JOANESBURGO, 19/11/2010 – Embora seja praticamente invisível a olho nu, um satélite puramente sul-africano tem estado a girar em torno da terra no último ano, criando um arquivo de imagens e iniciando aquilo que os seus inventores esperam venha a ser uma revolução espacial no país. Apelidado SumbandilaSat, que significa “Pioneiro” na língua Venda, o satélite foi concebido para ser uma introdução ao programa espacial sul-africano em crescimento.
Até agora, as incursões sul-africanas no espaço têm sido modestas e experimentais. Mas os cientistas esperam que a agência espacial do país em expansão possa revitalizar a ciência, impelir a África do Sul para a corrida no espaço e autonomizar o país nesta área.
Das 5.600 órbitas que fez à roda da terra desde que foi lançado para o espaço em Setembro de 2009, o SumbandilaSat criou 186 imagens utilizáveis. Estas imagens são processadas e compiladas em arquivo pelo Centro de Aplicações de Satélites (SAC) em Hartebeesthoek, onde o satélite é controlado.
O Dr. Corné Eloff, director do Centro de Observação da Terra no SAC, disse que, apesar da sua qualidade limitada, estas imagens podem ser usadas com as imagens de outros satélites que observam a terra para melhor monitorizar tudo, desde o crescimento dos bairros de lata até aos níveis de água nas barragens sul-africanas.
“Podíamos (monitorizar) cada casa na África do Sul,” afirmou Raoul Hodges, director do SAC, quando mostrava duas fotografias do Soweto, uma da década de 60 e outra tirada recentemente. As fotografias oferecem um testemunho visual que acompanha as habitações a preços acessíveis construídas pelo governo. “Podíamos então dizer, ‘Certo, o que é que mudou na realidade? O que é que o governo construíu na realidade?’”
Antes do lançamento do SumbandilaSat, o Centro de Aplicações de Satélites não tinha qualquer processo automatizado para processar imagens capturadas por satélite. Não só foi preciso criar-se esse processo como os cientistas tiveram de aprender como atribuir novas cores e redimensionar as imagens.
“O foco principal é tirar o maior número de imagens possível e usá-las (as fotografias) como curva de aprendizagem em termos das tarefas necessárias e do processamento de imagens.” disse Eloff. Acrescentou que, numa fase posterior, o processo teria de ser automatizado.
Embora o SumbandilaSat seja controlado agora pelo SAC, num futuro próximo ficará sob a alçada da Agência Nacional Espacial da África do Sul (SANSA), que será inaugurada antes do fim do ano, disse Hodges. Acrescentou que o SAC se vai fundir naquela organização no dia 1 de Abril de 2011.
O objectivo mais geral de fortalecer o progama espacial leva a que funcione como catalisador em prol do progresso científico no país, transmitindo investigação e desenvolvimento a estudantes nas instituições de ensino superior e criando empregos tão necessários num país com 25 por cento de desemprego, afirmou Eloff. “O nosso principal objectivo é estimular a indústria. Porquê? Para desenvolvimento social.”
Pouco depois do lançamento do SumbandilaSat, a Universidade de Tecnologia da Península do Cabo inaugurou o seu Programa de Engenharia de Sistemas de Satélites com o objectivo de formar cientistas neste novo campo do espaço. Eloff diz esperar que programas como este se tornem mais comuns depois da inauguração da SANSA e subsequente expansão.
A SANSA espera ter mais dois satélites operacionais até 2018, revelou Eloff. Actualmente, o centro está a fazer um levantamento entre a comunidade científica a fim de apurar que capacidades devem ter estes satélites, disse Hodges.
“Neste momento há muito entusiasmo na África do Sul. Estamos a entrar numa área da ciência e tecnologia que anteriormente nos era vedada,” referiu Eloff.
Chris Engelbrecht, professor universitário da Universidade de Joanesburgo, afirmou que um programa espacial alargado permitiria que novas indústrias beneficiassem da proliferação de imagens detalhadas do satélite.
“As empresas ligadas à agricultura, tratamento paisagístico e urbanização vão poder crescer, o que possivelmente levará ao aumento da produtividade,” disse Engelbrecht.
O SumbandilaSat é experimental, e representa em primeiro lugar uma oportunidade para que o SAC assuma pleno controlo de um satélite e oriente o seu lançamento e manutenção no espaço, uma tarefa essencial que o SAC ainda não tinha realizado antes, disse Eloff.
O centro está habituado ao processo de controlo de satélites, disse Hodges. Cerca de 90 por cento dos satélites do mundo passam pelo espaço aéreo sul-africano antes de saírem da atmosfera. E, por cerca de 60.000 dólares, os cientistas do SAC orientarão qualquer satélite durante os seus primeiros dias em órbita.
O SAC tem desempenhado este serviço para os setélites criados por programas espaciais internacionais e por empresas privadas. Mas o SumbandilaSat é o primeiro satélite que o SAC pode reivindicar como sendo seu.
“A missão é manter o satélite a trabalhar e fazermos nós próprios a monitorização remota,” disse Farhad Hassim, técnico de operações de satélite, especificando tarefas como o descarregamento de programas e a atribuição de trabalhos de fotografia enviados ao satélite como parte das suas operações de rotina.
Todavia, o satélite não deixa de ter os seus defeitos. Três dos sensores de cores na máquina fotográfica do satélite deixaram de funcionar após dois meses no espaço, e todas as fotografias que a máquina envia – que normalamente englobam uma área de 45 por 45 quilómetros quadrados – têm uma tonalidade vermelha. Eloff afirmou que isto era previsível dada a natureza experimental do satélite.

