Os recicladores levantam sua bandeira em Cancun

Cancun, México, 06/12/2010 – Ezequiel Estay começou em 1991 a coletar garrafas de vidro, após perder seu emprego no grupo jornalístico chileno Copesa. Agora, quase uma década depois, lidera o Movimento Nacional de Recicladores e é dirigente de uma rede latino-americana que questiona o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL).

“Somos a primeira parte da cadeia, somos a solução para o manejo dos resíduos. Primeiro se deve prevenir a geração de lixo, depois vem redução, reutilização, reciclagem e, por fim, a disposição”, disse Ezequiel ao TerraViva. A organização chilena faz parte de um movimento global de catadores de lixo sólido que o separam para abastecer a indústria da reciclagem com materiais como papel, papelão, plástico e vidro.

Na 16ª Conferência das Partes (COP 16) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, que acontece no balneário mexicano de Cancun, os catadores rejeitam os projetos do MDL aplicados a lixões para capturar gases causadores do efeito estufa. Além disso, cobram a criação de um fundo internacional de acesso imediato para as comunidades locais que realizam práticas recicladoras.

O objetivo do MDL é que as nações industrializadas invistam em empreendimentos que reduzam as emissões contaminantes nos países em desenvolvimento para compensar as que não conseguiram reduzir em seu próprio território. Assim, os países do norte industrial obtêm Certificados de Redução de Emissões de Carbono que contabilizam a seu favor, como se estivessem reduzindo a contaminação climática que provocam. O Protocolo de Kyoto, em vigor desde 2005 e com metas que vão até 2012, obriga as nações industrializadas que o ratificaram a reduzir suas emissões em 5,2%, com relação aos índices de 1990.

“Não existem políticas públicas que reconheçam a contribuição social e ambiental dos catadores, as iniciativas tendem a ignorar nosso trabalho”, denunciou ao TerraViva o colombiano Silvio Ruiz, da Associação de Recicladores. As pessoas que vivem da coleta de lixo e venda de material para reciclagem já somam 15 milhões no mundo, enquanto na América Latina são quatro milhões. No Chile, são cerca de 60 mil pessoas, na Colômbia 300 mil e só na Cidade do México mais de 15 mil, segundo a Aliança Global de Recicladores e Aliados (Gaia), muito ativa em Cancun para defender os direitos deste setor.

Os fundos para o clima, como o MDL e outros, fornecem dinheiro para incineradores e captura de gases em lixões, de duvidosos efeitos ambientais, segundo a Gaia, com sede nas Filipinas e que reúne mais de 500 organizações em 80 países desde 2000. O MDL tem 2.562 projetos operacionais, 483 dos quais provêm da América Latina e do Caribe. O México tem 124 e o Chile 139. No caso mexicano, nove iniciativas tratam da captura de metano em depósitos de lixo. Metano é um gás-estufa com capacidade de poluição 25 vezes maior do que o dióxido de carbono (CO²), um dos responsáveis pelo aquecimento global.

O Ministério de Meio Ambiente e Recursos Naturais do México informou que, em 2009, foram geradas no país 38,3 milhões de toneladas de lixo. Na Colômbia, a estatística é de 30 mil toneladas/dia, enquanto cada chileno produz um quilo diariamente, segundo o movimento de catadores. No México, a reciclagem apenas supera os 15%, na Colômbia essa taxa é de 20% e no Chile de quase 14%.

“Depois da prevenção de produção de lixo, a reciclagem é o maior beneficio climático comparado com outros enfoques do manejo de resíduos”, destaca o informe “Resíduos e Mudança Climática”, apresentado em Cancun pelo Programa das Nações Unidas para ao Meio Ambiente (Pnuma). “As duas opções são valiosas. Alguns projetos MDL não foram bem trabalhados, mas também há casos de sucesso”, disse ao TerraViva o dinamarquês John Christensen, diretor do Centro Risoe sobre Energia, Clima e Desenvolvimento Sustentável do Pnuma.

Os gases provenientes do lixo equivalem a entre 3% e 5% do total mundial e até 2015 estas emissões podem chegar a 2,9 bilhões de toneladas se não forem tomadas medidas para sua gestão adequada, segundo o documento. “Somos contra a exploração da energia do lixo. A tecnologia deve ser para beneficio dos catadores, do contrário não serve”, enfatizou Ezequiel.

Na Colômbia, a lei 142 determina o manejo e a gestão do lixo, sem aprofundar na questão da reciclagem. Porém, no Chile os setores envolvidos debatem um projeto de lei de resíduos. Silvio Ruiz afirma que em seu país, a Colômbia, “existe um plano para regionalizar os aterros sanitários para que atendam vários municípios. O problema é o transporte do lixo, que pode causar mais contaminação”, alertou.

“Como estas atividades não estão formalmente organizadas ou frequentemente são punidas pelos governos, sua contribuição para o manejo dos resíduos e a recuperação de recursos costuma não ser reconhecida. Contudo, há um crescente apreço pelo papel dos catadores em alguns países”, reconhece o estudo do Pnuma.

No México, praticamente não existem organizações de catadores independentes, pois é o sindicato nacional que exerce o monopólio dessa atividade, como ilustrou a jornalista Alma Guillermoprieto em uma reportagem publicada em 1990 na revista norte-americana The New Yorker e incluída em seu livro “Ao Pé de um Vulcão te Escrevo” (2000). Envolverde/IPS

Emilio Godoy

Emilio Godoy es corresponsal de IPS en México, desde donde escribe sobre ambiente, derechos humanos y desarrollo sustentable. En el oficio desde 1996 y radicado en Ciudad de México, ha escrito para medios mexicanos, de América Central y de España.

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