Lima, Peru, 04/02/2011 – A campanha para as eleições presidenciais e legislativas de abril no Peru repete o fenômeno de mulheres candidatas por orientação familiar ou por serem estrelas do esporte, da televisão ou do mundo das artes, e transforma em miragem a ideia de que os partidos incentivam a participação feminina na política.

Cenaida Uribe, de jaqueta vermelha, entre as demais integrantes da Mesa de Mulheres Parlamentares. - Cortesia de Congresso de Peru
Keiko Fujimori, a terceira em intenção de votos, é filha do ex-presidente Alberto Fujimori (1990-2000), que conduziu a campanha desde a prisão, onde cumpre pena de 25 anos por crimes de lesa humanidade e corrupção.
Juliana Reymer, ex-vendedora ambulante e agora pequena empresária, converteu-se na candidata da minoritária organização de centro Força Nacional, quando seu primeiro indicado deixou o partido para apoiar o ex-presidente Alejandro Toledo, principal favorito, segundo as pesquisas.
“O processo eleitoral atual, presidencial e congressual, é vergonhoso. A soberba masculina opera inclusive sobre Keiko Fujimori, que depende de seu pai. Há ali uma dependência de gênero”, disse à IPS Rosa María Alfaro, diretora-executiva da organização não governamental Calandria, que promove a participação política das mulheres.
Rosa María também criticou as listas de candidatos ao Congresso, que por cinco anos acompanhará o próximo Poder Executivo e onde, por lei, as organizações devem incluir 30% de mulheres. Porém, para cumprir esta cota, os partidos preferem recrutar estrelas de outros ambientes do que formar e promover seus quadros femininos internos, em um país com o eleitorado atraído desde a década de 1990 pelas “zebras” e pelos mais efêmeros fenômenos eleitorais. A ex-vedete e ex-apresentadora de shows de televisão July Pinedo, chamada de “a bomba erótica dos anos 1990”, integra a lista legislativa do PAP, de centro-direita.
Alberto Fujimori elaborou pessoalmente a lista da Força 2011, a agrupação direitista que formalmente sua filha comanda, segundo a imprensa local. Nelas inclui Gina Pacheco, sua enfermeira pessoal e assídua visitante na cadeia, e Leyla Chihúan, capitã da seleção nacional de voleibol, esporte muito popular no Peru.
Alejandro Toledo lidera a lista de seu partido, Peru Possível, de centro-direita, com a histórica jogadora de vôlei Cecilia Tait e também recrutou a atriz de telenovelas Ebelin Ortiz. A direitista aliança Cambio Radical tem entre suas aspirantes ao Congresso a ex-vedete Daysi Ontaneda, protagonista assídua da chamada imprensa rosa.
As dirigentes e militantes se queixaram em um estudo sobre participação política feminina da “arbitrária decisão” dos líderes homens de impor “personalidades presentes nos meios de comunicação, sem experiência em política em detrimento de ativistas de organizações”, disse à IPS o secretário-geral da Associação Transparência, Percy Medina.
Na pesquisa entre mulheres líderes e ativistas de cinco organizações políticas, todas destacaram a desigualdade de condições com os homens para ter acesso a cargos de direção e para serem candidatas, destacou o dirigente da ONG. A seu ver, por trás disto “há uma cultura machista que dificulta que as mulheres tenham um papel mais determinante”, e explica a proliferação de artistas e atletas como candidatas, em lugar de políticas experientes.
“A percepção é de que existe um retrocesso na participação da mulher na política peruana”, embora nas candidaturas presidenciais ou legislativas tenha se normalizado a presença feminina, disse Percy.
Rosa María adiantou que nesta campanha não se repetirá o cenário de novembro, quando nas eleições regionais e municipais duas mulheres disputaram voto a voto a prefeitura de Lima: a ganhadora, Susana Villarán, de esquerda moderada, e a conservadora Lourdes Flores. Ambas já haviam sido candidatas presidenciais e já tinham reconhecida carreira política quando disputaram esse importantíssimo cargo. “Suas propostas foram bem desenvolvidas e geraram debates na mídia e entre a população. Foi uma campanha e uma disputa democrática lideradas por mulheres”, destacou Rosa María.
A especialista em comunicação e gênero considera que os candidatos presidenciais e Alberto Fujimori “usam as mulheres populares como ganchos eleitoreiros”, em um cenário onde os partidos políticos se mostram “sem ideologia e afundados em lutas pessoais”, e seus líderes homens só querem “ganhar o poder, não importa como”.
Exemplo disto é a decisão de Luis Catañeda, aspirante à Presidência pela populista Solidariedade Nacional e segundo nas pesquisas, que escolheu como sua vice Carmen Núñez, a ex-mulher de um empresário milionário e prefeito provincial que apoiou outro candidato presidencial.
Lisbeth Guillén, da ONG Manuela Ramos, ratificou que os partidos políticos peruanos “não são exatamente promotores da participação feminina”, embora as pesquisas de opinião relevem que o eleitorado quer mais mulheres na política e apoia a possibilidade de o Peru ter uma presidenta.
A dirigente feminista recordou que no Peru a cota eleitoral de gênero tem status constitucional e que, graças a ela, o atual parlamento conta com 35 mulheres, 29% das cadeiras. Um crescimento sustentado desde a legislatura 1995-2000, quando houve 14 mulheres, subindo para 26 no período 2000-2006.
Lisbeth disse que, em parte, a predileção dos partidos “por figuras que garantam votos” se deve à sua vontade de “superar o obstáculo eleitoral de 5%, porque, se não atingem esse percentual, perdem sua inscrição como organização política”.
Para a especialista, o eleitorado tem um instrumento para reverter essa estratégia: o uso do chamado voto preferencial nas listas legislativas dos partidos, que permite selecionar os candidatos e as candidatas modificando a ordem estabelecida pelas organizações.
Cenaida Uribe, presidente da Mesa de Mulheres Parlamentares, deu outra visão sobre a presença feminina no Congresso. Antiga jogadora da seleção nacional de vôlei, integra a bancada do partido nacionalista Ganha Peru, cujo líder, Ollanta Humala, é apontado como quarto colocado nas intenções de voto. “Todos merecem uma oportunidade para dar sua contribuição”, disse à IPS. Acrescentou que uma artista, por exemplo, promoverá projetos em favor da cultura e que ela, como atleta, conseguiu criar leis favoráveis ao esporte. “Não se deve subestimar quem chega ao Congresso sem experiência política”, ressaltou.
Para Cenaida, o período legislativo que termina em julho “foi excepcional” porque, no primeiro ano, houve uma presidenta do Congresso, em todas as comissões havia mulheres e no plenário “há representantes de mulheres indígenas, camponesas plantadoras de coca, da comunidade afroperuana e dos setores populares”.
Porém, a legisladora afroperuana disse que além destes elementos positivos, “no Congresso ainda existe um machismo que barra o acesso das mulheres às decisões democráticas”. Envolverde/IPS

