Cristãos paquistaneses sob crescente ameaça

Karachi, Paquistão, 28/01/2011 – Gulsher Masih, de 46 anos, vive em constante temor desde que há um ano fugiu de sua aldeia natal de Chuk Jhumra, perto da cidade paquistanesa de Faisalabad.

Os cristiãos no Paquistão enfrentam momentos difíceis. - Fahim Siddiqi/IPS

Os cristiãos no Paquistão enfrentam momentos difíceis. - Fahim Siddiqi/IPS

Ele e sua filha solteira, de 22 anos, Saandal Bibi, acabam de ser libertados da prisão, onde estiveram por 13 meses acusados de “profanar” o Alcorão, livro sagrado muçulmano. Tiveram que abandonar seus lares habituais e ainda se escondem na província de Punjab.

“Dentro ou fora da prisão, uma vez acusados, a sombra da morte te acompanha por todo lado”, disse Gulsher, um experiente pedreiro que está sem trabalho e é apoiado pela igreja local. Como cristão, faz parte da minoria religiosa nesta nação predominantemente islâmica. Gulsher e sua filha têm sorte de conseguir escapar vivos. Uma acusação assim seria motivo suficiente para um castigo mais duro em qualquer outra parte deste país, no qual – dizem os cristãos – a intolerância se converte lentamente em regra.

Por exemplo, os habitantes de Itanwali, outra aldeia de Punjab, clamam pelo sangue de Asia Bibi, cristã também acusada de blasfêmia. Das 1.060 pessoas acusadas por leis de blasfêmia desde 1986, 46 foram assassinadas por multidões ou por indivíduos. A comunidade cristã tem sido vítima de ferozes extremistas, que atacam suas igrejas e casas.

Alguns cristãos consideram que tais ataques são represália à invasão do Afeganistão pelos Estados Unidos após os atentados terroristas em Nova York e Washington em 11 de setembro de 2001. Em outubro daquele ano, combatentes islâmicos mataram 15 cristãos em uma igreja. Em 2005, três mil combatentes islâmicos cometeram um ataque similar, destruindo igrejas em Sangla Hill como represália pela blasfêmia supostamente cometida por um cristão paquistanês. No ano seguinte, foram atacados mais igrejas e colégios cristãos em protestos pela publicação de uma caricatura do profeta Maomé.

Incidentes semelhantes continuaram até 2009. Em Gorja, também em Punjab, oito cristãos foram queimados vivos quando uma turba enfurecida colocou fogo em 40 casas e uma igreja diante do olhar da polícia. Depois deste incidente, o primeiro-ministro, Yosuf Raza Gilani anunciou que seu governo revisaria as leis de blasfêmia. Em Faisalabad, o ativista cristão Atif Paggan disse que a comunidade à qual pertence diminuiu nos últimos 15 anos. “Há uma crescente inquietação entre os cristãos e muitos deixaram o país porque se sentem discriminados”, afirmou.

Segundo Peter Jacob, chefe da Comissão Nacional pela Paz e a Justiça, formada pela Conferência dos Bispos Católicos do Paquistão, um terço da população deste país era composta por minorias religiosas na época de sua independência, em 1947. Jacob disse que o branco da bandeira nacional representava esses 30%, incluindo hindus, siks, parsis e cristãos. Contudo, essa minoria diminuiu, e agora representa apenas 3,5% dos 175 milhões de paquistaneses. Os cristãos representam cerca de 1,6%, e estão concentrados majoritariamente na província de Punjab.

“O país perdeu sua diversidade religiosa”, disse Peter. No começo da década de 1970, o primeiro governo do Partido Popular do Paquistão, liderado por Zulfikar Ali Bhutto, nacionalizou escolas e colégios e impôs as crenças e práticas muçulmanas. “Foi nessa época que a sexta-feira passou a ser dia sagrado semanal, foram introduzidos os estudos islâmicos nas escolas e proibido o álcool. As leis e as políticas estimularam a discriminação”, afirmou Peter.

No entanto, o que disparou a violência foram os artigos 295 B e C que o ex-presidente Ziaul Haq (1978-1988) acrescentou às leis de blasfêmia em 1986. Ativistas pelos direitos humanos afirmam que agora a lei só protege o Islã, e nenhuma outra religião, e é habitualmente usada como arma contra adversários políticos ou para expulsar famílias de suas terras. Peter disse que a vibrante classe média paquistanesa começou a minguar nos anos 1970. “Começaram a encontrar cada vez menos oportunidades de trabalho”, explicou.

Em determinado momento, cristãos com alto nível de instrução começaram a ocupar postos no sistema judicial ou na administração pública, como advogados ou professores, enquanto a maioria dos paquistaneses, com menos educação, ocupavam postos inferiores. Porém, a realidade mudou. “Em quase todos os empregos disponíveis é dada prioridade aos muçulmanos, e isto se faz de forma encoberta”, disse Farook Tariq, porta-voz do Partido Trabalhista do Paquistão.

Em Punjab, um grande número de cristãos trabalha na indústria de tijolos. “Este ano, a maioria deles não recebeu o salário antes do Natal e não puderam comemorar” essa festa cristã, disse Farook. Nesta província, com seu grande número de cristãos, é percebida uma maior discriminação em relação às minorias.

O analista político Hasan Askari Rizvi atribui isto ao fortalecimento da ortodoxia islâmica nas últimas três décadas. “Punjab se voltou à extrema direita política e ao conservadorismo islâmico durante o regime do general Zia”, disse Hasan, acrescentando que os partidos políticos religiosos e grupos sectários também têm sua base em Punjab.

Por outro lado, nem todos os cristãos se sentem ameaçados ou sofrem discriminação. Há muitos como Angie Marshal, que trabalha no mundo da moda e administra um salão de beleza. “Nunca me senti menos paquistanês por ser cristã, e nunca fui discriminada, nem quando criança e nem quando comecei nesta profissão. Meu marido trabalha em uma empresa aérea estrangeira”, contou. Envolverde/IPS

Zofeen Ebrahim

Zofeen Ebrahim is a Karachi-based journalist who has been working independently since 2001, contributing to English dailies, including Dawn and The News, and current affairs monthly magazines, including Herald and Newsline, as well as the online paper Dawn.com. In between, Zofeen consults for various NGOs and INGOs. Prior to working as a freelance journalist, Zofeen worked for Pakistan’s widely circulated English daily, Dawn, as a feature writer. In all, Zofeen’s journalism career spans over 24 years and she has been commended nationwide and internationally for her work.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *