Melhorar cultivos para atenuar a desnutrição

Washington, Estados Unidos, 11/11/2010 – A biofortificação é apresentada como medida para abordar a deficiência de micronutrientes nos alimentos consumidos pela população dos países pobres, e só agora começa, literalmente, a dar frutos. Quando a revolução verde lançou suas raízes, nos anos 1960 e 1970, a principal preocupação dos biólogos era aumentar o rendimento dos cultivos alimentares básicos para a população das nações em desenvolvimento.

Isto tinha sentido: dessa forma aumentaria a quantidade de alimentos para os pobres do mundo, reduzindo a fome. Em termos gerais, isso aconteceu. Entretanto, o que teria acontecido se tais cultivos tivessem carência de vitamina A, ferro ou zinco, necessários para a saúde do corpo?

Na África subsaariana, muitas pessoas, especialmente em áreas rurais, dependem de alimentos básicos como a batata doce branca ou o milho branco, que podem carecer de quantidades suficientes dos nutrientes que seus organismos necessitam. A falta de vitamina A, por exemplo, faz com que pelo menos 250 mil crianças fiquem cegas a cada ano, segundo a Organização Mundial da Saúde. E metade delas morre no ano seguinte.

As quantidades necessárias podem ser encontradas em outros alimentos consumidos em outras partes do mundo. Em lugar de assumir a hercúlea tarefa de mudar dietas e tradições, os que buscavam melhorar os cultivos começaram a desenvolver variedades de cor laranja destes alimentos que foram adaptados às condições da África subsaariana.

As pesquisas com a batata doce laranja começaram em meados da década de 1990. Em 2005, envolveu-se no estudo uma organização chamada HarvestPlus, com sede em Washington, que é financiada por governos, fundações e institutos científicos e parte do grupo Consultivo para a Pesquisa Agrícola Internacional (CGIAR). Assim foram fixados objetivos claros: aumentar em 1.500% a quantidade de provitamina A na batata doce com as quais se alimentava a população da África oriental.

Em 2007, esse tubérculo foi introduzido em Uganda, em meio a uma campanha publicitária complementar para divulgar a mensagem de que as variedades de cor laranja eram sinônimo de saúde e que a população deveria escolher plantá-las. No prazo de 18 meses foram comprovados os impactos nutricionais na saúde da população.

Como a carência de vitamina A era enorme e a batata doce laranja a contém em abundância, foi usada uma pequena quantidade deste tubérculo para atender a ingestão diária recomendada para uma criança pequena, disse Jan Low, que lidera o trabalho da HarvestPlus sobre a batata doce.

Enquanto prevê introduzir novas variedades de milho, arroz, mandioca e outros cultivos produzidos para serem mais nutritivos, esta organização iniciou, no dia 9, uma conferência sobre biofortificação, em Washington, Estados Unidos. Este encontro, que termina hoje, é a primeira reunião internacional sobre como a agricultura pode atacar a desnutrição por falta de micronutrientes, afirma a instituição.

A HarvestPlus está pronta para difundir vários cultivos nos próximos anos, mas esse passo exigirá fundos adicionais. “O custo inicial da pesquisa sobre melhoramento de cultivos é relativamente baixo, mas quando se aproximam as etapas finais de desenvolvimento os custos aumentam”, disse aos jornalistas o diretor da organização, Howarth Bouis.

Ao mesmo tempo, Howarth considera que os doadores estão mais interessados em investir em nutrição, além de usar a agricultura como ferramenta para melhorá-la. “No passado, os que trabalhavam em temas de nutrição não viram de fato a agricultura como um meio básico para melhorar a nutrição”, afirmou, ressaltando que têm preferência os complementos e a prática de fortificar com micronutrientes alimentos preparados ou embalados.

Essas práticas se centram mais nos consumidores urbanos. Para chegar aos indigentes, que se encontram predominantemente em áreas rurais, foi considerado necessário que eles mesmos melhorassem os cultivos, mas por vias convencionais, que evitassem tanto os obstáculos regulatórios e culturais quanto as preocupações sobre a segurança e a engenharia genética.

Isto não significa que a HarvestPlus rejeite o potencial dos cultivos geneticamente modificados. A organização participa da pesquisa de uma variedade transgênica de arroz rico em ferro e zinco, e Howarth disse que, se no futuro for mais fácil criar e introduzir variedades transgênicas, será feito. Alex Johnson, que trabalha na variedade de arroz, afirma que é de vital importância que as plantas que desenvolvem produzam sementes viáveis, ao contrário das plantas patenteadas por corporações agrícolas.

No caso da batata doce, nem mesmo é preciso semente. Os agricultores simplesmente passam os galhos aos seus vizinhos, no que Jan considera um dos processos de disseminação mais informais que se pode imaginar. No entanto, aumentar a quantidade de vitaminas e nutrientes que os cultivos podem ter, possui um limite.

“Fazer confluir as necessidades de nutrientes de toda a população em um ou dois grãos e esperar que isso solucione seus problemas tem sérias limitações”, disse Doug Gurian-Sherman, da União de Cientistas Comprometidos. “Isto realmente tem de ser visto como uma medida provisória – talvez muito importante – mas não como uma solução em si mesmo”, afirmou.

No entanto, deu as boas-vindas à ênfase que a HarvestPlus dá aos métodos convencionais de melhoramento de cultivos. Em geral, estes “tiveram muito sucesso durante várias décadas, mas seu financiamento diminuiu após a revolução verde, e muitos projetos para melhorar os cultivos foram direto ao enfoque transgênico”, afirmou. “Porém, organizações como a HarvestPlus redescobriram que em muitas situações a melhoria é mais efetiva do que a engenharia genética”, acrescentou Doug. Envolverde/IPS

Correspondentes da IPS

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