MADRI, Espanha, 26/01/2011 – (Tierramérica).- A disputa mundial entre os setores tradicionais de geração de energia e os que desenvolvem tecnologias alternativas se resolve no campo de batalha espanhol.
A Fundação Renováveis, da qual Sergio é um dos fundadores, alerta que a Espanha poderia estar mais avançada do que se encontra no tocante aos objetivos que se propôs a União Europeia (UE), de reduzir em 20% as emissões de gases-estufa até 2020 mediante o uso de energias renováveis como eólica, solar e bioenergia.
Sergio, também membro da Associação Empresarial Eólica da Espanha, explicou ao Terramérica que a Fundação foi criada para sensibilizar a sociedade de seu país e, assim, pressionar por uma mudança do modelo energético, diante da férrea defesa de seus privilégios por parte do setor de geração a partir de fontes convencionais.
TERRAMÉRICA: Há risco de a Espanha não cumprir os objetivos que fixados e de isso causar problemas para as metas da UE?
SERGIO DE OTTO: Não, a Espanha vai cumprir os objetivos. E mais, com as medidas em vigor seguramente serão alcançados os índices propostos, porque já estamos perto deste objetivo. Contudo, o que notamos é que os resultados, que poderiam ser mais ambiciosos, foram afetados por outros interesses. A Espanha está em condições de que sua matriz energética conte com 30% de fontes renováveis em 2020 e não apenas 20% como estabelecem acordos do bloco europeu.
TERRAMÉRICA: Como é a participação da Espanha no setor das energias renováveis?
SO: Podemos ser mais ambiciosos porque os objetivos da UE não são apenas uma meta, mas um passo intermediário. Ainda temos de fazer muitos esforços, mas temos uma vantagem. Em 2010, as fontes renováveis responderam por 37% da geração de eletricidade na Espanha, e, em termos de energia geral, final, as renováveis ainda estão entre 8% e 9%. Entre 2004 e 2008, quando eclodiu a crise econômico-financeira mundial, o setor das energias renováveis teve um grande crescimento neste país. Em 2008, havia quase três mil megawatts de capacidade fotovoltaica instalada, além de 16 mil de energia eólica e projetos de três mil megawatts de energia termosolar. O setor continuou crescendo e no final do ano passado previa-se chegar a 20 mil megawatts de energia eólica e quatro mil de fotovoltaica. Assim, a Espanha se destacou entre seus sócios europeus e começou a exportar tecnologia para Estados Unidos, França, Itália e inclusive China.
TERRAMÉRICA: Então, por que não há um maior crescimento do setor? É uma consequência da crise econômica?
SO: A crise global acentuou o problema, mas não é o fator principal. A Espanha é cenário do primeiro confronto sério entre os interesses das tecnologias convencionais de geração de energia e os que apostam no desenvolvimento das renováveis. Somos os mais avançados neste último setor, mas o retrocesso no consumo de eletricidade acelerou a disputa que se esperava para mais alguns anos à frente. Neste momento, as empresas que continuam investindo em tecnologias convencionais percebem que a energia renovável ocupa uma parte do mercado de geração elétrica e, por isso, pressionam o governo para que detenha este desenvolvimento.
TERRAMÉRICA: Quais outros fatores interferem neste processo?
SO: Há outros problemas, de caráter interno, como atraso na atualização das tarifas reguladas pelo Estado. Para atenuar o déficit entre custos de geração de eletricidade e a receita obtida pelas empresas, que aumentou nos últimos dez anos, este mês foi decretado aumento de quase 10%. A Fundação Renováveis busca esclarecer a população, desmascarando os que insistem em culpar o setor de energias renováveis por este aumento na conta de luz.
TERRAMÉRICA: Como atua a Fundação Renováveis para influir nas mudanças?
SO: A organização tem pouco tempo de existência, pois foi fundada no meio do ano passado e culminou sua constituição em dezembro. Está formada por um patronato composto por 12 fundadores e com mais de 150 sócios, e o que fazemos é reclamar. Somos um movimento cidadão de profissionais que trabalham em diferentes instituições e empresas do setor energético. Nosso objetivo não é fazer uma nova lei, mas sensibilizar a sociedade sobre as questões de energia. Consideramos fundamental a mudança de modelo e que é necessário que isso ocorra o mais rápido possível para prescindir, o quanto antes, dos combustíveis de origem fóssil e desenvolver ao máximo as possibilidades das energias renováveis. Tudo isso sempre acompanhado de políticas de desenvolvimento na área.
TERRAMÉRICA: No caso de a situação não mudar, qual será a saída para as empresas espanholas que trabalham com as energias renováveis?
SO: As dificuldades atuais poderão fazer com que muitas empresas levem suas experiências e seus conhecimentos a outros mercados. Entre os países com grandes possibilidades estão China e Argentina. Também o México, onde já existem várias companhias espanholas com investimentos, e pouco a pouco vai aumentando o interesse nos países da América Latina.
* * A autora é correspondente da IPS.


