Atum de barbatana azul sem proteção

Paris, França, 30/11/2010 – A pesca comercial de pelo menos duas espécies de tubarões em risco de extinção foi proibida em 48 países, mas o atum de barbatana azul do Oceano Atlântico recebeu pouca proteção ao término de uma reunião internacional de dez dias, na capital francesa.

Tubarão oceânico de pontas prateadas. - Matt Fidler

Tubarão oceânico de pontas prateadas. - Matt Fidler

O Greenpeace Internacional e outras organizações ambientalistas criticaram duramente a Comissão Internacional para a Conservação do Atum Atlântico (Cicaa) por não adotar as ações necessárias para salvaguardar esse peixe, vítima da pesca em excesso.

“Estamos muito desiludidos”, disse Oliver Knowles, encarregado de campanhas pelos oceanos do Greenpeace. “Gostaríamos de sugerir à Cicaa que elimine a palavra conservação de seu nome porque demonstrou não ser capaz de manter as populações de atum de uma maneira sustentável”, afirmou à IPS, ao fim das sessões a portas fechadas da conferência, da qual ativistas e jornalistas não puderam participar.

Ambientalistas haviam exortado os 48 membros da comissão que suspendessem a pesca industrial do atum no leste do Atlântico até que fossem adotados sistemas de captura sustentáveis e se constatasse uma recuperação da espécie. Além disso, esperavam ver uma redução da cota anual de pesca, das atuais 13.500 para seis mil toneladas. A Cicaa aprovou uma leve redução, para 12.900 toneladas para 2011.

Este número dá ao atum de barbatana azul 30% de oportunidade de recuperação, segundo a Comissão, mas outras vozes dizem que não é suficiente para deter a queda da população da espécie, que diminuiu 80% desde 1970. A diretora de políticas internacionais do Grupo Ambiental Pew, com sede em Washington, Susan Lieberman, disse à IPS que as novas cotas “não são suficientes devido ao engano” geral que existe com relação à pesca do atum de barbatana azul.

“Apesar da informação baseada em sólida ciência, que mostra o quanto estão ameaçadas estas espécies, e apesar de toda recente evidência de fraude, lavagem de dinheiro e pesca ilegal, novamente foi negada a esse peixe a proteção que precisa desesperadamente”, afirmou Susan.

Um recente informe do Consórcio Internacional para Jornalistas Investigadores (ICIJ) diz que a pesca ilegal de atum de barbatana azul, entre 1998 e 2007, gerou cerca de US$ 4 bilhões para os envolvidos. Grupos ambientalistas responsabilizaram a União Europeia (UE), e em particular a França (que organizou a Conferência), pelo que consideram uma política falida em favor dessa espécie.

No mês passado, a comissária da UE para Assuntos Marítimos e Pesca, Maria Damanaki, propôs reduzir a cota de capturas desse peixe para seis mil toneladas, o que daria à espécie maior possibilidade de recuperação até 2022, segundo conservacionistas. Porém, o bloco deu marcha à ré nesta proposta, dizendo que também deveriam ser considerados os interesses dos pescadores. “A reunião deste ano da Cicaa produziu resultados que são um passo na direção correta para a administração sustentável do atum de barbatana azul e de outras espécies”, disse a comissária em uma declaração.

“Isto é importante não apenas para as águas e as reservas dos países que integram a Cicaa, como também para o manejo da pesca em todo o mundo, e para a UE como um todo”, afirmou a comissária, acrescentando que o novo acordo “permite à UE manter sua parte na pesca. Isto é uma boa notícia para nossos pescadores e nossa indústria, e reflete o papel de liderança assumido pela União Europeia para a recuperação das reservas”.

Pescadores franceses disseram a jornalistas locais que seu sustento estaria ameaçado se as cotas diminuíssem. Durante o encontro, a França resistiu às iniciativas de outros Estados-membros para que fossem cedidas em suas cotas a quantidade de atum que pescaram em excesso no passado. Entretanto, a Cicaa decidiu que este país deve ceder 1.500 toneladas anuais nos próximos dois anos como compensação, segundo o Greenpeace.

“As decisões que devemos tomar às vezes podem ser muito duras de aceitar por parte da indústria”, disse Pierre Amilhat, chefe da delegação da UE, no começo da Conferência. “Mas sei que a maioria dos pescadores entende que, embora a conservação possa causar dificuldades no curto prazo, aqui trabalhamos para apoiar seus interesses no longo prazo”, disse.

Organizações ambientalistas afirmaram que o Japão também havia se retratado de suas promessas, feitas no começo deste ano, de proteger o atum de barbatana azul na reunião da Cicaa. Esse país importa cerca de 80% das capturas desta espécie no Mediterrâneo. Em março havia prometido que aproveitaria a reunião de Paris para demonstrar seu compromisso com a conservação.

A delegação japonesa informou que Tóquio havia suspendido a compra de produtos com “informação inconsistente sobre sua pesca, transferência, empacotamento, colheita e exportação. Foi um trabalho duro para os funcionários japoneses. Não poderemos repetir este difícil exercício no próximo ano”, informou a delegação.

Em relação aos tubarões, a Cicaa adotou uma proposta que proíbe a retenção da espécie oceânica de pontas prateadas na pesca indiscriminada com grandes redes. Isto significa que tais tubarões facilmente identificáveis devem ser devolvidos ao oceano caso sejam capturados. O mesmo se aplica a seis tipos de tubarões-martelo, exceto se for pesca de subsistência.

“É um passo bom e positivo para a conservação destas espécies”, disse o diretor de conservação mundial de tubarões para o Grupo Ambiental Pew, Matt Randa. “No entanto, ainda temos de percorrer um caminho muito longo para outras espécies”. Conservacionistas afirmam que milhões de tubarões são pescados por ano, principalmente por causa de suas barbatanas, usadas para preparar uma sopa muito consumida na Ásia. As populações desses animais diminuíram 70% em todo o mundo, segundo alguns estudos. Envolverde/IPS

A. D. McKenzie

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