MULHERES-NAÇÕES UNIDAS: Educando o secretário-geral

Nova York, Estados Unidos, 07/01/2011 – Mudança climática, pobreza, desarmamento nuclear e direitos humanos são os desafios da Organização das Nações Unidas (ONU) para este ano, segundo seu secretário-geral, Ban Ki-moon. No entanto, ele esqueceu de mencionar o trabalho que tem pela frente a nova agência dedicada às mulheres. De forma deliberada, ou não, deixou de lado um dos grandes êxitos das Nações Unidas, a criação da ONU Mulheres, destinada a promover a igualdade de gênero no mundo.

Após anos de negociações, a nova agência, criada em 2 de julho por resolução da Assembleia Geral, começou a funcionar no dia 1º deste mês. A ONU Mulheres, com orçamento anual de US$ 500 milhões, é encabeçada pela secretária-geral adjunta Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile (2006-2010).

“Teria sido uma grande oportunidade para chamar a atenção para a ONU Mulheres. Afinal, a criação de uma agência dedicada à metade da população mundial é algo para ser destacado e celebrado”, disse Paula Donovan, codiretora da Aids-Free World, uma das organizações que impulsionou a nova agência. “Mas não houve nem uma palavra”, queixou-se em carta enviada a Bachelet, redigida junto com Stephen Lewis, ex-subdiretor executivo do Fundo das Nações Unidas para a Infância. A agência foi efetivamente inaugurada no dia 5, primeiro dia útil na sede da ONU em Nova York.

Em um parágrafo sobre os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, o secretário-geral enumerou sete dos oitos que os países devem tentar alcançar até 2015. “O único não mencionado foi, por incrível que pareça, o da igualdade de gênero e poder das mulheres. Como é possível?”, perguntou Paula. “O secretário-geral deixou claro seu compromisso com os assuntos das mulheres e trabalhou duro para criar a ONU Mulheres”, disse o porta-voz Farhan Haq, ao ser consultado pela IPS.

Sua vontade se reflete no empenho que teve para conseguir a aprovação da agência e na busca de uma dirigente sólida, que encontrou em Michele Bachelet, acrescentou Farhan. “Referiu-se amplamente às questões das mulheres, e o assunto não ter sido mencionado em uma coluna de jornal não implica um compromisso menor sobre algo tão importante”, ressaltou. A ONU tem, ao que parece, uma vida dupla, disse Ban no artigo publicado pelo Sydney Morning Herald, no dia 31 de dezembro. “Os especialistas a criticam por não resolver os males do mundo, mas as pessoas pedem que se faça mais do que antes em mais lugares, uma tendência que se manterá este ano. Não é difícil saber o motivo. Os ortodoxos dirão que os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio são inalcançáveis”, afirmou.

Essas metas são reduzir pela metade o número de pessoas que vivem na indigência e passam fome, garantir a educação primária universal, promover a igualdade de gênero, reduzir a mortalidade infantil em dois terços e a maternaem três quartos com relação a 1990, combater expansão da aids, a malária e outras enfermidades, assegurar a sustentabilidade ambiental, e fomentar uma associação mundial para o desenvolvimento entre o Norte e o Sul..

“Controlamos enfermidades como poliomielite, malária e aids melhor do que antes, e investimos muito mais na saúde de mulheres, meninos e meninas, a chave para melhorar muitas outras áreas”, insistiu Ban. “Bachelet, seu trabalho começa de cima”, diz a carta enviada à secretária geral adjunta por Paula. “Podemos ajudá-la com o maior desafio que tem pela frente, educar o secretário-geral?”, perguntou. “Antes fosse casualidade, mas, lamentavelmente, é costume desde que assumiu”, afirmou Paula, referindo-se a Ban, ao ser consultada sobre se o secretário-geral não era honesto em matéria de igualdade de gênero. “Realmente, me pergunto se acredita que preencheu o assunto referente ao gênero quando fez referência à saúde materna, como se isso resumisse tudo o que diz respeito aos direitos das mulheres”, acrescentou.

Quando assumiu como secretário-geral, Ban brincou com funcionários da Organização Mundial da Saúde dizendo que sua curva de aprendizagem em matéria de gênero era uma linha vertical, afirmou Paula. “Se houve uma mudança, não tenho provas”, disse. Por outro lado, sob seu mandato, a ONU parece mais tolerar do que promover a nova agência para as mulheres, ressaltou.

“Não há provas de que o secretário-geral busque fundos para a ONU Mulheres, a menos que o faça de forma muito silenciosa e a portas fechadas, o que duvido”, acrescentou Paula. Ban parece cômodo, pressionando os doadores para que financiem o trabalho da ONU em matéria de mudança climática, desastres humanitários e o popular e menos polêmico problema da saúde materna, concluiu. Envolverde/IPS

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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