CIDADE DA GUATEMALA, Guatemala, 26/11/2010 – (Tierramérica).- Absorta no turismo e nas exportações, a América Central não presta atenção à água e à agricultura.

O milho é a base da alimentação no Corredor Seco guatemalteco, afetado por secas e inundações - Danilo Valladares/IPS
Edwin acredita que “se deve pagar não apenas por um serviço adequado, mas para limpar a água que sujamos e que finalmente chega aos rios e lagos perpetuando um círculo de contaminação e morte por doenças diarreicas”. Porém, manejar bem a água exige normas e educação. Guatemala e El Salvador, por exemplo, carecem de legislação nessa área.
“Não temos leis que regulem o uso adequado da água por falta de vontade política e pressão de grupos externos, que se beneficiam deste vazio legal, especialmente industriais e agroindustriais”, acusou Edwin, codiretor do Centro de Estudos Ambientais da Universidade do Vale da Guatemala. Um bom manejo também é “armazenar em pequenos reservatórios, em nível familiar ou comunitário, e em represas, bem como o desenvolvimento de infraestrutura para transportá-la para onde é mais escassa”, acrescentou.
A América Central, uma das áreas mais vulneráveis do mundo, já sente na água e na agricultura os impactos da mudança climática. Em outros países da sub-região há legislação e “foram ratificados acordos, mas daí a tomar decisões definitivas há um longo caminho”, disse ao Terramérica o costarriquenho Edgar Gutiérrez Espeleta, assessor do IPCC. O aquecimento global e o manejo da água e da agricultura “não são prioridade” para uma região mergulhada “nas exportações e no turismo em todo o litoral”, disse Edgar, doutor em ciências florestais e especializado em estatística. “A água é administrada como um bem inesgotável”, concordou com Edwin.
No istmo, cada pessoa dispõe, em teoria, de mais de três mil metros cúbicos de água por ano, enquanto no Norte da África e no Oriente Médio a disponibilidade hídrica é de 200 ou 300 metros cúbicos, segundo a Aliança pela Água, uma rede de instituições públicas e privadas da América Central e Espanha. Entretanto, apenas 42% da população rural e 87% da urbana têm acesso a água potável na América Central. E o fornecimento piorou devido à mudança climática. “Sabe-se que o aquecimento global trará mais seca para a vertente do Oceano Pacífico e mais chuva para o Mar do Caribe. É hora de começar a administrar a água disponível com um enfoque de bacia hidrográfica e com a participação de todos”, alertou Edgar.
As devastadoras tempestades Mitch (1998), Stan (2005) e Agatha (2010) e a seca de 2009, cuja intensidade foi atribuída à mudança climática, deixaram danos multimilionários na agricultura da região e milhares de vítimas, principalmente em Honduras, Nicarágua, El Salvador e Guatemala. As perdas do setor agropecuário pelos principais desastres ambientais entre 1972 e 2007 somam “quase US$ 11 bilhões, equivalentes a 5,7% do PIB centro-americano em 2007”, diz o informe Istmo Centro-Americano: Efeitos da Mudança Climática sobre a Agricultura 2009, da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).
A agricultura e a pecuária são motores da economia regional. “Se for incluída a agroindústria, representam 18% do PIB total. Além disso, são os principais abastecedores de alimentos”, diz o estudo. Para a consultora salvadorenha Yvette Aguilar, as estratégias para proteger a água devem ser incluídas no ordenamento territorial, o que implica melhorar a agricultura. O agro emprega 70% de toda água extraída para consumo humano no mundo, afirma a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO).
“É imperioso tomar medidas para aumentar a capacidade de adaptação das famílias rurais e urbanas pobres”, com agricultura sustentável e defesa do “direito à terra”, acrescentou Yvette. A seca provocada no ano passado pelo El Niño/Oscilação do Sul, um fenômeno que altera as correntes e temperaturas marinhas na zona intertropical do Pacífico, terminou na morte por desnutrição de 54 crianças e de várias centenas de adultos do Corredor Seco, no centro e leste da Guatemala, cujos habitantes dependem da agricultura de subsistência. Este ano, foram as inundações que arruinaram os cultivos.
Os agricultores de subsistência são um dos três tipos de produtores cujo manejo sustentável deve-se diferenciar; além dos pequenos e dos grandes, disse ao Terramérica Ottoniel Monterroso, do Instituto de Agricultura, Recursos Naturais e Meio Ambiente da jesuíta Universidade Rafael Landívar da Guatemala. Os primeiros, que cultivam milho, feijão e hortaliças, “devem adaptar-se à mudança climática e aumentar sua renda” combinando “o plantio de grãos ou hortaliças com árvores e agricultura ecológica”, afirmou. Dessa forma aumenta a umidade, usa-se menos insumos e melhoram os rendimentos, explicou.
Os cultivos dos pequenos agricultores, com destino sobretudo comercial, exigem um tratamento similar. “E os grandes produtores devem utilizar a agricultura de precisão, baseada em tecnologia, para racionalizar a água e os agroquímicos”, acrescentou Ottoniel. Leonel Jacinto, da FAO Guatemala, disse ao Terramérica que no Corredor Seco buscam-se maneiras de melhorar a retenção de umidade no solo, usando restolho, agroflorestamento, e adubos orgânicos, e incentivando as pessoas a diversificarem o que plantam. “O primeiro passo é gerar experiência com poucas famílias e demonstrar que funciona”, afirmou. Neste esquema, o papel do Estado viria depois.
* O autor é correspondente da IPS.

