Cairo, Egito, 04/02/2011 – Os organizadores das manifestações no Egito convocaram uma greve geral para ontem.

Saqueadores atacaram shoppings, supermercados, bancos e joalherias em toda a capital egípcia. - Monasosh/creative commons license
O vazio de segurança criou um novo senso de urgência para o movimento popular que deseja derrubar Mubarak, que governa o país desde 1981. Entre informes de saques, incêndios provocados, vandalismo e fugas das prisões, muitos cidadãos priorizaram a segurança de suas famílias e voltaram para suas casas, esperando uma rápida solução para a crise. “Só queremos que isto acabe rapidamente”, disse George.
Unidades do Exército leais a Mubarak ocuparam postos-chaves em pontes, praças e edifícios estratégicos. Mas as tropas, espalhadas, não enfrentaram os manifestantes. Ao que parece, o Exército vacila em assumir o papel de repressor. Nas noites anteriores, saqueadores atacaram centros comerciais, supermercados, bancos e joalherias em toda a capital. O centro comercial de Arkadia, um complexo de seis andares, foi completamente incendiado. O hipermercado Carrefour e o grande armazém Omar Effendi foram saqueados, bem como um centro oncológico para crianças.
“Fico furioso. Enquanto lutamos contra a polícia para depor Mubarak estão roubando as lojas”, disse um ativista. Vândalos também entraram no museu de antiguidades no centro do Cairo e roubaram tesouros culturais. O Exército garantiu em seguida o prédio, mas já o encontrou destruído. Um porta-voz do Exército anunciou na televisão estatal que os soldados prenderiam qualquer suspeito, esclarecendo que só tinham recursos para proteger objetivos comerciais importantes, e exortou os cidadãos a se armarem e se organizarem em grupos para defender suas casas.
“A polícia fugiu, por isso devemos mobilizar todos os homens e conseguir qualquer pedaço de pau ou arma para proteger as ruas”, disse um reservista. Grupos parapoliciais, armados com barras de ferro, facões e revolveres, bloquearam ruas e montaram guarda toda a noite. A televisão estatal transmite continuamente imagens de supostos saqueadores detidos pelo Exército. As câmeras mostram especialmente as armas caseiras portadas por muitos dos jovens presos. “Como podemos saber que não são rapazes que protegiam seus bairros?”, perguntou um telespectador que telefonou para a emissora.
As imagens têm o objetivo de garantir ao público que o Exército está restaurando a ordem. Mas, não serviram para consolar uma senhora do distrito operário de Abdassiyk, que também telefonou à emissora para informar que delinqüuntes estavam na porta de sua casa. “Já roubaram bancos que ficam embaixo do meu prédio, e agora estão vindo para cá”, disse, antes de ter a ligação cortada. A deterioração da segurança mostra um enfraquecimento do poder de Mubarak, mas também poderia ser parte de uma estratégia desse ditador de 83 anos.
Analistas acreditam que Mubarak, diante dessa situação ruim, ordenou às forças policiais que abandonassem as principais cidades para minar o impulso das manifestações. Sem resistência policial, os eufóricos manifestantes foram se dispersando no final de semana e, em meio à anarquia, a segurança de suas famílias passou a ser a principal preocupação.
“O vazio de segurança serve aos interesses de Mubarak, já que as pessoas querem ver um final rápido da situação e deseja a restauração da lei e da ordem”, disse o analista político Moustafa Kamel El-Sayed, da Universidade do Cairo. A anarquia poderia dar um tempo para Mubarak consolidar seu poder político. Mas, Moustafa considera que o fim do regime de Mubarak, agora ou nas eleições de setembro, é inevitável. “Mesmo se os manifestantes voltassem para casa, o levante popular continuará”, disse. Envolverde/IPS

