PEQUIM, China, 07/12/2010 – (Tierramérica).- A política de proteção baseada na presunção de que a natureza pode ser conservada em santuários, isolados das ações humanas, pode ser inadequada, afirma neste artigo Maurice Strong.
Minha estreita relação com o povo inuit naqueles anos e o que aprendi com eles foram as bases de meu interesse pelo meio ambiente. Só podia maravilhar-me com o fato de ver este povo resistente e engenhoso, graças à sua própria cultura e ao seu modo de vida, ser capaz de viver e prosperar durante milênios em um dos climas mais adversos do mundo.
Mas também me entristecia ver sua vulnerabilidade diante da modernização, que já naquela época afetava o tradicional modo de vida desta pequena população dispersa sobre um vasto território. Quando o Canadá se converteu em nação, os inuits faziam parte dela. Porém, na realidade, viveram à margem da sociedade canadense, com exígua influência política em um país do qual eram cada vez mais dependentes.
Hoje devemos considerar os inuits e outros povos do norte como a linha de frente nas mudanças que estão transformando radicalmente a natureza, e valorizar nossas percepções sobre a contribuição destes povos ao Canadá e ao mundo. É positivo o fato de a recente declaração oficial sobre a política externa canadense reconhecer que nossa reivindicação de soberania sobre o Ártico deve muito à presença ali dos inuits e de outros povos indígenas desde tempos imemoriais.
A declaração admite os impactos da mudança climática e a necessidade de proteger o meio ambiente do Ártico e de preparar a região para sua adaptação às mudanças climáticas já irreversíveis. Esta é uma virada bem-vinda na posição que Ottawa tem nestas questões. Antes tarde do que nunca, mas, naturalmente, o movimento se demonstra andando.
Os recursos biológicos do Ártico, tanto terrestres quanto marinhos, são especialmente vulneráveis. A mineração, o petróleo e a construção de oleodutos causam impactos que podem ser avaliados e regulados. Mas os impactos da mudança climática têm sua origem fora do Ártico, estão além do controle do Canadá e de outras nações, e exigem um grau de cooperação internacional sem precedentes. Os testes científicos deixam claro que o Ártico é particularmente suscetível a estes impactos e pode se converter em uma fonte deles.
O derretimento dos gelos permanentes pode liberar grandes quantidades de metano, o que, por sua vez, contribuirá para o aquecimento global. Inclusive pequenas mudanças na temperatura podem provocar migrações tanto de espécies marinhas quanto terrestres, afetando outras. Atraiu muito a atenção a grave situação dos ursos polares diante da redução dos bancos de gelo que são seu hábitat.
Um artigo no jornal da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos alerta que a magnitude da mudança climática piora as perspectivas de extinções de espécies e coloca em risco muitas outras que atualmente estão protegidas. A política de proteção baseada na presunção de que a natureza pode ser conservada em santuários, isolados dos efeitos das ações humanas, pode se tornar inadequada para os recursos que se tenta proteger.
Estima-se que as extinções que a mudança climática é capaz de provocar podem alcançar um terço de todas as espécies, incluindo plantas, vertebrados, fungos e micróbios, todos que estão no Ártico. Embora possamos ver com satisfação a quantidade de novos parques nacionais e áreas protegidas que há em nosso Ártico, agora alertamos que se deve ir mais longe e adotar um enfoque mais completo e radical para a conservação das espécies.
A mudança climática nos obriga a fazer complicadas compensações entre os custos e os benefícios da conservação de recursos biológicos em relação à exploração de recursos. A declaração do Canadá também tem o mérito de deixar clara a necessidade de fortalecer os mecanismos existentes para a governança da região, particularmente o Conselho Ártico.
Embora confirme o aumento potencial em matéria de desacordos e conflitos, e particularmente de desafios às reivindicações canadenses de soberania, também sugere que estas situações podem ser manejadas pacificamente com os mecanismos existentes. De todo modo, devemos nos preparar para um crescente número e uma intensidade maior dos conflitos, na medida em que o valor potencial dos recursos do Ártico vai sendo de mais e mais competição, e outras nações reivindiquem o direito de passagem por suas águas.
* Maurice Strong foi secretário-geral da Confederação das Nações Unidas sobre o Meio Humano em 1972, e o primeiro diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Direitos exclusivos IPS.


