A Namíbia no caminho nuclear

Windhoek, Namíbia, 07/01/2011 – A Namíbia aproveitará suas abundantes reservas de urânio para ampliar sua matriz energética. Prevê enriquecer o mineral em seu território e construir uma central elétrica nuclear. Especialistas da Autoridade Nuclear e de Radiação da Finlândia colaboram com o Ministério de Minas e Energia para criar o primeiro marco político do país, que estará pronto em meados deste ano, bem como leis vinculadas ao assunto. A Namíbia prevê gerar eletricidade com seu reator nuclear em 2018.

“É uma decisão expressa do governo considerar seriamente o desenvolvimento da tecnologia nuclear e completar a variedade de fontes de energia para produzir uma quantidade suficiente para nosso desenvolvimento”, afirmou o ministro, Isak Katali, na abertura de uma conferência sobre o assunto. “O marco político cobrirá todo o ciclo de produção de combustível, desde a extração de urânio até a geração de energia”, acrescentou.

Além disso, incluirá a criação de um fundo de gestão de dejetos, fortalecimento da economia local mediante a participação de capitais na exploração de urânio, transferência de capacidades à população e utilização do mineral apenas com fins pacíficos. A Namíbia produz cinco mil toneladas de urânio por ano. Em 2009, foi o quarto produto, cobrindo quase 10% da demanda mundial.

“Não é nenhum segredo que o governo tomou a decisão de desenvolver a energia nuclear, a demanda cresce”, disse Joseph Iita, secretário permanente do Ministério. “Temos grandes quantidades de urânio. Trabalhamos com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) para criar um contexto que garanta uma política nuclear segura, eficiente e com fins pacíficos”, acrescentou. A Namíbia é signatária do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TPN), do Acordo Integral de Salvaguardas e do Protocolo Adicional. Este país criou, em fevereiro de 2009, a Junta de Energia Atômica.

“A Namíbia aposta em um mundo livre de armas nucleares, no qual nações e povos possam viver em paz e harmonia, e aplaude a entrada em vigor do Tratado de Pelindaba”, disse o chanceler Utoni Nujoma, na Conferência de Revisão do TPN, realizada em 2010 em Nova York. O tratado se refere à Zona Livre de Armas Nucleares (ZLAN) na África, redigido no centro nuclear de Pelindaba, na cidade sul-africana de Johannesburgo, em junho de 1995, e aberto para assinaturas no Cairo, no dia 11 de abril do ano seguinte. “Parece um êxito fundamental para a segurança e a paz regionais. A Namíbia está em processo de ratificar este importante instrumento”, acrescentou.

A falta de um marco político levou o governo a impor, em 2007, uma moratória sobre a emissão de licenças exclusivas de exploração. Há 66 companhias, a maioria da Austrália, China e Canadá, com licenças de exploração na Namíbia, principalmente na região costeira de Erongo. Há apenas quatro empresas com licenças que possuem duas minas operacionais e outras duas em construção.

A mina mais antiga, Rössing Uranium, da British Rio Tinto, começou a operar em 1976. Em 2007, uniu-se à Langer Heinrich Uranium (LHU), do grupo australiano Paladin Energy, que em 2009 produziu 1.170 toneladas de torta amarela, como é conhecido o óxido de urânio concentrado. O governo do Irã tem participação de 15% na Rössing Uranium. Pelo menos outras cinco minas de urânio entrarão em operação nos próximos três ou quatro anos. A companhia nacional de eletricidade NamPower amplia a rede de fornecimento e as capacidades de geração elétrica.

As novas áreas de extração de urânio estão localizadas, em parte, em um parque nacional e em um dos centros turísticos mais populares do país. “A menos que seja bem gerida e existam as salvaguardas necessárias, a febre de urânio prejudicará o meio ambiente, em cada mina e por efeito acumulativo. Também afetará o sentido de lugar, o turismo, a vida das pessoas e suas fontes de renda”, disse Peter Tarr, um dos especialistas que realizou um estudo de impacto.

“Estamos muito preocupados com as consequências negativas que o auge do urânio possa ter neste belo país e pela possibilidade de ser construído um reator nuclear”, disse Peter Versveld, que trabalha em uma empresa turística no Deserto da Namíbia. “Prejudicará o litoral e o deserto”, disse Peter, que leva turistas para desfrutar da imponente vista desde as montanhas escarpadas, conhecidas como “paisagem lunar”, e das famosas plantas welwitschia, algumas com milhares de anos.

Contudo, Johannes Goraseb, cuja família vive há gerações em casas humildes, espera conseguir um trabalho. Johannes vive 80 quilômetros a leste do balneário de Swakopmund, perto de outro importante centro turístico, as montanhas de Spitzkoppe, que possui pinturas rupestres. “Não há turistas suficientes para nos sustentar, assim, espero conseguir trabalho quando começar a funcionar a mina de urânio que está em construção”, disse Johannes. “Areva, proprietário da nova mina, já nos doou tanques de água. Além disso, construirão um povoado para o pessoal e isso ajudará a fomentar o desenvolvimento no deserto”, acrescentou.

O governador de Erongo, Samuel Nuuyoma, disse que a mina de urânio é um importante pilar econômico e que espera que aumente de 5,54% do produto interno bruto da Namíbia, em 2008, para 14,78% em 2015. “Espera-se que a contribuição para a economia se multiplique por dois ou mais, dos atuais US$ 150 milhões para US$ 305 milhões em 2015”, acrescentou.

“Nos países produtores de urânio, inevitavelmente surgem dúvidas a respeito de questões de saúde, ambientais, segurança por causa das radiações, desperdícios e não proliferação”, disse Mike Leech, presidente da Câmara Mineira. Estima-se que, com as novas minas previstas e os projetos de ampliação existentes, sejam criados milhares de postos de trabalho apenas em Erongo. Envolverde/IPS

Brigitte Weidlich

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