Jerusalém, Israel, 23/02/2011 – O trem rápido que será construído em Jerusalém promete descongestionar o trânsito, mas os benefícios que trará para esta antiga cidade podem se converter em obstáculo para a paz entre israelenses e palestinos. Os testes técnicos já começaram, pois está previsto que o trem comece a operar no verão boreal. Os ônibus que circulam pelo centro da cidade já são desviados para o mercado de Mahane Yehuda.
Os pedestres têm que ter muito cuidado. “Veja que desastre”, exclamou um comerciante contrariado. “Vou morrer e isto continuará sendo um pesadelo”, acrescentou. Para outros, a campanha que anuncia a passagem do trem é motivo de orgulho nacional. “É o primeiro trem rápido de Israel”, exclamou outro homem. “Queira Deus que Jerusalém se unifique”, acrescentou. O novo sistema de transporte público, que funcionará em bairros israelenses e palestinos, poderia contribuir para facilitar uma solução pacífica do conflito palestino-israelense.
Os responsáveis pela companhia CityPass, que ganhou a licitação, têm uma visão mais prosaica do assunto. “O serviço atenderá 120 mil passageiros por dia. O objetivo é criar um contexto normativo e operacional para promover iniciativas comerciais”, afirmou o responsável técnico, Alex Kroskin. “É tranquilo e limpo. Serão retirados de circulação 300 ônibus. Também é seguro”, insistiu. Haverá pessoal de segurança em cada estação e um circuito fechado de câmeras de 360 graus, acrescentou.
O caráter sagrado de Jerusalém faz com que os projetos urbanos passem para segundo plano, mas a infraestrutura, mais do que os locais religiosos, necessitam de toda a concentração das autoridades. A controvérsia foi criada em torno da Cidade Velha, no limite entre Jerusalém oriental, ocupada por Israel, e a parte ocidental.
O trem percorrerá 14 quilômetros ao longo de uma terra de ninguém que costumava dividir a cidade entre os setores judeu e árabe, antes que Israel ocupasse Jerusalém oriental após a guerra de 1967. A velha linha de cessar-fogo agora é uma grande via pública. Até o final da rota número um, o trem se dirige para leste rumo ao território ocupado para chegar ao assentamento judeu de Pisgat Ze’ev. “Pelo bem da cidade capital”, diz uma publicidade que anuncia o novo meio de transporte.
A denominação não é menor quando a soberania de Jerusalém oriental é um dos maiores obstáculos para selar a paz entre palestinos e israelenses. A linha chegará apenas até um bairro palestino. “É para os israelenses”, lamentou um palestino consultado na rua. “Ficamos fora, como sempre. Tomara que destinem à paz o que investiram no trem”, afirmou outro.
Das 23 estações da linha única, três servirão aos palestinos, apesar de estes serem um terço dos 750 mil habitantes. Com isso não serão resolvidas décadas de descuido. “O que é mais necessário são estradas adequadas, moradia e escolas”, disse um homem do bairro palestino de Shu’fat, que terá o serviço. Em Jerusalém e na Cisjordânia, o estado das estradas serve para identificar e delinear as áreas israelenses das palestinas, quem tem e quem não tem.
O trem é outra das facetas da política de anexação de Israel, disse Ziad Hamouri, diretor do Centro Jerusalém de Direitos Socioeconômicos. “Seu objetivo é ligar Jerusalém ocidental com os assentamentos judeus da parte oriental. O trem é ilegal, como os assentamentos”, acrescentou. Os judeus que vivem em Jerusalém oriental poderão chegar ao centro da cidade em 20 minutos. “O deslocamento será muito mais fácil, não só para muçulmanos, como para cristãos e judeus”, disse Nadav Meroz, da municipalidade israelense. Vivem mais de 180 mil judeus no leste da cidade. “Não unificará as duas nações, mas as duas cidades. Criará mais obstáculos com vistas a uma solução pacífica”, destacou Ziad.
O primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, declarou que não renunciará a nenhuma área de Jerusalém, e conta com apoio da maioria dos judeus. A Autoridade Nacional Palestina tratou de pressionar para que as duas multinacionais de origem francesa, o operador Veolia e a construtor Alstom, se retirassem do projeto. Também pediu urgência aos países árabes para que cancelassem seus contratos com as duas empresas.
A Veolia se retirou em novembro, pelo menos oficialmente. Na prática, entretanto, atendo-se à ética empresarial de que “negócios são negócios e trabalho realizado”, podem ser vistos empregados de manutenção com o uniforme característico da companhia. Israelenses e palestinos poderão manter a ilusão de uma cidade sem fronteiras. Mas seus sonhos raramente se cruzam, na maior parte das vezes apenas se chocam. Envolverde/IPS

