um clube para outro sem deixar vestígios”, explicou Alain Malan, consultor esportivo em Abidjan. “O jogador deve ser maior ou ter permissão dos pais e ter aprovação da federação nacional”, acrescentou. “Não há mais vendas diretas de jogadores. Os clubes que recrutam jovens por pouco dinheiro, com a ideia de vendê-los por muito mais, terão de revisar sua política”, disse Alain.

Segundo as novas diretrizes da Fifa, não será mais autorizada a venda de jovem que não pertençam a um clube registrado na federação local. O TMS segue o histórico e a trajetória das transferências dos menores. Desde sua aprovação pelo Congresso da Fifa em 2009, uma subcomissão da Comissão do Estatuto do Jogador deve aprovar toda transferência e todo pedido de primeira inscrição de um menor em um país que não seja o seu.

“As maracutaias com os jogadores africanos vão acabar. Chegamos ao final de um êxodo selvagem de jovens talentos”, disse à IPS o representante esportivo Emmanuel Koffi. “Há tempo esperávamos esse tipo de medida”, afirmou Eric Kacou, diretor de comunicação da Federação de Futebol Marfinense. Entre 10 e 15 jovens abandonavam a Costa do Marfim a cada ano, estimou Eric. “Trabalhamos com os clubes para que não saiam mais jogadores do país driblando o sistema”, ressaltou.

“Isso deveria ter criado há muito mais tempo. teríamos evitado muitas desilusões”, lamentou Abib Koné, culpando os governos africanos por não agirem com maior firmeza diante de um fenômeno endêmico. Envolverde/IPS

Fulgence Zamblé

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