Mosquitos esterilizados na luta contra a malária

Seibersdorf, Áustria, 20/12/2010 – Depois de ter freado o ataque das moscas da fruta, a tsé-tsé e a broca na América, pesquisadores estudam se uma técnica de esterilização de insetos também pode ser usada para controlar a malária, que mata um milhão de pessoas por ano, grande parte delas na África.

A malária afeta especialmente a África. - John Robinson/IPS

A malária afeta especialmente a África. - John Robinson/IPS

Nos anos 1950, cientistas que buscavam formas de erradicar insetos invasivos que atacavam frutas, verduras e animais de fazenda, começaram a usar radiação para fazer com que tais pragas se tornassem estéreis.

Entomologistas e outros pesquisadores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) testam se esta técnica também pode ser usada para reduzir a população de mosquitos que transmitem a malária. São feitas experiências nos laboratórios dessa agência no leste da Áustria, embora os cientistas destaquem que seu trabalho está na fase inicial.

“O que estamos fazendo não vai solucionar o problema da malária na África, posso garantir”, disse Marc Vreysen, diretor do projeto para o controle de pestes de insetos administrado em conjunto pela AIEA e pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). Porém, um avanço nesta pesquisa poderia fortalecer as defesas tradicionais contra a doença, acrescentou Marc desde o complexo de laboratórios, 35 quilômetros a sudeste de Viena.

Embora a AIEA seja mais conhecida por inspecionar instalações nucleares e analisar tratados de não proliferação, seu pessoal também participa de outras atividades, como o uso de tecnologias atômicas e aparelhos de medição precisa para desenvolver técnicas mais eficientes de irrigação, melhorar diagnósticos médicos e calibrar equipamento científico. Também capacitam outros cientistas do Sul em desenvolvimento. A pesquisa sobre a malária está focada no Anopheles arabiensis, uma espécie de mosquito que cresce na bacia do Rio Nilo, no Sudão.

O governo sudanês solicitou ajuda à AIEA para reduzir a prevalência da malária na região. Mais de 500 casos anuais desta enfermidade são registrados nesse país de 43 milhões de habitantes, causando a morte de aproximadamente 32 mil pessoas por ano, segundo o Fundo Global, sociedade público-privada que canaliza dinheiro para combater malária, aids e tuberculose.

Pesquisadores em um laboratório austríaco criaram uma colônia de mosquitos Anopheles para as experiências, que implicam um meticuloso processo restrito pela relativamente curta vida dos insetos – menos de um mês – e o punhado de horas em que o procedimento de esterilização é ótimo.

No laboratório, os mosquitos são separados por sexo. Os machos recebem uma rajada de mais de 100 Gray de radiação de cobalto, dose letal para um ser humano. Depois são colocados em caixas onde são misturados com as fêmeas e iniciam o acasalamento. “É como uma discoteca abarrotada”, disse Jérémie Gilles, entomologista francesa e uma das oito pesquisadoras que participam do projeto.

A técnica de esterilização foi usada com sucesso para eliminar outras pestes, em geral espécies invasoras, impedindo a reprodução. Jérémie e seus colegas admitem que a pesquisa é um longo caminho, mas estão confiantes que funcionará no terreno. Um ambiente está sendo construído nesta fria parte da Áustria para criar um hábitat mais autêntico para futuros testes.

Porém, é possível que o que funcionou na erradicação de outras pestes, como a tsé-tsé Glossina ausenti de áreas mais confinadas como a Ilha de Zanzibar, no Oceano Índico, não dê certo com mosquitos em regiões tropicais mais vastas da África, América do Sul e Ásia.

Com três mil espécies de mosquitos no mundo, 50 das quais transmitem a malária, pesquisadores da AIEA enfrentam grandes desafios. Técnicas efetivas com espécies do Sudão podem não ser aplicáveis em outras partes. Os mosquitos machos inférteis reintroduzidos na natureza podem não ser tão ativos no acasalamento como seus pares férteis.

Este é o primeiro grande projeto focado nos mosquitos Anopheles machos, cuja principal função em sua curta vida é a reprodução. São as fêmeas que saem em busca de sangue e transmitem os parasitas que infectam os humanos. Embora a técnica demore algum tempo e seja cara em comparação com as medidas preventivas, os cientistas destacam suas vantagens.

Harold Townson, da Escola de Medicina Tropical de Liverpool, escreveu em recente edição do Malaria Journal que a técnica poderia ser uma solução mais duradoura do que outros métodos de erradicação e prevenção. Os mosquitos, por exemplo, podem desenvolver imunidade aos pesticidas e, com o tempo, as medidas de profilaxia podem ser ineficazes contra os parasitas.

Marc, que trabalhou no projeto de erradicação da tsé-tsé em Zanzibar, reconheceu que poderão passar dez anos até que sua equipe possa dar um uso prático às pesquisas. “Estamos muito longe da meta”, disse. Enquanto isso, será necessária melhor prevenção e tratamento. Envolverde/IPS

Timothy Spence

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