Gaza, Palestina, 01/03/2011 – Um olhar sobre os levantes que levaram à queda dos regimes da Tunísia e do Egito confirma uma verdade universal: são os jovens que estão liderando o caminho para uma reforma política no Oriente Médio. Sob o lema “Coloquemos fim à divisão. Um só povo para o sionismo”, organizações juvenis palestinas preparam uma manifestação para o dia 15 deste mês, em Gaza. Mais da metade dos 1,8 milhão de habitantes da Faixa de Gaza tem menos de 18 anos.
Como ocorreu com tunisianos e egípcios, um governo autocrático e comumente repressor – que não realiza eleições livres desde 2006 – inibiu os palestinos de Gaza de participarem plenamente da tarefa de forjar seu futuro. Ao contrário dos jovens de outras partes, os de Gaza sofrem um obstáculo adicional: o bloqueio que há mais de quatro anos Israel impõe, com a cooperação do Egito.
“Mesmo antes dos acontecimentos que dividiram nosso governo e colocaram o Hamas (Movimento de Resistência Islâmica) e o Fatah um contra o outro, os jovens não estavam organizados. Não conseguiam muito apoio, nem do exterior nem de dentro. As facções políticas só tinham interesse em usá-los como empregados ou combatentes”, escreveu o colunista político Talal Okal, por meio de um intérprete.
Após a cisão de 2006, a situação piorou. Grupos de jovens que antes contavam com autorização do governo liderado pelo Fatah na Faixa de Gaza foram dissolvidos pelo novo governo do Hamas, e a comunicação com a Cisjordânia foi interrompida de fato quando Israel impôs seu bloqueio. Entretanto, devido à invasão de 27 de dezembro de 2008 a 18 de janeiro de 2009 que os israelenses realizaram contra Gaza, surgiram novas organizações juvenis, enquanto o Hamas fechava a mais antiga, o Fórum Juvenil Sharek.
Agora que uma “febre revolucionária” se apodera da região, os jovens de Gaza sentem uma nova energia. Uma tentativa de realizar um “Dia da Dignidade” no dia 11 de fevereiro, convocado por uma organização anônima pró-Fatah para protestar contra as restrições impostas pelos Hamas, foi dissolvida antes mesmo de começar. Os supostos organizadores foram interrogados e a polícia foi às ruas.
Porém, uma coalizão mais ampla de jovens se forma agora em torno dos planos de realizar uma manifestação no dia 15, para cobrar do Hamas e do Fatah que acabem com a campanha de propaganda entre si, incluam todas as facções palestinas em uma reestruturada Organização para a Libertação da Palestina (OLP), obriguem seus representantes nos dois governos (Cisjordânia e em Gaza) a renunciar aos seus postos, e convoquem novas eleições para acordar o trabalho conjunto.
“Abu Yazan”, nome adotado por um estudante de 24 anos que é um dos organizadores e líderes do GYBO (Grupo Youth Break Out), esteve em contato com líderes juvenis palestinos na Cisjordânia, no Líbano e inclusive na França, onde se planeja realizar protestos semelhantes. “Não iremos embora até sermos atendidos”, disse, acrescentando que ele e outros organizadores estão se comunicando com líderes das manifestações egípcias para que os aconselhem. “Aqui as pessoas estão muito deprimidas por causa dos movimentos políticos. Queremos um só governo, um sistema de segurança”, afirmou.
No entanto, nem todos os jovens de Gaza gostam da ideia de protestar contra os próprios governos palestinos, alegando que o inimigo real é Israel. “O melhor que podemos fazer agora é nos concentrarmos em nosso maior problema: o sítio. Temos problemas internos, mas precisamos continuar focados em nossa ameaça mais prolongada”, disse Mohammad Herzallah, de 21 anos, coordenador da Soora, uma das principais organizações juvenis da Faixa.
Ele, como muitos outros, acredita que a divisão dentro da comunidade palestina é incentivada por Israel e que, dessa forma, para que realmente se consiga e se mantenha a unidade, é necessário o fim da ocupação. Porém, Abu e outros líderes jovens insistem que é imprescindível a unidade para resistir à ocupação, e que uma reforma política vai melhorar sensivelmente a qualidade de vida nesse ínterim.
As organizações de jovens de Gaza são praticamente unânimes em seu apoio às convocação de eleições pela Autoridade Nacional Palestina (ANP), embora, como destacou Abu, isso seja impossível até que as duas partes cheguem a algum tipo de acordo de unidade. O Hamas se manifestou firmemente contra o plano do Fatah de realizar eleições em dezembro, e sem sua participação elas seriam uma farsa.
Ali Abdul Bari, de 24 anos, é líder da Esha, uma organização liberal e secular de defesa dos direitos humanos. A entidade colocou um cartaz pedindo eleições perto do destruído prédio do parlamento palestino, no centro da cidade de Gaza. Noventa minutos depois o Hamas o retirou, apesar da permissão que havia dado para sua colocação. Depois, muitos integrantes da organização foram interrogados e submetidos a registro de antecedentes.
“Aprendemos a lição do que aconteceu com o Hamas e o Fatah”, disse Safwan Thabet, de 22 anos, membro da organização juvenil Genesis. “Se nos derem a oportunidade, estaremos unidos. Somos todos palestinos. Se houver um conflito em torno das eleições, não pode haver nenhuma matança. Apenas jogaremos flores”, garantiu. Envolverde/IPS

