AMÉRICA LATINA: Mulheres rurais, entre êxito e exploração

Lima, Peru, 09/12/2010 – A tradicional imagem das mulheres rurais da América Latina, marcadas pela subsistência e pelo cuidado com a família, dá lugar a outra, de protagonistas de atividades comerciais e produtivas em pequena e grande escala, em uma mudança que tem por trás histórias de sucesso e também de exploração.

Produtoras peruanas de batata mostram seus resultados. - Milagros Salazar/IPS

Produtoras peruanas de batata mostram seus resultados. - Milagros Salazar/IPS

Desde a central Huancavelica, a região mais pobre do Peru, a quéchua Gladis Vila conseguiu, junto com outras mulheres, a realização de feiras ecológicas em 22 das 25 regiões do país, como prova de que é possível produzir alimentos sem degradar o meio ambiente.

“As produtoras indígenas são as conservadoras da biodiversidade e fazemos negócio respeitando a natureza”, afirmou à IPS Gladis, que além de trabalhar na terra, preside a Organização Nacional de Mulheres Indígenas e Amazônicas. As mulheres rurais produzem entre 50% e 80% dos alimentos do mundo, segundo um documento do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) de 2008. A proporção aumenta na medida em que cresce a pobreza dos países.

As experiências no campo são diversas na região bem como também são as mulheres de diferentes pontos da América Latina que se reuniram em Lima este mês para participar do seminário internacional “Mulher rural: mudanças e persistências”. Entre elas estava a antropóloga Kirai de León, que narrou a história de sucesso das produtoras de ervas aromáticas e medicinais do Uruguai. São 17 camponesas que integram a Cooperativa Calmañana há 25 anos, e às quais outras 14 vão se incorporar para continuar ampliando seus domínios no departamento de Canelones, no sul.

As cooperativas abastecem os supermercados do Uruguai, chegam com seus produtos até a Europa e fazem parte da certificadora nacional de produtos orgânicos. “São muito respeitadas pelos comerciantes de condimentos. Conseguiram um grande espaço”, disse à IPS Kirai, que as acompanha desde o início. A especialista uruguaia contou que uma das ervas medicinais com maior demanda internacional é a marcela (Anchyrocline satureioides) que tem propriedades antioxidantes e de proteção celular, além de ser um anti-inflamatório e antiviral.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, 85% da população mundial depende das plantas medicinais para sua atenção primária à saúde. E estas mulheres uruguaias não só contribuem para que isto seja possível como também desenvolvem este trabalho sem utilizar agroquímicos. “Precisamos mudar a forma de produzir, cuidar não só do marido, mas cuidar do meio ambiente. Essa é uma transformação importante”, assegurou Jeanine Anderson, antropóloga e especialista em temas de gênero da Pontifícia Universidade Católica do Peru.

O cuidado com o meio ambiente se relaciona com a gestão do território. A ativista boliviana Elizabeth López, da Rede Latino-Americana de Mulheres Defensoras dos Direitos Sociais e Ambientais, assegurou que isto é importante para que exista autonomia econômica da mulher rural. “O tema não é apenas o acesso à terra, mas garantir a territorialidade para que as mulheres tenham a capacidade de uso da água, da biodiversidade, dos solos, entre outros recursos naturais. Se elas não puderem dispor disso, estarão limitadas”, disse à IPS a especialista boliviana.

Elizabeth considera que o surgimento de outras atividades econômicas, como a mineração, reduz os direitos das mulheres rurais sobre o território. Elas, apesar de serem as grandes abastecedoras de alimentos do planeta, são donas de apenas 10% da terra, segundo estudo do PNUD. Em Los Andes, a mineração convive com a pecuária e a agricultura, gerando impactos diferenciados nas mulheres “Há uma desvalorização total do que faz a mulher na pecuária diante do surgimento das mineradoras”, assegurou Elizabeth, ao recordar lutas com protagonismo feminino contra empresas de mineração na Bolívia e em outros países andinos.

Outro fenômeno de crescente importância dentro da produção agroindustrial latino-americana é o da migração das mulheres do campo para a cidade, em uma região onde elas representam 48% da população rural, cerca de 58 milhões. No Peru, por exemplo, a agroindústria em grande escala fez com que as mulheres se deslocassem de zonas andinas para outras costeiras, dentro e fora de suas regiões. É o caso de Gladys Campos, antiga trabalhadora da Sociedade Agrícola Virú, uma produtora de aspargo beneficiada pela bonança agroexportadora do país.

Gladys deixou Cochabamba, seu povoado na serra do departamento de La Libertad, para trabalhar na Virú, localizada na costa regional. Mas só trabalhou dois anos e meio ali, porque em outubro de 2004 foi demitida por formar um sindicato de trabalhadores para proteger seus direitos. “Trabalhávamos 17 horas por dia por um salário de miséria. Não pagavam hora extra. Eles te trazem de seu povoado, te recrutam, te fazem trabalhar como escravo, te dizem que vão ajudar e depois descontam os gastos com comida e hospedagem. Depois te jogam fora”, disse Gladys à IPS, em uma história várias vezes repetida.

Agora ela é secretária da Federação Nacional de Mulheres Camponesas, Artesãs, Indígenas, Nativas e Assalariadas do Peru. O salário desta líder era de apenas US$ 214 mensais. As mulheres, garantiu, não eram contratadas como temporárias entre janeiro e abril, quando acontece a grande colheita, mas trabalhavam o ano todo e sem férias. Por outro lado, a agroexportação peruana aumentou 27,8% entre janeiro e setembro deste ano, segundo o Ministério da Agricultura.

Dentro desse dinamismo, os itens não tradicionais representam 74% das exportações, onde sobressaem aspargos frescos, carmim de cochinilha (pigmento vermelho vivo do inseto Dactylopius occcus), uvas e mangas. “Quem na verdade sustenta a economia à custa de horas extras somos nós, as trabalhadoras, não as empresas”, denunciou Gladys. Para Jeanine é importante analisar os impactos desta nova ruralidade com a participação das mulheres do campo em diversas atividades econômicas em pequena e grande escala.

Na Colômbia, a migração ocorre de maneira indefinida, impulsionada pelas décadas de guerra interna. “Uma mulher do campo tem esperança”, é a frase de uma dessas migrantes que recordou a trabalhadora social colombiana Flor Edilma Osório, e que revela “a saudade do campo diante da miséria que se vive na cidade”, assegurou. “No campo pode-se ser pobre, mas não falta o que comer, mas na cidade se não tiver dinheiro não se vive. Há uma perda total”, explicou a especialista.

Para Jeanine, o desafio está em criar um sistema produtivo para mulheres e homens de zonas rurais que lhes permita gozar de bem-estar tanto quanto para os habitantes das cidades. Não se pode simplificar as políticas públicas a ajudas precárias a famílias pobres, disse. Envolverde/IPS

Milagros Salazar

Milagros Salazar comenzó a colaborar con IPS desde Perú en junio de 2006. Sus temas son los conflictos sociales y ambientales, en especial los vinculados a las industrias de la minería, el petróleo y el gas. Forma parte del equipo de investigación de IDL-Reporteros. Trabajó para el diario La República y fue corresponsal y editora de varios medios nacionales, entre ellos Expreso y El Peruano. Nacida en Lima en 1976, Milagros se graduó en comunicación social en la Universidad Nacional Mayor de San Marcos y obtuvo una maestría en derechos humanos en la Pontificia Universidad Católica de Perú. Ha profundizado además en estudios sobre gobernanza política en programas auspiciados por la estadounidense George Washington University.

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