CACALOXÚCHITL, México, 15/02/2011 – (Tierramérica).- Uma experiência de cooperativa pretende recuperar, a partir do Sul do México, a manufatura do amendoim, um cultivo que por seus valores nutricionais é um bom paliativo contra a fome.

Yandi Condado mostra a produção da cooperativa Grupo Cacaloxúchitl Unido para o Desenvolvimento - Emilio Godoy/IPS
A cooperativa Grupo Cacaloxúchitl Unido para o Desenvolvimento, formado por quatro mulheres e dois homens, começou a operar em março de 2009. Os produtores semearam três hectares com amendoim (Arachis hypogaea) e colhem anualmente seis toneladas, que usam para fabricar artesanalmente manteiga e molho picante de pimentão. Originária da América do Sul e adotada pelo México, esta semente é rica em proteínas, vitaminas e gorduras não saturadas. Diante da renovada alta do preço dos alimentos e de um possível ressurgimento da pobreza, pode ser uma alternativa para enfrentar tempos difíceis.
“É um bom paliativo para a crise alimentar, não para a pobreza. Serve para que menos gente morra de fome, mas para acabar com a pobreza seria realmente importante melhorar as explorações agrícolas locais”, disse ao Terramérica o especialista José Guimón, da estatal Universidade Autônoma de Madri, que pesquisa o tema. No México, são plantados 53 mil hectares de amendoim, com rendimento médio estável de 1,55 tonelada por hectare, o que dá uma produção de 80 mil toneladas, sendo que Puebla responde por 10% desse total.
Paralelamente, as importações desse produto estão aumentando, especialmente dos Estados Unidos. As compras mexicanas chegaram, em 2009, a 107.839 toneladas, enquanto as vendas somaram apenas 866 toneladas. Na América Latina, a fome e a desnutrição afetam 53 milhões de pessoas, enquanto cerca de nove milhões de crianças menores de cinco anos sofrem desnutrição crônica, segundo a Organização das Nações Unidas. Nos últimos anos, proliferaram os “alimentos terapêuticos prontos”, assim chamados pela Organização Mundial da Saúde, estratégicos no combate à desnutrição, especialmente em países africanos.
É nesse contexto que se destaca o valor nutricional do amendoim. Uma das variedades de seu uso é a mistura, que não precisa de cozimento, que se prepara acrescentando açúcar, leite em pó, óleo vegetal, vitaminas e minerais, segundo uma fórmula criada em 1996 pelos franceses Michel Lescanne, fundador da empresa Nutriset, e André Briend, médico nutricionista. A Nutriset, precisamente a produtora desta pasta alimentícia chamada “Plumpy’nut”, a distribui em Moçambique, Etiópia, Haiti, Níger, República Democrática do Congo e República Dominicana por meio de organismos como o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unesco) e a organização não governamental Médicos Sem Fronteiras (MSF).
“Apoiamos redes para distribuir nossos produtos e realizamos iniciativas para melhorar o acesso nutricional da população mais pobre” na Bolívia, Guatemala e Peru, disse ao Terramérica o jornalista francês Christian Troubé, assessor da Nutriset. Christian publicou, no ano passado, o livro “Nutrise, l’Autonomie Nutritionnelle pour Tous” (Nutriset, Autonomia Nutricional para Todos). Em 2007, esta empresa francesa abriu a filial Vitase, na República Dominicana, de onde o alimento é enviado para o Haiti. Entretanto, sua incursão na América Latina segue lentamente.
Por ser cultivo de temporada de chuva, os agricultores plantam o amendoim entre maio e junho, para colher entre outubro e novembro. “Fazemos tudo, desde a limpeza manual até o envase”, explicou Yandi, economista formada na estatal Benemérita Universidade Autônoma de Puebla. O Grupo Cacaloxúchitl, palavra que em língua indígena significa “lírio que floresce em maio” ou “flor de corvo”, financia o projeto com seus próprios recursos, com os quais comprou uma descascadora e um moinho.
Para os produtores, é mais rentável dar valor agregado à matéria-prima do que apenas comercializá-la, pois pagam por ela menos de um dólar o quilo. Por outro lado, o produto manufaturado pode ser vendido por entre US$ 3 e US$ 4 cada vidro de 260 gramas. “O fato de ser cultivado em muitos países em desenvolvimento permite utilizar recursos locais para a produção de alimentos terapêuticos, dotando os países de maior autossuficiência e segurança alimentar”, disse José.
“É fácil de usar em lugares onde o amendoim faz parte da dieta local. O México poderia ser um local ideal para projeto semelhante”, ressaltou José. Na Índia, no Quênia e na Etiópia, por exemplo, surgiram fábricas que processam alimentos terapêuticos prontos. O futuro das cooperativas passa pela obtenção de certificação orgânica, pelo acesso a financiamento público e incursão nos esquemas de economia solidária e comércio justo.
* * O autor é correspondente da IPS.

