Especialistas exortam UE a encher estômagos, não tanques

Viena, Áustria,, 12/11/2010 – Se a União Europeia (UE) não rever de forma urgente seus planos de aumentar a produção de combustíveis orgânicos, haverá um enorme aumento das emissões de dióxido de carbono que agravará as consequências da mudança climática, afirmam especialistas. A ideia da UE para que os combustíveis de origem orgânica representem 20% do consumo total até 2020 é um grande erro, segundo estudo divulgado esta semana em Bruxelas pelo Instituto para Políticas Ambientais Europeias (IEEP).

Haverá consequências socioeconômicas e ambientais negativas. Também aumentarão as emissões de gases-estufa, pondo em risco a segurança alimentar e os postos de trabalho no setor agrícola, segundo o estudo do IEEP. O milho e demais cultivos básicos cederão lugar às palmas, entre outros, para produzir combustível orgânico nos países em desenvolvimento, especialmente na África.

A diretriz da União Europeia de abril de 2009 para “promover o uso de fontes de energia renováveis” tem o objetivo de reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa, como dióxido de carbono e metano, considerados pela maioria dos cientistas responsáveis pelo aquecimento global que acelera a mudança climática.

A norma diz que 10% da gasolina e do óleo combustível consumidos deverão ser de origem orgânica até 2020. As consequências sociais e ambientais da produção de combustível orgânico podem ser piores do que se prevê. A União Europeia deve revisar de maneira urgente as políticas de energia renováveis, conclui o estudo intitulado “Mudança indireta antecipada no uso da terra associado ao maior uso de biocombustíveis na UE”.

Para produzir a quantidade de combustível prevista será preciso limpar uma área que seja o dobro do tamanho da Bélgica, cerca de 69 mil quilômetros quadrados, colocando em perigo florestas e ecossistemas, prejudicando comunidades pobres. A mudança no uso da terra aumentará a quantidade de emissões contaminantes liberadas na atmosfera, alerta o informe.

“Mesmo que sejam consideradas as economias de emissões previstas nos requisitos de sustentabilidade da UE para os biocombustíveis, sua produção não ajuda a mitigar o problema” até 2020. O maior uso causará mais emissões, disse à IPS Catherine Bowyer, autora do informe. “Maior uso de biocombustíveis convencionais não pode, então, ser considerado uma contribuição aos objetivos da política de mudança climática da UE”, acrescentou.

Mesmo com a economia de emissões, entre 273 e 564 milhões de toneladas equivalentes de dióxido de carbono para o período 2011-2020, ou entre 27 e 56 milhões de toneladas ao ano, serão liberados mais gases-estufa devido à mudança no uso da terra, disse Catherine. “Será equivalente a ter entre 12 e 26 milhões a mais de veículos circulando na Europa em 2020”, ressaltou.

A segunda diretriz renovável da UE repercutirá em certo momento entre 80,5% e 167% de emissões, diz o informe. O documento da IEEP se baseou nos planos de ação nacionais em matéria de energias renováveis enviados por 16 membros do bloco à Comissão Europeia, órgão executivo da União Europeia, que especificam como os Estados farão para cumprir a diretriz.

A Grã-Bretanha deverá importar 90% de seu consumo de biocombustível dos países em desenvolvimento, especialmente africanos. “Poderá haver aumento no preço dos alimentos na África devido à nova produção de biocombustíveis”, disse à IPS o porta-voz da ActionAid International, com sede em Bruxelas, Chris Coxon.

“Os pequenos agricultores, que costumam ser maioria nos países da África subsaariana e são responsáveis por alimentar suas comunidades, se deslocarão para os cultivos destinados a produzir combustíveis”, afirmou Chris. “A UE dá às empresas um cheque em branco para continuarem a usurpar terras dos setores mais pobres e produzir combustível para abastecer nossos tanques em lugar de alimentos para o estômago”, ressaltou. Envolverde/IPS

Julio Godoy

Julio Godoy, born in Guatemala and based in Berlin, covers European affairs, especially those related to corruption, environmental and scientific issues. Julio has more than 30 years of experience, and has won international recognition for his work, including the Hellman-Hammett human rights award, the Sigma Delta Chi Award for Investigative Reporting Online by the U.S. Society of Professional Journalists, and the Online Journalism Award for Enterprise Journalism by the Online News Association and the U.S.C. Annenberg School for Communication, as co-author of the investigative reports “Making a Killing: The Business of War” and “The Water Barons: The Privatisation of Water Services”.

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