Joanesburgo, 14/03/2011 – Uma tentativa de organizar um protesto em massa contra o governo esta semana na capital angolana, Luanda, foi um malogro, mas não há dúvida que se acendeu um rastilho no povo que, durante muitos anos, não se atrevia a desafiar as autoridades. Só compareceram treze pessoas nas primeiras horas de 7 de Março para participar naquilo a que os organizadores pela internet apelidaram de “Revolução do Povo Angolano”, e foram imediatamente detidos, juntamente com um grupo de jornalistas que os acompanhava.
Mas o facto de de terem aparecido é um indício, segundo muitos, de uma viragem de sentimentos num país governado há quase 32 anos pelo Presidente José Eduardo dos Santos, o dirigente no continente africano há mais tempo no poder, depois de Muammad Gaddadi da Líbia e de Teodoro Obiang da Guiné Equitorial.
Nos dias anteriores ao protesto, a acção planeada foi o principal tópico de conversa em tods as camadas da sociedade, desde os últimos andares dos arranha-céus até aos bairros de lata feitos de lama na periferia das cidades.
Descontentamento nas ruas
Rafael Marques, jornalista angolano e analista político, disse que, embora tão poucas pessoas tenham participado na manifestação, devido a receios de represálias, apoiavam as reinvidicações dos organizadores.
“As pessoas em Angola não estão satisfeitas e o Presidente José Eduardo dos Santos está a tornar-se extremamente impopular. Diria mesmo que a única garantia existente daqui em diante é a instabilidade,” acrescentou. Há um crescente descontentamento entre os cidadãos comuns angolanos que não conseguem ver os benefícios do crescimento económico do país, explicou Marques. Apesar do crescimento da última década (11 por cento) ter ultrapassado o crescimento da China (10.5 por cento), dois terços dos Angolanos continuam na pobreza e metade da população não tem acesso a água ou electricidade, segundo números governamentais publicados no ano passado. Marques acrescentou que as pessoas estavam furiosas com as notícias de corrupção e enriquecimento pessoal do Presidente e do seu núcleo interno.
Fernando Macedo, especialista sobre direito constitucional que fala sem rodeios, afirmou que existem muitos paralelos entre Angola e o Egipto, a Tunísia e a Líbia. “Desde a forma como a comunicação social é manipulada até ao domínio da polícia e do sistema judicial, supostamente independentes, pelo partido no poder, existem muitas semelhanças,” declarou. Acrescentou ainda que as detenções também violavam a Constituição, recentemente ratificada, que consagra o direito a manifestações pacíficas. Autenticidade dos e-mails. Marques afirmou que o episódio de 7 de Março foi um momento decisivo porque revelou as fraquezas da oposição e do governo.
“Expôs o facto de a oposição estar extremamente desorganizada e mostrar falta de capacidade intelectual para tirar partido da situação,” disse. Marques também acredita que a forma como o MPLA reagiu à ameaça de manifestações não ajudou a sua imagem. Nos dias anteriores à manifestação, funcionários do partido usaram os jornais e as estações de televisão e de rádio controladas pelo estado para exortarem repetidamente as pessoas a não participarem na manifestação. O Secretário Principal do MPLA em Luanda, Bento Bembe, lançou o primeiro ataque ao dizer: “Quem quiser participar na manifestação será neutralizado porque Angola tem leis e instituições e o bom cidadão compreende as leis, respeita o país e é um patriota.”
A estas afirmações seguiram-se acusações que os organisadores do protesto queriam reatar a guerra e que estavam a ser “apoiados” por “agentes externos” provenientes de Portugal e do Reino Unido que queriam intrometer-se nos assuntos internos do país.
Mobilização no mato Começaram a circular boatos que exércitos secretos estariam a ser mobilizados no “mato”, prontos para atacar as cidades, trazendo de volta pesadas memórias da guerra civil de 27 anos e causando pânico no país. Um pequeno grupo de partidos da oposição conhecido como POC (Coligação de Partidos de Oposição) tentou organizar uma vigília própria no Domingo, 6 de Março. O Governo Provincial de Luanda (GPL) recusou autorizá-la com base em razões técnicas. Com receio de uma reacção violenta, o grupo decidiu obedecer a esta decisão. O líder da POC, Manuel Fernandes, disse: “A situação é muito delicada e muitos de nós recebemos ameaças de morte. Não queremos um banho de sangue e por isso decidimos ficar em casa para uma reflexão pessoal sobre o que vamos fazer a seguir.” O GPL, porém, não teve nenhum problema em permitir que o MPLA organizasse um comício, que o partido apelidou de “Marcha em Prol da Paz e da Estabilidade”. Os órgãos de comunicação estatais alegaram que mais de quatro milhões de pessoas participaram naquele comício, embora o número real se encontrasse mais perto das 40.000 pessoas, muitas dos quais se pensa tenham sido obrigadas a entrar em autocarros e a participar no comício. O Vice-Presidente do MPLA, Roberto de Almeida, iniciou uma série de animados discursos, lembrando às pessoas as conquistas alcançadas com a paz e criticando os dissidentes que as queriam contestar e levar o país de regresso à guerra civil. “A forma como o MPLA reagiu foi vergonhosa,” disse Marques. “Tentaram tirar partido da situação criando confusão e receio, o que enfureceu as pessoas.” Macedo concorda. “Toda esta conversa sobre a guerra é rídicula. Onde está essa guerra? Não há nenhum exército secreto, e a guerra está na cabeça do MPLA. Como é que podem exagerar tanto ou mencionar o acordo de paz e depois ameaçar as pessoas?” As tácticas do governo já suscitaram críticas do Human Rights Watch (HRW), grupo de pressão sediado em Nova Iorque. Segundo o director do HRW para África, Daniel Bekele: “O partido no poder em Angola não deve amedrontar as pessoas com nova onda de violência para as impedir de exprimirem livremente a sua opinião. Essa falta de respeito pelas liberdades políticas fundamentais não é um bom presságio para as próximas eleições gerais em Angola em 2012.
Não é claro o que vai acontecer a seguir Em Abril o MPLA realizará o seu congresso extraordinário, onde provavelmente haverá um debate sobre como restaurar a calma depois dos recentes acontecimentos. Os analistas de risco dizem não prever qualquer perturbação considerável num futuro próximo, o que constituirá algum conforto para os inúmeros investidores estrangeiros envolvidos na indústria petrolífera em expansão e também nos sectores dos diamantes e da construção, mas os ventos da mudança começaram a soprar. Marques afirmou acreditar que qualquer mudança, contudo, não viria da oposição ou de um levantamento popualr, mas com o colapso do MPLA que, segundo ele, está cheio de insegurança, como demonstrou a sua reacção esta semana.

