A diarreia, essa esquecida

Nairóbi, Quênia, 06/01/2011 – A malária e o HIV/aids monopolizaram as intervenções tendentes a reduzir a mortalidade infantil no Quênia, a diarreia que mata centenas de crianças por ano foi esquecida. Cecília Njambi tinha dois filhos, mas perdeu o primeiro para essa doença. “Não dormiu bem na noite anterior e se queixava de dor no estômago. Suas fezes eram moles, mas não nos alarmamos porque, de todo modo, ninguém a leva a sério”, contou. “Pensamos que havia comido algo que não fez bem. Demos a ele uma solução de água e sal, como é comum, e na manhã seguinte fui trabalhar. Essa foi a última vez que vi meu filho de cinco anos com vida”, acrescentou.

A mortalidade infantil diminuiu de 120 para cada mil nascidos vivos para 74 por mil nos últimos cinco anos. Entretanto, não há estratégias claras para eliminar a diarreia. Muitas crianças, especialmente em zonas rurais e assentamentos precários, morrem todos os anos por causa da diarreia, mesmo quando o país tenta cumprir o quarto dos oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, de reduzir a mortalidade infantil em dois terços entre 1990 e 2015.

As outras metas são reduzir pela metade o número de pessoas que sofrem pobreza e fome, com relação a 1990, garantir a educação primária universal, promover a igualdade de gênero e reduzir a mortalidade a materna, combater a aids, a malária e outras enfermidades, assegurar a sustentabilidade ambiental, e fomentar uma associação mundial para o desenvolvimento entre o Norte e o Sul.

A diarreia é um fator fundamental da mortalidade infantil, explicou Evelyn Mutio, integrante da Associação Nacional de Enfermeiras do Quênia. “Perde-se muitas vidas pelo que a comunidade médica costuma chamar de ‘as três demoras’”, disse. “A mãe, ou adulto responsável, demora para levar a criança ao hospital, em geral porque as pessoas se automedicam”, acrescentou. Quando por fim decidem levá-la, o tempo de ser examinada por um médico dependerá da distância até o centro de saúde. E, uma vez ali, é feito um diagnóstico antes de prestar os primeiros auxílios.

Há vários tipos de diarreia, segundo a causa, explicou Evelyn. O pessoal da saúde deve se certificar de que, enquanto é feito o diagnóstico, o menor seja hidratado. “Primeiro devem encontrar a causa e depois tratá-la”, explicou. “Neste processo, o paciente perde muito liquido. Dá para imaginar o quanto se desidrata uma menina ou um menino que defeque quatro vezes por hora”, além dos vômitos, acrescentou.

“Quando voltamos à clínica para a vacinação nos ensinam a importância de tratar imediatamente doenças como a diarreia, mas a informação não está apresentada de uma forma que a levemos para casa”, disse Jackline Ngatha. “Costumam nos dar material sobre higiene, mas a maioria de nós está mais preocupada em levar comida para a mesa do que em ler”, ressaltou.

A falta de dinheiro é outro fator que propicia a diarreia, um problema que afeta principalmente os mais pobres, disse Evelyn. “A água potável custa dinheiro, bem como fervê-la e até usar produtos químicos para purificá-la”, explicou. A demora para levar a criança ao hospital também costuma ocorrer por falta de dinheiro. O governo criou centros de saúde com serviços gratuitos, embora não totalmente.

“As clínicas costumam ficar longe e é preciso ir até elas. É necessário comprar um cartão médico, em geral, custa menos de um dólar, mas vivemos com menos que isso por dia. Depois, também temos de comprar o remédio. Nada é de graça”, lamentou Cecília. “Quando uma criança tem diarreia, preparamos bebidas para tentar detê-la e economizar dinheiro”, contou James Otieno, morador assentamento de Kibera, um dos maiores da África. A situação é especialmente difícil nas favelas porque as organizações humanitárias concentram seus recursos em reduzir a incidência do HIV, vírus causador da aids.

“Não há saneamento nem água potável nestes assentamentos, e a pouca que existe custa caro. Depois de ser atendida, a criança volta ao mesmo ambiente sujo. Só o que se fez foi adiar o problema”, explicou James. Ele criou, com alguns amigos, uma organização para ajudar a manter o bairro limpo e contribuir para controlar a doença derivada da “falta de tratamento do lixo”, disse. É uma pequena iniciativa, mas para os moradores é uma solução para que os menores vivam em um ambiente limpo, salvando-os da diarreia e de uma morte evitável. Envolverde/IPS

Miriam Gathigah

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