Cidade do México, México, 09/12/2010 – A África será uma das regiões mais afetadas pela mudança climática, e isso ameaçará a segurança alimentar do continente, alerta um estudo que será divulgado este mês. Já para 2035 a previsão é que, se as temperaturas mundiais aumentarem dois graus, a África austral poderá chegar a uma elevação média de 3,5 graus.
O Centro Hadley do britânico Escritório Meteorológico alertou que as temperaturas mundiais médias podem chegar a aumentar quatro graus até 2060, se não pararem as emissões de dióxido de carbono e outros gases causadores do efeito estufa. “A previsão para a agricultura e a segurança alimentar na África subsaariana em um mundo quatro graus mais quente é funesta”, escrevem os autores de uma edição especial do Philosophical Transactions of the Royal Society, que será publicada em janeiro.
“Uma elevação de quatro graus será horrível, e deve ser evitada a todo custo”, disse Philip Thornton, do Instituto Internacional de Pesquisa em Pecuária de Nairóbi e coautor de um informe para essa publicação especial, intitulado “Quatro Graus e Mais: o Potencial de um Aumento de Quatro Graus nas Temperaturas Mundiais e suas Implicações”. E “esta edição especial é um chamado à ação, para que possamos evitar semelhante futuro”, disse Thornton à IPS/TerraViva.
Mesmo surgindo um novo tratado climático na 16ª Conferência das Partes (COP 16) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, que acontece até amanhã em Cancún, um aumento de dois graus parece inevitável, acrescentou. Desta perspectiva realista, ninguém espera um tratado climático exaustivo por vários anos. Isto significa que a África austral poderá ficar 3,5 graus mais quente e muito mais seca no futuro, afirmou Thornton. “As coisas serão muito difíceis para a agricultura que se alimenta de chuvas nesta região”, alertou.
Um aumento de dois graus seria devastador inclusive para África do Sul, Zimbábue, Botsuana e outros países vizinhos, disse Lance Greyling, integrante do parlamento sul-africano. “Não podemos ter uma alta superior a 1,5 grau no mundo, e essa é a posição da África desde a COP 15, de Copenhague”, que aconteceu há um ano, disse Greyling em entrevista realizada no México, durante o fórum sobre mudança climática da Organização Global de Legisladores para o Equilíbrio Ambiental (Globe). A água é uma enorme limitação que pesa sobre a agricultura e a economia da África do Sul, uma vez que 98% dos recursos de água doce já estão destinados, explicou.
É preciso trabalhar muito para ajudar os agricultores a se adaptarem a estas novas condições, o que incluirá o desenvolvimento de variedades resistentes ao calor e às secas, ressaltou Thornton. Aprender com outras regiões que têm condições similares às esperadas na África austral nos próximos 20 a 30 anos, bem como trazer sementes destas regiões, terá de fazer parte da estratégia de adaptação.
Isto também significa que cultivos que exigem grandes quantidades de água, como o milho, terão de ser substituídos por mandioca, milho e sorgo. Isso implicará uma mudança social, já que a população local prefere amplamente o milho, e a preparação dos demais cultivos é diferente e pode ser mais difícil, afirmou. “É um enorme desafio”, advertiu Thornton.
As projeções climáticas para o resto da África subsaariana estão menos claras em um mundo dois graus mais quente. As mudanças nos padrões que regem estações e chuvas vêm ocorrendo há 20 ou 30 anos, e a expectativa é de que continuarão. Temperaturas mais elevadas significam que os cultivos precisarão de mais água, e a previsão é que as chuvas serão similares ou menos abundantes, especialmente nas regiões secas. E, o que é mais importante, é provável que as chuvas aconteçam em menos ocasiões e com períodos secos mais longos, o que dificultará a atividade agrícola na medida em que o planeta esquentar.
O estudo concluiu que, em um mundo dois graus mais quente, o custo de alcançar o Objetivo de Desenvolvimento do Milênio sobre segurança alimentar – que propõe a redução à metade da proporção de famintos até 2015 –, ficará entre US$ 40 bilhões e US$ 60 bilhões anuais. “Com este investimento, não serão evitados os sérios danos causados pela mudança climática”, afirmou.
Até 2050, os países do Sahel, região ao sul do deserto do Saara, experimentarão condições de cultivo que atualmente não têm parâmetro no mundo, disse Sonja Vermeulen, subdiretora de pesquisas no Programa sobre Mudança Climática, Agricultura e Segurança Alimentar, que foi lançado na semana passada em Cancún. Trata-se de uma iniciativa de pesquisa que consumirá US$ 200 milhões e buscará abordar os impactos da mudança climática sobre a agricultura. Espera-se reduzir em 10% a pobreza em regiões pontuais e diminuir em 25% a quantidade de população rural desnutrida até 2020.
Estas condições climáticas sem precedentes tornam difícil, ou mesmo impossível, cultivar alimentos. Não há possibilidade de adaptação sem recursos significativos procedentes do exterior, afirmou Vermeulen em um comunicado. Os crescentes riscos da mudança climática vão além do “atual espectro de abordagem” das comunidades locais ou das instituições nacionais, disse Janice Jiggins, da Universidade e Centro de Pesquisa de Wageningen, na Holanda.
Em teoria, as perdas da África poderiam ser compensadas com ganhos derivados da produtividade em regiões mais ao norte, como Canadá e Rússia. Mas, contar com isto é uma estratégia muito perigosa, afirmou Jiggins. “Não podemos confiar na redistribuição de recursos via comércio como um mecanismo de adaptação”, acrescentou ao IPS/TerraViva.
Estudos anteriores mostraram que, com um aquecimento abaixo de dois graus, os preços mundiais dos grãos provavelmente duplicarão até 2050, ou antes. Outros 25 milhões de crianças poderão estar desnutridos, disse Gerald Nelson, pesquisador do Instituto Internacional de Pesquisa sobre Políticas Alimentares, com sede em Washington. Estes estudos focaram apenas as mudanças de temperaturas e precipitações, e “as variações mês a mês foram drásticas”, disse Nelson à IPS/TerraViva.
Anda falta incorporar os impactos sobre o gado. Se as temperaturas continuarem aumentando três e quatro graus, será muito difícil fazer algo para adaptação em muitas partes do mundo, prosseguiu Nelson. Inclusive com um mundo dois graus mais quente, a escala real do problema da segurança alimentar na África é subestimada e exigirá enormes investimentos, concluiu Thornton.
“É completamente injusto que, apesar de não ser responsável pelo problema, o setor agrícola da África receba a maior carga”, ressaltou Thornton. “A última coisa de que a África precisava era da mudança climática”, acrescentou. Envolverde/IPS

