Nações Unidas, 21/02/2011 – Enquanto militares e policiais respondem com violência aos protestos no Bahrein, Iêmen, Líbia, Iraque e Irã, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, adota uma linha dura contra os líderes do Oriente Médio que reprimem os manifestantes. “Fico perturbado com todos esses meios violentos de tentar dispersar os manifestantes”, disse na semana passada aos jornalistas, em uma crítica implícita a pelo menos cinco Estados-membros da ONU onde houve ativistas assassinados e dezenas deles feridos, presos e golpeados.
Em resposta a uma pergunta sobre os ataques contra manifestantes pacíficos no Bahrein, Ban condenou a violência e exigiu a proteção dos direitos humanos, o que inclui a liberdade de expressão e de acesso à informação. O secretário-geral considerou os ataques contra jornalistas, entre eles o assédio que sofrem esses profissionais no Egito, como algo inaceitável. “Seu movimento e suas atividades deveriam estar plenamente garantidos”, afirmou.
No cargo de secretário-geral, Ban Ki-moon responde aos Estados-membros, e raramente os critica por seus fracassos políticos. Contudo, nos últimos tempos afastou-se dessa zona de exclusão política para investir também contra o presidente da Costa do Marfim, Laurent Gbagbo, por se negar a entregar o poder a quem foi eleito seu sucessor, Alassane Ouattara, após ter sido derrotado nas eleições de novembro.
Por outro lado, a alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Navi Pillay, foi igualmente direta: “Nos últimos tempos foram assassinados muitos manifestantes pacíficos no Oriente Médio e no Norte da África. Peço urgência às autoridades para que cessem imediatamente o uso de força desproporcional contra manifestantes pacíficos e liberem todos os que foram presos”.
A Anistia Internacional (AI), com sede em Londres, também condenou fortemente os assassinatos e a repressão política no Bahrein, Iêmen e Líbia. Os protestos não são apenas contra líderes opressores – Ali Abdullah Saleh, do Iêmen; rei Hamad bin Isa al-Khalifa, do Bahrein, e Muammar Gaddafi, da Líbia –, mas também contra a falta de um estado de direito, as detenções de dissidentes políticos, a eliminação da liberdade de imprensa, eleições fraudulentas, governos dinásticos, nepotismo generalizado e corrupção de alto nível.
O diretor da AI para o Oriente Médio e Norte da África, Malcolm Smart, acusou o governo do Bahrein de usar “força mortal” contra uma manifestação legítima. Pelo menos três manifestantes, e possivelmente mais seis, podem ter morrido até agora, na medida em que a contagem de cadáveres continua aumentando. As autoridades do Bahrein devem efetuar uma investigação imparcial sobre as matanças de “manifestantes pacíficos, incluídas famílias com filhos”, afirmou. Malcolm questionou que o uso da força mortal estivesse justificado e disse que os que deram as ordens “devem ser levados à justiça”.
Philip Luther, subdiretor do programa da AI para o Oriente Médio e o Norte da África, disse que os habitantes do Iêmen têm o direito legítimo à liberdade de expressão, e que “os ataques contra eles e contra os jornalistas que cobrem seus protestos são totalmente inaceitáveis”. Segundo a Anistia, cinegrafistas da Associated Press, Al-Jazeera e Al-Arabiya foram atingidos por atacantes que quebraram seus equipamentos. Pelo menos quatro homens foram assassinados e dezenas feridos em seis dias de protesto no Iêmen. Segundo a organização, há informes não confirmados de que ao menos 12 pessoas – possivelmente mais – foram mortas nos últimos dois dias.
Em um comunicado divulgado no dia 16, Ban Ki-moon disse que em todo o Norte da África e no Oriente Médio a população está se levantando para manifestar suas aspirações legítimas. A sociedade civil e os jovens lideram o caminho, destacou. “Cada país é único. Cada situação é diferente. Porém, também há desafios comuns na região e princípios importantes a defender”, disse Ban. Em todo este período, a ONU foi clara e consistente em seu apoio aos direitos humanos e às liberdades básicas, enfatizou.
Ban disse também que, no caso do Egito, onde Hosni Mubarak foi derrubado no dia 11 após 18 dias de revolta popular, a ONU está pronta para dar assistência eleitoral este ano, quando o país estiver pronto para realizar eleições parlamentares e presidenciais. O secretário-geral afirmou que a ONU vem pedindo urgência aos líderes da região e de outras partes para que ouçam com atenção o povo e atendam suas legítimas aspirações. “A situação exige reformas audazes, não repressão. O progresso sustentável pode lançar raízes em lugares onde se dá poder à população, onde os governos são receptivos, onde o crescimento é inclusivo”, declarou Ban Ki-moon. Envolverde/IPS

