EGITO: Apagão da Internet acendeu a censura no Egito

Cairo, Egito, 04/02/2011 – O Twitter foi uma das primeiras vítimas. Depois foi a vez do Facebook.

Os enfrentamentos entre policiais e manifestantes se intensificam. - Mohammed Omer/IPS

Os enfrentamentos entre policiais e manifestantes se intensificam. - Mohammed Omer/IPS

E quando foram cancelados todos os acessos à Internet, os ativistas pela democracia no Egito souberam que seus protestos estavam tendo efeito. Este informe foi passado por telefone fixo do Cairo para o escritório da IPS em Londres. “O governo bloqueou a Internet para nos impedir de contar ao mundo o que está realmente ocorrendo aqui”, disse Sherif Gomaa, empregado de um café que protestava no centro da capital egípcia.

As manifestações pedindo a derrubada do presidente Hosni Mubarak continuam e não dão sinal de diminuir. Pelo menos quatro pessoas morreram e centenas ficaram feridas desde que começaram os protestos, no dia 25 deste mês, no chamado “Dia de Ira”. Estas manifestações, que acontecem em todo o país, se inspiraram no levante popular de meados deste mês que derrubou o ditador da Tunísia, Zine el Abidine Ben Ali. Também são as maiores que Mubarak enfrenta durante seu regime de três décadas. Mais de 1.200 manifestantes foram presos, segundo organizações egípcias de direitos humanos.

As autoridades haviam negado, antes, interferência com os serviços de comunicação. “O governo não recorrerá a esses métodos”, disse no dia 26 o porta-voz do gabinete, Magdy Rady, às agências de notícias. O governo egípcio respeita a liberdade de expressão e garantirá a abertura das diferentes vias de comunicação, acrescentou. Contudo, os ativistas afirmam que o governo começou a alterar os serviços de Internet no dia 25 para impedir que os opositores usassem as redes sociais para coordenar manifestações contra o regime e informassem sobre os confrontos com a polícia.

As alterações do serviço aumentaram em amplitude e alcance na medida em que os protestos continuavam. O governo, que controla todos os acessos à Internet, bloqueou vários sites jornalísticos egípcios privados conhecidos por criticarem o regime. O Twitter, popular entre ativistas jovens, e o Bambuser, um site sueco de transmissão de vídeos ao vivo, confirmaram que seus portais estavam bloqueados no Egito. O Facebook disse, inicialmente, que não havia notado nenhuma mudança importante no tráfego desde o Egito, mas depois confirmou que seu serviço também estava bloqueado.

Um ativista contou que se havia antecipado à censura, e os egípcios usavam “representantes” para evitar os sites bloqueados. Na manhã do dia 27, enquanto os protestos continuavam em todo o país, os assinantes de serviços na Internet continuaram operando com conexões muito lentas, mas às 23 horas todo o tráfego da rede foi paralisado. Um técnico de um dos provedores disse que o governo havia ordenado a interrupção do serviço em todo o país, e não anunciou quando reiniciaria. É a primeira vez que o governo egípcio corta todo o tráfego da Internet em resposta ao mal-estar social.

O especialista em direitos digitais Ramy Raouf disse em novembro à IPS que o governo havia posicionado com êxito o Egito como centro regional de tecnologias da informação e que desenvolvera suas operações de centrais de chamadas, assim como a publicidade de empresas na Internet. “O governo foi reticente em censurar sites ou cortar os serviços da Internet porque ao fazê-lo transmitirá uma mensagem negativa e perderia muito dinheiro”, explicou.

O momento da interrupção da Internet foi crucial. Ocorreu quanto os ativistas tentavam divulgar o vídeo de uma brutal ação policial contra os manifestantes, e coordenar planos para um protesto em todo o país após as rezas do dia 28. Várias organizações opositoras, entre elas a proibida Irmandade Muçulmana, pretendiam participar das manifestações.

Os ativistas declararam o dia 25 “Dia da Ira”, por meio do Facebook e do Twitter, utilizando estas redes sociais para obter apoio. Mais de 80 mil pessoas uniram-se ao grupo do Facebook dizendo que participariam dos protestos. O ministro do Interior, Habib el-Adly, inicialmente não deu importância à campanha pela Internet por considerá-la ineficaz, mas o governo pareceu surpreendido pelas dezenas de milhares de egípcios que saíram às ruas, apesar da forte presença policial.

“Demonstramos que o ativismo online pode se converter em ação de rua”, afirmou Moahmmad Abdel Moneim, um dos cerca de 15 mil manifestantes que no dia 25 se reuniram na praça Tahrir, no Cairo. “Isto começou no Facebook, mas depois se converteu em algo muito maior”, acrescentou. Na primeira hora do dia 28, todos os serviços de telefonia celular e televisão via satélite foram cortados. Somente foram mantidos os telefones fixos e as comunicações via fax.

“O que o regime enfrenta não é o resultado da revolução das redes sociais, mas os resultados de suas estúpidas políticas corruptas dos últimos 30 anos”, escreveu a blogueira egípcia Zeinobia. Horas depois, seu blog foi silenciado. Envolverde/IPS

Cam McGrath

Cam McGrath is a Cairo-based correspondent. He joined IPS in 2001 and reports on politics, human rights and environmental issues in Egypt and the Arab world.

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