HAITI: Cólera avança após passagem de Tomás

Léogâne, Hait, 09/11/2010 – O furacão Tomás deixou debaixo d’água esta cidade haitiana, localizada 29 quilômetros a leste de Porto Príncipe e no epicentro do terremoto de 12 de janeiro. “Nossas casas ficaram novamente arruinadas. Perdi minhas coisas. As organizações humanitárias nada fazem pela gente”, disse a haitiana Violet Nicola, sobre um pedaço de piso feito na casa improvisada de Léogâne, onde vive há dez meses.

“Desde que a água chegou aqui ficamos com mais problemas”, acrescentou. Sob seus pés, a água lamacenta chegava até a coxa e se estendia em todas as direções ao longo da rua principal da cidade. As inundações arrasaram o abrigo de lona em que Violet vivia, bem como seus pertences.

Segundo a organização humanitária Save the Children, pelo menos 35 mil habitantes de Léogâne podem ter sido afetados pelas inundações. O esgoto e o lixo que a corrente arrastou “farão com que as condições fiquem ainda mais propícias para a mortal bactéria do cólera”, disse a entidade em um comunicado.

A quantidade de mortos pela epidemia de cólera aumentou para, pelo menos, 501 em três semanas, segundo o Ministério da Saúde. A rede independente Haiti Epidemic Advisory System (Sistema de Consulta Epidemiológica do Haiti) informou, no dia 6, sobre novos possíveis focos de cólera no centro do país.

O ponto máximo da epidemia chegará “antes e mais rapidamente” devido ao furacão Tomás, disse à IPS Christian Lindmeier, um dos encarregados de imprensa da Organização Mundial da Saúde. Um informe do Ministério da Saúde dizia que quase metade das vítimas morreram em suas comunidades, não em hospitais. “O desafio é chegar a eles a tempo para que a mortalidade não aumente demasiadamente”, destacou Christian.

Consultadas pela IPS no dia 6, muitas organizações comunitárias disseram ter passado o dia mapeando a destruição causada pelo Tomás, e não entregando ajuda às vítimas que perderam suas casas. O ex-navio de guerra USS Iwo Jima, transformado em hospital flutuante, foi uma parte crucial da resposta norte-americana à tempestade. Agora está ancorado próximo ao Haiti.

Até agora, e a pedido do governo haitiano, esse barco realizou apenas evacuações de áreas atingidas, segundo sua encarregada de informação pública, Jacqui Barker. Ainda não temos resultados, disse. Em Grand Goâve, oeste de Porto Príncipe, foram danificados 189 abrigos em sete acampamentos. O acampamento de Pinchinat em Jacmel, ao sul, foi arrasado pelas chuvas, segundo resumo interno das avaliações sobre danos em abrigos feitas por várias organizações de assistência.

“Atualmente, não há uma resposta humanitária planejada para este acampamento”, afirmava o documento “As barracas estavam espalhadas por todo o lugar. Chovia torrencialmente e todos estavam encharcados. Foram levantados abrigos, mas não havia quem os transportasse”, escreveu no Facebook Gwenn Mangine, que reside nesse lugar.

Alguns socorristas disseram à IPS que em Cité Soleil, um assentamento precário no extremo norte de Porto Príncipe, canais repletos de lixo transbordaram alagando pelo menos um acampamento. Em todo o país, “quase não foi distribuído material para abrigos. A Organização Internacional para as Migrações (OIM) ainda realiza avaliações”, disse à IPS o encarregado de imprensa dessa agência, Leonard Doyle.

Um dia antes da chegada do Tomás ao Haiti, trabalhadores humanitários planejavam a evacuação de seus acampamentos de algumas vítimas do terremoto em áreas baixas como Cité Soleil. Mackendy Laguerre, integrante da equipe administradora do acampamento da OIM em Cité Soleil, disse que duas comunidades desse lugar seriam levadas para uma igreja, se estivessem de acordo.

Na medida em que escuras nuvens se instalavam no céu, Mackendy apontou a igreja do outro lado da rua. A maltratada estrutura parecia construída com a união de lâminas de metal. Uma equipe de engenharia a marcara com tinta vermelha após o terremoto, como sinal de possível desmoronamento.

Os habitantes de dois acampamentos próximos, Cozbami e Immaculee, negaram-se a partir. Rosemond Joseph contou que no seu as pessoas tinham medo de ir e ter seus pertences roubados. Uma mulher disse à IPS: “Vamos morrer”. Felizmente, Cité Soleil não foi tão danificada quanto se temia. Após uma tempestade que, em 24 de setembro, açoitou Porto Príncipe, os socorristas só começaram no dia seguinte a entrega de barracas e lonas para cerca de dez mil famílias cujos abrigos ficaram destruídos.

As organizações humanitárias encarregadas de fornecer abrigo a 1,3 milhão de pessoas que ainda vivem em acampamentos improvisados divulgaram um documento intitulado “Lições Aprendidas”. O texto exige implementação de um sistema para garantir que no país haja suficientes reservas de materiais para levantar abrigos. Nessa oportunidade, milagrosamente, o Haiti havia conseguido evitar outra crise apesar de uma ativa temporada de furacões.

Um mês depois, quando o Tomás se aproximava, a Organização das Nações Unidas (ONU) fez um desesperado pedido desse tipo de material, mencionando a falta de 150 mil lonas. A porta-voz da ONU, Imogen Wall, disse à IPS que era necessário reabastecer constantemente os acampamentos neste sentido. “Em um país tão pobre como este não tem sentido instalar estruturas com um único propósito”, afirmou.

No documento divulgado no dia 5, bem antes do furacão, o grupo de organizações voltadas aos refúgios definiu sua resposta ao Tomás. Ali dizia que cem mil famílias seriam potencialmente afetadas pela tempestade e estimou que as reservas existentes dariam para cobrir apenas 64% delas. Também destacou que outras 20 mil lonas estavam paradas na alfândega haitiana. Os funcionários disseram que nem o foco de cólera nem as inundações causadas pelo Tomás terão impacto no planejamento das eleições previstas para dia 28. Envolverde/IPS

Ansel Herz

Ansel Herz is an independent multimedia journalist. A Seattle native and survivor of the January 2010 earthquake in Haiti, he has reported from Haiti for nearly two years for IPS, Reuters AlertNet and Free Speech Radio News and has been interviewed by CNN, the BBC, the Canadian Broadcasting Corporation, Democracy Now! and other outlets. In 2011 he was key writer and researcher in a series of articles, published by the Nation magazine and Haiti Liberte, based on WikiLeaks cables related to Haiti. Ansel is a graduate of the University of Texas at Austin School of Journalism.

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