ECONOMIA – CHINA: Não se leiloa o orgulho

Londres, Inglaterra, 26/11/2010 – A notícia de que um jarro de porcelana chinês do Século 18 foi vendido este mês por US$ 68 milhões em um leilão em Londres para um comprador na China continental não caiu bem nem entre o governo e nem entre o público do país. As especulações de que o jarro teria estado entre os tesouros saqueados pelas tropas britânicas quanto entraram nos palácios imperiais de Pequim durante a Guerra do Ópio (1856-1860) percorreram os fóruns na Internet até a normalmente mais contida imprensa oficial.

“Essas relíquias foram contrabandeadas, roubadas ou saqueadas em guerras”, disse Li Jianmin, especialista em arqueologia da Academia Chinesa de Ciências Sociais ao site People.com.cn. “Se oferecemos grandes somas de dinheiro para recuperá-las, estamos legalizando essas atividades ilegais”, afirmou. “Uma segunda pilhagem”, foi como o Diário do Povo, em sua versão na Internet, descreveu o leilão feito em Bainbridge’s, uma relativamente pequena casa de leilões de Londres onde foi vendido o jarro que data do período do imperador Qianlong, que viveu entre 1711 e 1799.

Indignados depois que alguns meios de comunicação britânicos ironizaram o “patriotismo de porcelana” de Pequim, comentaristas na Internet e de publicações chinesas lançaram violentos ataques. Recuperar com dinheiro relíquias roubadas não servirá para ensinar os britânicos a recordarem de “seu vergonhoso ato”, afirmou um editorial o Diário do Povo, assinado por Yan Meng. “Em troca, fará com que se intoxiquem mais e mais com seu bárbaro e singular gozo com o dinheiro”.

Os que deram lances no leilão, que seriam quase todos chineses, e o comprador final também foram duramente criticados. “Títeres em um jogo de apostas e de uma ostentosa demonstração de riqueza”, disse o Beijing News. “Um bando de ricos colecionadores chineses com duvidosos motivos”, afirmou, por sua vez, o site Nanfang Daily.

Alguns disseram que esse dinheiro poderia ter sido gasto em cuidados básicos de saúde para 25 milhões de camponeses chineses. No passado, magnatas chineses que compraram antiguidades chinesas roubadas e as levaram de volta ao país foram acusados de falta de patriotismo. Especialistas chineses afirmam que mais de dez milhões de relíquias foram tiradas ilegalmente do país antes da revolução comunista de 1949.

Em seu momento, na tentativa de fechar a cicatriz nacional deixada pelo que consideravam “cem anos de humilhação” sofridos pelo país nas mãos de forças estrangeiras, líderes chineses promoveram o retorno de tesouros nacionais perdidos usando capital privado. Também fomentaram o surgimento de compradores de antiguidades em nível interno com a esperança de que os preços alcançassem os de Nova York e Londres.

Porém, um recente auge nas compras de antiguidades e os preços recordes pagos por elas despertaram preocupação nas autoridades chinesas. No mesmo dia em que o jarro de Qianlong foi arrematado, um colecionador de Pequim teria pago US$ 4,3 milhões por um selo que pertenceu ao mesmo imperador na casa londrina de Bonham. Investir em arte e antiguidades se converteu em uma alternativa cada vez mais atraente para os novos ricos da China. Frequentam com entusiasmo os leilões, elevando os preços das peças tanto em nível local quanto no exterior. O preço do jarro arrematado em Bainbridge’s superou o recorde para as antiguidades chinesas alcançado apenas no mês passado em Hong Kong por outro jarro de Quianlong, vendido por US$ 34 milhões.

Autoridades temem que essas compras gerem mal-estar público. Os bancos emprestam sem cessar para manter em alta a economia e a taxa de emprego. Os crescentes preços dos alimentos estão despertando inquietação na população. Nesse clima, a venda do jarro por US$ 68 milhões envia um sinal negativo. Segundo informaram os organizadores do leilão, os que participaram elevaram o preço da antiguidade em não menos de um US$ 1 milhão cada lance. “Isto não tem nada a ver com sentimentos patriotas”, disse o professor universitário Yan Nong. “É um concurso de riqueza, e muito ostentoso”, acrescentou. Envolverde/IPS

Antoaneta Becker

Antoaneta Becker is IPS’s senior China writer. After twelve years of field reporting in China, in 2010 Antoaneta relocated to the U.K. where she covers China’s interactions with the outside world, the new paradigms of E.U.-China-Africa relations, China’s attempts to forge a new development model and the country’s impact on global markets for commodities. Antoaneta studied at Beijing University—China’s most prestigious academy—obtaining a bachelor’s and a master’s degree in Chinese contemporary literature and film. She has reported on China for IPS, USA Today, The Economist Intelligence Unit, Outlook magazine and others. Fluent in Mandarin, Antoaneta has travelled extensively in greater China researching topics from environmental degradation to the overhaul of the country's state industries, the reform of the welfare system and the country’s increasingly large regional footprint.

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