REPORTAGEM: Aquecimento pede novas medidas fitossanitárias

RIO DE JANEIRO, Brasil, 28/12/2010 – (Tierramérica).- Os problemas fitossanitários podem se transformar drasticamente nas próximas décadas em razão da mudança climática. Um projeto brasileiro dedica-se a investigá-los e oferecer soluções.

Plantações de palma africana no Estado do Pará, na Amazônia. - Mario Osava/IPS

Plantações de palma africana no Estado do Pará, na Amazônia. - Mario Osava/IPS

A agricultura, já afetada por secas, calor excessivo e eventos meteorológicos extremos, deve se preparar para as novidades que o aquecimento global trará em matéria de pragas e doenças. No Brasil, o projeto Impacto da Mudança Climática Global sobre Problemas Fitossanitários (Climapest) reúne 134 pesquisadores de 37 instituições, dedicados a avaliar possíveis efeitos e riscos futuros e a orientar políticas e alternativas de adaptação para esta potência agrícola sul-americana e mundial.

As mudanças “não necessariamente agravam as doenças” agrícolas. O aumento da temperatura ou do gás carbônico pode favorecer, ou não, a proliferação de certos micro-organismos, mas é importante prever cenários futuros, já que “gerar soluções exige tempo”, explicou Raquel Ghini, líder do projeto. Os pequenos problemas de hoje podem se converter em causa de grandes perdas nas futuras condições, disse ao Terramérica Raquel, agrônoma e fitopatologista do Centro de Meio Ambiente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Os fungos, vírus e outros agentes de danos agrícolas estão entre os organismos que reagem com maior rapidez às mudanças, por seu curto ciclo de vida e sua capacidade de multiplicar-se em grande velocidade. O Climapest começou em janeiro de 2009 e tem prazo de quatro anos para estudar 85 problemas fitossanitários de 16 cultivos, entre eles produtos de grande exportação, como café, soja, frutas (banana, maçã e uva), e palma africana e rícino, que começam a ganhar importância como matéria-prima do biodiesel.

Os aspectos a serem avaliados são os efeitos do aumento do dióxido de carbono atmosférico, da temperatura e da radiação ultravioleta B sobre micro-organismos, doenças, pragas e espécies invasoras. A futura distribuição geográfica e temporal destes inimigos da produtividade agrícola é outro objeto das pesquisas. Por exemplo, as áreas com tendência à doença que mais afeta o rendimento da banana diminuirão de forma gradual no Brasil – especialmente na hipótese mais pessimista de aumento dos gases-estufa –, disse Raquel. Isto porque haverá menos umidade, necessária para o fungo que a provoca, a sigatoka negra (Mycosphaerella fijiensis), explicou.

Por outro lado, o nematóide Meloidogyne incognita e outra praga conhecida como bicho-mineiro (Leucoptera coffeella) se tornarão mais daninhos para o café, porque o aumento da temperatura fará com que tenham gerações mais curtas e, portanto, uma infestação mais intensa. O projeto está elaborando mapas que indicam a evolução geográfica dos inimigos de cada cultivo, segundo os melhores e piores cenários climáticos traçados para 2020, 2050 e 2080, a partir dos cinco modelos globais do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Mudança Climática (IPCC).

Para o final de 2012, o Climapest espera dispor de um conjunto de mapas e informações sistematizadas sobre riscos fitossanitários, para orientar estratégias de tomada de decisão dos diferentes setores, afirmou Emília Hamada, vice-líder do projeto e encarregada de cenários futuros. Estes materiais são importantes também para “dirigir pesquisas complementares” e para o melhoramento genético destinado a gerar resistência às pragas e doenças mais graves, disse ao Terramérica Emília, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente.

Investigar, “um por um”, os principais problemas fitossanitários de cada cultivo e sua evolução de acordo com as hipóteses climáticas tem sua complexidade. Em geral, a temperatura em aumento favorece as pragas, mas pode haver “exceções se determinado limite é ultrapassado”, observou Emília. No caso do curuquerê (Alabama argillacea), uma praga que ataca o algodão, ainda se estuda como reage ao aquecimento, se este acelera, ou não, seus ciclos vitais e, portanto, sua reprodução, afirmou.

