Washington, Estados Unidos, 26/11/2010 – Enquanto muitos nos Estados Unidos celebravam ontem o tradicional Dia de Ação de Graças com um banquete familiar, um em cada seis habitantes deste país está em risco de passar forme, incluindo um quarto de todas as crianças. Em todo o planeta, 925 milhões de pessoas sofrem desnutrição, isto é, pouco menos do que 15% da população mundial.
Ironicamente, os esforços de Washington para aliviar a fome deveriam se focar em seus próprios habitantes, dizem analistas. O Departamento da Agricultura estimou, na semana passada, que 49 milhões dos 304 milhões de norte-americanos, entre eles 17 milhões de meninos e meninas, careceram de alimentação adequada em algum momento de 2009. O número de famílias com “insegurança alimentar” nos Estados Unidos disparou em 2008 devido à crise econômica, e não diminuiu no ano passado.
Para enfrentar este problema persistente, o governo conta com programas de nutrição, que se expandiram diante da crise econômica e parecem ter funcionado nos últimos dois anos. Mesmo quando o desemprego passou a afetar de nove milhões para mais de 14 milhões de norte-americanos entre 2008 e 2009, a insegurança alimentar não aumentou, destacou Kevin Concannon, subsecretário para Alimentação, Nutrição e Serviços ao Consumidor.
Esses números demonstram, “pela experiência em todo o país, que os 15 programas federais de ajuda à nutrição de fato estão conseguindo seus objetivos, isto é, responder às pessoas. Vimos a fortaleza desses planos em ação”, afirmou Kevin. Agora, quando Washington busca reduzir seu déficit fiscal, estas campanhas de nutrição estão ameaçadas. Por exemplo, o Programa de Assistência para Nutrição Suplementar, antes chamado Programa de Cupões de Alimentos, estão sofrendo cortes do governo federal. Alguns desses cortes se devem à redistribuição de fundos para diferentes programas alimentares, mas outros simplesmente são parte de uma mudança na agenda política.
Às vésperas das eleições legislativas do começo deste mês, tanto o governante Partido Democrata como o opositor Partido Republicano “estavam convencidos de que qualquer discussão relacionada com a pobreza afugentaria os eleitores da classe média”, explicou o diretor-executivo da Coalizão contra a Fome em Nova York, Joel Berg. Estes eleitores “ignoram a realidade de dezenas de milhões de norte-americanos, antes solidamente instalados na classe média, que foram arrastados à beira da pobreza e da fome”, acrescentou. Enquanto isso, continua sem aprovação no Congresso a renovação da Lei de Nutrição Infantil, que destina fundos a programas de alimentação em escolas.
O presidente Barack Obama falou em investimentos de US$ 400 milhões para melhorara o acesso a alimentos frescos e sadios em bairros pobres, às vezes chamados “desertos de comida” já que as únicas opções para seus moradores são os fast food ou os pratos pré-elaborados, com altos níveis de gordura saturada. Se a fome não pode ser eliminada nos Estados Unidos, o país mais rico do mundo, as perspectivas no resto do planeta são desanimadoras.
A Organização das Nações Unidas informou que um total de 925 milhões de pessoas sofrerão fome crônica este ano, pouco abaixo do um bilhão registrados no ano passado, mas ainda o segundo recorde mais alto na história. Entretanto, um informe divulgado pela organização não governamental Pão para o Mundo assegurou que pode haver progressos contra este problema, e considerou de vital importância a iniciativa norte-americana Alimentar o Futuro.
Esse programa canalizará US$ 3,5 bilhões nos próximos três anos em assistência ao desenvolvimento internacional, com atenção especial à agricultura. A iniciativa poderia reverter o que Rajiv Shah, administrador da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), chama “décadas de desatenção com o desenvolvimento impulsionado pela agricultura”. Rajiv qualificou o programa como a mais importante estratégia de desenvolvimento apresentada por Washington em 50 anos.
O informe da Pão para o Mundo “acertadamente nos recorda que, para atacar as raízes da fome e da desnutrição, precisamos investir na pequena agricultura e nos concentrarmos em integrar a nutrição e o desenvolvimento agrícola por meio de um enfoque liderado pelo país” em questão, disse o funcionário.
O renovado interesse de Washington na segurança alimentar mundial seria uma resposta à crise dos preços dos alimentos sofrida entre 2007 e 2008, após a qual muitos governos se deram conta de que haviam desatendido seu setor agrícola. “A crise dos preços foi um alerta. Iniciou um novo diálogo mundial sobre a fome, a desnutrição e a segurança alimentar”, afirmou Asma Lateef, diretora da Pão para o Mundo. “Dois anos depois, sob a liderança dos Estados Unidos, existe um renovado interesse na pequena agricultura e em reverter décadas de esquecimento, justamente quando entramos em outro período de aumento de preços”, acrescentou.
A Organização das Nações Unidas informou que dois terços dos famintos do mundo habitam apenas sete países, mas que existem bolsões de desnutrição em todos os lados, inclusive nos Estados Unidos. Envolverde/IPS

