KAMPALA, 18/11/2010 – Enfrentando um grave declínio na fertilidade do solo, que resulta numa baixa produção de culturas, os agricultores ugandeses decidiram recorrer à urina humana para melhorar a produtividade do solo. Os cientistas descobriram que a urina é uma fonte primária de nitrogénio, fósforo e potássio, elementos cruciais para a saúde das plantas e para criar resistência contra as doenças. Afirmam que o uso da urina como fertilizante irá ajudar a reabilitar os solos do país que sofrem os efeitos da erosão e estão deteriorados.
A utilização da urina humana também é muito mais barata que os adubos químicos, o que representa uma vantagem adicional para os pequenos agricultores do país, que muitas vezes não têm capacidade financeira para comprar insumos agrícolas. No Uganda, um saco de 50 quilos de fertilizante custa a quantia colossal de 70 dólares enquanto que a urina custa… zero.
Não desperdiçar …
A ideia de usar a urina como fertilizante líquido foi inicialmente promovida pelo Saneamento Ecológico (EcoSan), um fabricante internacional de retretes ecológicas sem água, através da Cruz Vermelha do Uganda. As retretes EcoSan separam a urina das fezes em compartimentos diferentes para que possam voltar a ser usados como fertilizante líquido e estrume.
Mas, uma vez que a Cruz Vermelha só pode financiar um número limitado destas retretes, que custam entre 320 e 1.500 dólares, a maior parte dos ugandeses que ganham perto de 300 dólares por ano, segundo o Fundo Monetário Internacional, não tem recursos financeiros para comprar uma destas retretes.
Em vez disso, os agricultores em mais de 30 distritos no Uganda arranjaram uma alternativa: simplesmente pediram aos membros das suas famílias que urinassem para dentro de baldes ou bacias onde acumulam a urina.
Rose Nabirye, uma agricultora de Mayuge, no leste do Uganda, disse que inicialmente olhou para esta questão com cepticismo e pensou que o fertilizante composto por urina não era higiénico mas, quando o pôs à prova, ficou extremamente satisfeita com os resultados.
“Agora tenho recipientes atrás da minha retrete para recolher a urina de manhã e à tarde. Depois guardo-a em recipientes fechados durante uma semana antes de a espalhar por cima do estrume que é aplicado no jardim,” explicou.
…Não querer
Nabirye afirma que o estrume embebido em urina, além de fertilizante líquido, a ajudou a aumentar a produção de milho e legumes.
Steven Nabuyaka, um agricultor de legumes do distrito de Bududa, relata como costumava gastar 20 dólares em cada estação agrícola para comprar alguns quilos de fertilizante para a sua horta de cebolas, até ser informado que, em vez disso, podia usar urina.
Afirma que, depois de organizações de ajuda humanitária como a Cruz Vermelha e a CARITAS, organismo de caridade católico, terem começado a educar os pequenos agricultores sobre o fertilizante composto por urina humana, a notícia espalhou-se rapidamente por via oral nas comunidades de agricultores do país.
“Experimentei, e funciona,” diz Nabuyaka com satisfação. “Na última estação, não comprei qualquer tipo de fertolizante no mercado, e a colheita foi boa. Experimentei o fertilizante nas bananas e os resultados foram promissores.”
Também constatou que a urina ajuda a destruir as pragas, especialmente nas bananeiras.
Fertilizante essencial
Quanto a Nabuyaka, o fertilizante de urina é, para a maior parte dos agricultores, a primeira oportunidade viável de poderem adubar a terra. O Uganda tem um dos níveis mais baixos de uso de fertilizante em África.
De acordo com um estudo efectuado em 2006 pelo Departamento de Agricultura do país, o Uganda usa apenas 0.37 quilos de nutrientes provenientes de fertilizantes por cada hectare, por comparação aos seis quilos por hectare na Tanzânia, 16 quilos por hectare no Malawi, 31.6 quilos por hectare no Quénia e 51 quilos por hectare usados na África do Sul.
As razões desta situação, identificadas pelo estudo, são o elevado preço dos fertilizantes, o baixo nível de distribuição de fertilizantes nas áreas rurais e a percepção por parte agricultores que os solos do Uganda não precisam de ser fortalecidos.
Porém, acontece o contrário: a erosão e o esgotamento dos nutrientes do solo constituem um problema no Uganda há décadas e levaram à degradação generalizada das terras agrícolas e à insegurança alimentar. O solo está a ser esvaziado dos seus nutrientes a um ritmo alarmante, enquanto os agricultores se esforçam para alimentar uma população em rápida expansão.
O Professor Matete Bekunda, um cientista do solo na Faculdade de Agricultura da Universidade de Makerere, em Kampala, confirma que a produtividade agrícola no Uganda em larga medida tem permanecido estagnada devido ao baixo teor de nutrientes no solo.
Refere que um grande problema é o facto de os agricultores terem deixado de colocar as terras em pousio durante uma estação agrícola de modo a dar-lhes a oportunidade de recuperarem alguma da sua fertilidade. “A pressão populacional agora obriga-os a plantar cultura após cultura, e estação após estação. Isto retira ao solo nutrientes que não são repostos. Assim, os alimentos produzidos pelo solo infértil serão reduzidos,” explicou.
De acordo com o relatório das Nações Unidas para os Estabelecimentos Humanos (Habitat) de 2009, o Uganda tem uma taxa de crescimento populacional de 3.3 por cento, comparado com a média mundial de 1.1 por cento. Cerca de 80 por cento da população depende de recursos como a terra e os lagos para a sua sobrevivência.
Os especialistas agrícolas como Bekunda esperam que o uso do fertilizante composto por urina pode constituir uma forma de melhorar um dos elementos que faz parte desta situação, a degradação dos solos.

