Paris, França, 10/02/2011 – A liberdade de expressão, de reunião e de imprensa são os principais triunfos da chamada Revolução do Jasmin na Tunísia, segundo Mahmoud Ben Romdhane, economista, escritor e importante figura da oposição desse país africano. Contudo, ainda há grandes desafios pela frente.
Romdhane foi um dos escritores convidados para a feira literária, que atraiu mais de cinco mil pessoas e onde foram analisados os levantes populares no norte da África. O evento se concentra a cada ano em um país do Magreb. Desta vez, coincidindo com os acontecimentos políticos, foi escolhida a Tunísia, onde protestos populares derrubaram o regime do presidente Zine el-Abidine Ben Ali. Manifestações semelhantes agitam o Egito.
Cerca de 30 dos 132 escritores que participaram da reunião eram da Tunísia, e outros representavam Marrocos, Argélia e comunidades magrebes da França. No último momento, os organizadores acrescentaram uma sessão ao programa intitulada “Tunísia: recuperando o mundo”, que teve grande participação. “Podem ver na televisão e ler nos jornais que a liberdade ressurgiu”, contou Romdhane. “A revolução teve êxito em destruir um regime tirânico, que considerava impossível ser derrubado, e conseguimos a libertação de todos os presos políticos, incluindo os escritores”.
Entretanto, alertou que os problemas da Tunísia não desaparecerão no curto prazo. Por exemplo, disse que o desemprego entre universitários é superior a 30% em nível nacional e chega a quase 60% em Sidi Bouzid, onde começaram os protestos depois que um vendedor ambulante se imolou no dia 14 de dezembro. “Milhares de formandos estão deixando as universidades e não há trabalho para eles”, explicou Romdhane.
Ele e outros escritores destacaram que um sólido crescimento econômico será um dos fatores necessários para que o novo governo tenha êxito e considere as liberdades civis. O economista também disse à IPS que a liberdade de imprensa deve ser parte das mudanças para que a nova administração seja aceita pela população. Grupos de direitos humanos já acusam as autoridades de segurança do governo interino de realizar esporádicas ações repressivas contra meios de comunicação.
O partido de oposição Tajdid, ao qual pertence Romdhane, tem um ministro na nova administração, mas isso “não significa que apoiamos o atual governo”, explicou. A Federação Internacional de Jornalistas (FIP), com sede em Bruxelas, denunciou vários ataques a profissionais de imprensa na Tunísia desde a queda do regime de Ben Ali. Um dos casos envolve um fotógrafo francês maltratado quando registrava policiais batendo em um jovem.
“Creio que é muito cedo para dizer que as coisas mudaram completamente”, disse à IPS o chefe de direitos humanos e informação da FIP, Ernest Sagaga. “No terreno sim, vemos mudanças, incluindo promessas do novo regime de respeitar a liberdade de imprensa e não interferir nos assuntos da mídia. Mas este governo ainda é muito fraco”, acrescentou.
A organização internacional de escritores PEN disse receber com agrado a notícia da “liberação dos jornalistas, blogueiros e outros presos políticos tunisianos, depois dos protestos que derrubaram o governo de 23 anos de Ben Ali”. Porém, a entidade, que realizou campanhas durante muitos anos em favor de escritores e jornalistas presos, disse esperar um “pleno reconhecimento da liberdade de expressão e de reunião na Tunísia”.
“Este é um desses momentos extraordinários nos quais existe abertura porque o presidente e sua família partiram”, disse por telefone à IPS o presidente da PEN, John Ralston Saul. “Ainda está em uma fase interina na qual as pessoas de boa vontade trabalham pela mudança, enquanto outras gostariam de manter elementos do velho regime. Escritores tunisianos sabem que devem estar vigilantes para garantir que os resultados finais não sejam semelhantes ao regime anterior. Não podemos ser românticos sobre isso”, afirmou. A organização também alertou que ativistas, opositores, escritores e jornalistas no Iêmen e na Síria estão em risco de serem perseguidos. Envolverde/IPS


