Ramala, Cisjordânia, 09/02/2011 – Apesar da proximidade entre o presidente palestino, Mahmoud Abbas, e seu colega egípcio, Hosni Mubarak, no momento parece improvável que ocorra um levante contra seu governo na Cisjordânia.
Contudo, apesar de Abbas e seu governante partido Fatah estarem bem conscientes de que seu domínio do poder é tênue, pode parecer que os palestinos ainda não estão prontos para se rebelarem como seus irmãos da região. As Forças Policiais Especiais da ANP, a polícia secreta e outro pessoal de segurança vestido como civis desbarataram várias tentativas dos palestinos em Ramala de expressar sua solidariedade com os manifestantes do Egito e da Tunísia, enquanto a televisão palestina ignora amplamente os confrontos reinantes na região.
Agentes secretos à paisana e policiais com cassetetes dispersaram à força pequenas manifestações improvisadas. Vários ativistas foram detidos, e inclusive arrastados. Uma manifestação a favor do presidente do Egito, Hosni Mubarak, da qual, presume-se, participaram homens da segurança vestidos como civis, aconteceu sem a interferência da polícia. Apesar de o governo Abbas ter terminado oficialmente em janeiro de 2009, a ANP vem desde então adiando as eleições. O porta-voz de suas forças de segurança, coronel Adann Dmeiri, disse que foram proibidos os protestos e advertiu que estes poderiam levar ao “mal-estar e à instabilidade”.
A ANP gasta cerca de um terço de seu orçamento em segurança e tem uma das maiores proporções mundiais de pessoal de segurança por civil. Muitos a acusam de administrar um Estado policial sem que exista oficialmente um Estado. “Antes, divulgamos um comunicado alertando que a ANP caminha para a mentalidade de um Estado policial”, disse à IPS Wissam Ahmed, da organização palestina de direitos humanos al Haq, com sede em Ramala.
Apesar das restrições, cerca de mil manifestantes desafiaram, no dia 5, em Ramala, a proibição e se reuniram no centro da cidade gritando palavras de ordem em apoio aos opositores egípcios e exigindo a renúncia de Mubarak. Funcionários da ANP, conscientes de que esta manifestação em particular – planejada com muita antecipação por uma coalizão de palestinos – atrairia uma grande presença de jornalistas estrangeiros, viram que seria impossível acabar com ela e decidiram jogar a carta da “democracia livre”, permitindo sua realização.
Desde o começo, o acontecimento esteve repleto de agentes de segurança secretos, armados com pistolas escondidas e aparelhos de rádio. Tudo fluiu até que um pequeno grupo de partidários do Fatah, supostos funcionários de segurança, começou a gritar contra Abbas, no que parece ter sido um esforço coordenado para alterar a situação. De fato, depois foram ouvidos gritando a favor de Abbas.
Após alguns confrontos verbais, várias mulheres da multidão foram atacadas e maltratadas por partidários do Fatah. Isto levou a enfrentamentos físicos. Várias pessoas foram presas pelo pessoal de segurança e, quando seus amigos tentaram segui-las até a delegacia, um policial à paisana disparou sua arma para cima. Quando a IPS perguntou a alguns dos policiais se estavam trabalhando para os serviços de inteligência, um deles se tornou verbalmente agressivo, tirando foto deste jornalista, enquanto outro tentava dar-lhe uma rasteira.
A IPS conversou com um grupo de jovens estudantes da Universidade Birzeit que, fora da delegacia, aguardava por notícias sobre um amigo preso. “Não queríamos nenhuma palavra de ordem partidária nem exibição de cartazes. Também pedimos às pessoas que não trouxessem bandeira de nenhuma facção. Deixamos claro desde o início que queríamos a unidade entre os palestinos e a solidariedade com nossos irmãos e irmãs do Egito e da Tunísia”, disse Omar Abu Ghosh, de 20 anos, que ficou detido pela polícia por várias horas “para sua própria proteção”.
“Porém, estes partidários de Abbas sempre instigam os problemas e tentam dividir a população. Esta é uma estratégia semelhante à usada no Cairo. Quando vimos que desenrolavam bandeiras do Fatah quisemos ir embora”, disse Omar à IPS. A tática de usar integrantes das forças de segurança para desbaratar as manifestações, que ocorreram cada vez com maior frequência nos último mês, após os levantes populares no Egito e na Tunísia e a divulgação das atas da ANP que deram lugar a acusações de que esta agiu em conivência com Israel.
Apesar dos vínculos próximos de Abbas com Mubarak e da sua falta de popularidade, agora parece improvável um levante nos territórios palestinos. A falta de unidade política, a ocupação israelense e o esgotamento são alguns dos fatores pelos quais as ruas palestinas ainda não estão maduras para uma revolução parecida com a egípcia.
“Vimos décadas de levantes políticos e duas revoltas, sem que nenhum tenha nos colocado mais perto da liberdade, e, de fato, nos tornaram mais fracos e mais pobres do que antes”, disse à IPS o comerciante Aziz Zabanah. Por sua vez, Hossam Al Gharbi, gerente de uma cafeteria, disse à IPS que “as pessoas querem sobreviver economicamente e alimentar seus filhos, e têm pouca fé nas respectivas lideranças”. Envolverde/IPS


