Porto Príncipe, Haiti, 17/11/2010 – “Levaremos o cadáver até a Minustah para que vejam o que fizeram”, disse por telefone Jean-Luc Surfin, de 24 anos, ouvido pela IPS sobre o motivo das manifestações e dos ataques à Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti.

Um manifestante haitiano com um cartaz contra as forças de paz durante uma manifestação em frente de uma base da Minustah em Porto Príncipe. - Ansel Herz/IPS
Soldados haitianos confirmaram à imprensa a morte de pelo menos dois manifestantes, um deles com um tiro nas costas. Por sua vez, as forças de paz alegaram ter agido em defesa própria. “As pessoas estão frustradas e por isso vão para as ruas. Dizem que vão lutar contra a morte”, afirmou Jean-Luc à IPS. Os manifestantes ergueram barricadas na rua e atiraram pedras e garrafas contra os soldados da Minustah. Duas delegacias foram incendiadas, contou. Também houve protestos nas cidades de Hinche e Gonaïves, no centro do país, assolado pelo cólera.
Os manifestantes tentaram deixar o caixão com o cadáver de um homem que morreu dessa doença diante de uma base nepalesa das forças de paz em Hinche, escreveu Stanley Stacos no Twitter. A população haitiana acusa essas forças de terem trazido o cólera para o Haiti. O Centro de Prevenção e Controle de Enfermidades dos Estados Unidos afirmou que a cepa da bactéria responsável pelo atual foco de cólera no Haiti coincide com a variedade endêmica na Ásia meridional.
Estima-se que 200 mil pessoas possam morrer antes de a epidemia ser controlada, o que pode demorar até seis meses. As autoridades se esforçam para conter o avanço da doença, que já matou mais de 900 pessoas, duas semanas antes das eleições. “A violência pré-eleitoral é tradicional no Haiti”, disse à IPS o porta-voz da Minustah, Vincenzo Pugliese. “As pessoas estão confusas, assustadas, e é fácil manipular em um sentido ou outro”, afirmou.
“Basicamente, Minustah e cólera entraram na política. Estão sendo explorados”, lamentou Vincenzo, negando-se a mencionar uma pessoa ou uma organização. “Alguém está por trás disto. A população não tem os meios para se comunicar entre si e organizar algo como isto. Há quem a incentive. É claro, faz parte de um plano”, garantiu o porta-voz.
A raiva em relação aos soldados da Minustah fermentou e se manifestou várias vezes em protestos pacíficos desde que o adolescente Gérard Jean Gilles foi encontrado pendurado em uma árvore, no final de agosto, em uma base das forças de paz em Cap-Haïtien. Poucos dias depois, uma patrulha da Minustah repeliu com gás lacrimogêneo uma agressão com pedras. Um soldado foi ferido, segundo um informe interno dessa força.
Dezessete organizações da sociedade civil escreveram uma carta aberta ao chefe da Minustah, pedindo uma investigação independente e condenaram o que chamaram de “sua decisão de obstruir a justiça haitiana neste caso”. A investigação interna concluiu que Gérard havia se suicidado, disse Vincenzo à IPS.
Uma rua de Champs de Mars, uma praça de Porto Príncipe, no dia 15, ficaram inundadas pelo cheiro de borracha queimada que emanava dos restos carbonizados dos pneus incendiados por estudantes da Faculdade de Etnologia, que montaram uma barricada em solidariedade aos manifestantes e atiraram pedras contra veículos da Minustah. Em maio, as forças de paz responderam com disparos de dissuasão, balas de borracha e gases. Desta vez, foram embora, segundo os estudantes. Vincenzo não confirmou nem desmentiu.
Há mais mobilizações previstas contra a Minustah, afirmaram estudantes. “Protestamos pela mesma razão que o fazem em Cap-Haïtien e em Hinche. A Minustah trouxe o cólera. O governo é irresponsável”, disse à IPS Lucien Joseph. “Morreu muita gente e não há uma resposta séria. Todo o país se levantará para pedir a saída da Minustah”, acrescentou o jovem. Envolverde/IPS