A resposta às migrações e modificações das pragas, doenças e espécies invasoras será recorrer em primeira instância aos agroquímicos, porque são os produtos disponíveis, mas “no longo prazo” deve-se desenvolver o controle biológico, que faz parte da “nova cultura” e da tendência ambiental, reconheceu Raquel. Às vezes, consegue-se soluções criativas de “controle alternativo”, como o uso de leite diluído em água contra o oídio, uma praga provocada pelo fungo Sphaerotheca fugilinea. É um método “mais barato do que os fungicidas, com a vantagem de não gerar resistência”, destacou.

O fungo é vulnerável aos micro-organismos presentes no leite de vaca, e basta uma mistura de 5% com 95% de água para evitar a enfermidade que branqueia as folhas da videira, das leguminosas e de várias hortaliças, enfraquecendo as plantas por reduzir sua capacidade de fotossíntese, explicou Raquel. O oídio é “a enfermidade da mudança climática”: se espalha com o aumento da temperatura e a menor umidade das folhas, mas encontrou um antídoto muito barato e de fácil acesso, que já foi adotado em vários países. Além disso, como não tem patente, seu uso é livre.

A questão do clima é uma prioridade da Embrapa, um sistema de 42 centros de pesquisa distribuídos pelo Brasil que, em seus 37 anos de existência, contribuiu de forma decisiva para o rendimento deste país que é um gigante agropecuário, abrindo fronteiras para cultivos antes considerados inadequados ao clima tropical, como a soja. Contudo, em suas pesquisas falta estudar o papel dos agrotóxicos na expansão e proliferação das pragas, ao fomentar a resistência de fungos e outros micro-organismos aos mesmos venenos químicos, disse Jean Marc, coordenador da organização não governamental Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa.

Os efeitos do clima alterado se apresentam em uma “natureza com desequilíbrios provocados pelos agrotóxicos” que retroalimentam problemas fitossanitários, tratados, por sua vez, “com mais agrotóxico”, explicou ao Terramérica o economista e defensor da agroecologia Jean Marc. O mesmo controle biológico desenvolvido pela Embrapa, embora bem-vindo, “tem o vício de tornar-se um agrotóxico limpo”, ao introduzir novos micro-organismos na natureza, alertou Jean Marc. “A melhor prevenção é manter o equilíbrio natural, que reduz riscos e danos”, concluiu.

* O autor é correspondente da IPS.

Mario Osava

El premiado Chizuo Osava, más conocido como Mario Osava, es corresponsal de IPS desde 1978 y encargado de la corresponsalía en Brasil desde 1980. Cubrió hechos y procesos en todas partes de ese país y últimamente se dedica a rastrear los efectos de los grandes proyectos de infraestructura que reflejan opciones de desarrollo y de integración en América Latina. Es miembro de consejos o asambleas de socios de varias organizaciones no gubernamentales, como el Instituto Brasileño de Análisis Sociales y Económicos (Ibase), el Instituto Fazer Brasil y la Agencia de Noticias de los Derechos de la Infancia (ANDI). Aunque tomó algunos cursos de periodismo en 1964 y 1965, y de filosofía en 1967, él se considera un autodidacto formado a través de lecturas, militancia política y la experiencia de haber residido en varios países de diferentes continentes. Empezó a trabajar en IPS en 1978, en Lisboa, donde escribió también para la edición portuguesa de Cuadernos del Tercer Mundo. De vuelta en Brasil, estuvo algunos meses en el diario O Globo, de Río de Janeiro, en 1980, antes de asumir la corresponsalía de IPS. También se desempeñó como bancario, promotor de desarrollo comunitario en "favelas" (tugurios) de São Paulo, docente de cursos para el ingreso a la universidad en su país, asistente de producción de filmes en Portugal y asesor partidario en Angola. Síguelo en Twitter.

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