Pequim, China, 21/03/2011 – Apesar das profundas tensões históricas entre as duas potências asiáticas, os chineses estão mostrando compaixão em relação às vítimas do terremoto e do tsunami que assolaram o Japão, onde foram registrados cerca de 5.500 mortos e mais de dez mil desaparecidos. Até agora, esta empatia vem sufocando outras emoções, entre elas uma mais obscura, que vê as duas catástrofes como uma espécie de carma pelas muitas atrocidades que o Japão infligiu à China em tempos de guerra.
“Por motivos históricos, tenho uma impressão ruim dos japoneses”, disse à IPS a professora chinesa Zhang Wei, de 28 anos. “Assim, ao saber da notícia me senti feliz. Pensei que mereciam. Mas, quando vi as imagens na televisão, vi crianças, vi que havia muitos mortos, muitos desaparecidos, e fiquei incomodada, muito triste. Não tinha ideia de que era tão sério”, acrescentou.
A discussão sobre o terremoto e suas consequências foi um dos assuntos mais recorrentes no serviço chinês de microblogs Sina Weibo, e é um dos “temas do momento” no Baidu, o principal site de busca do país. Segundo uma pesquisa feita na Internet pelo Sina Weibo e pela rede social chinesa Kaixin001, 68% dos consultados disseram estar “rezando” pelas vítimas japonesas, e 17% disseram não ter nenhum sentimento em particular com relação aos desastres.
Segundo o jornal estatal Global Times, dezenas de milhares de chineses deixaram mensagens nos populares portais de notícias 163.com e sina.com, expressando sua preocupação com as vítimas. Muitos usuários exortaram seus compatriotas a deixar de lado as diferenças com o Japão e orar pelas vítimas. “Os japoneses não fizeram nada de mal. São diferentes dos soldados japoneses. Pode odiar os soldados, mas não há motivo para odiar os japoneses comuns”, disse um usuário em um fórum do site NetEase.
Outro usuário, que se identificou como Zhangzxin8511, assegurou que “se estivesse lutando contra soldados japoneses, pegaria uma metralhadora e estaria na linha de frente. Agora, depois do terremoto, serei o primeiro a carregar uma maca se precisarem de ajuda. Rezemos pelo Japão”. Alguns lançaram esforços para rastrear os desaparecidos a partir das redes sociais. No final da semana após os desastres, o serviço de microblogs Weibo, semelhante ao Twitter, criou uma plataforma para ajudar os usuários a buscarem familiares e amigos no Japão. Porém, nem todos têm o mesmo sentimento.
“Nunca esquecerei a guerra japonesa contra a China. Mataram muita gente. Eles merecem”, disse à IPS sobre o terremoto o estudante Wei Peng, de 23 anos, da Universidade de Estudos Estrangeiros de Pequim. Esta opinião reflete as profundas tensões que persistem entre os dois vizinhos e cujas raízes estão na invasão e ocupação japonesa da China, entre 1931 e 1945. As atrocidades cometidas pelo Japão contra a China comumente aparecem nos filmes e nos programas de televisão chineses.
Em setembro do ano passado, os dois países travaram uma disputa territorial em torno das ilhas Diaoyu, quando o Japão deteve o capitão de uma embarcação chinesa dedicada à pesca de arrasto depois que esta colidiu com barcos da guarda costeira japonesa perto das ilhas, levando Pequim a cancelar as reuniões diplomáticas até sua libertação.
As reações negativas diante do terremoto no Japão dispararam uma violenta resposta entre os próprios cibernautas chineses, que questionaram o aberto nacionalismo de alguns. “Quantos japoneses escreveram ‘parabéns pelo terremoto de Wenchuan’?”, perguntou um usuário no Weibo, referindo-se ao mortal terremoto de 2008 na província de Sichuan.
O governo chinês deixou de lado as tensões e enviou uma equipe de resgate de 15 membros à cidade japonesa de Oofunato, muito devastada pelo terremoto. Vários de seus integrantes participaram de missões de socorro após o tsunami de 26 de dezembro de 2004 na Indonésia e dos posteriores terremotos de Sichuan, Haiti e Paquistão.
A Escola de Jornalismo e Comunicações da Universidade de Jinan, na cidade de Guangzhou, fez uma pesquisa ao acaso com 505 moradores do lugar e concluiu que 90% apoiavam a decisão de enviar uma equipe chinesa de emergência ao Japão e que 80% pensavam que a China deveria dar mais assistência, informou o Guangdong Daily.
A Sociedade da Cruz Vermelha da China se comprometeu a doar US$ 152 mil em fundos de emergência à Cruz Vermelha do Japão. No começo da semana passada, o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, apresentou suas “profundas condolências” ao povo japonês. “A China também é um país propenso a terremotos, e sentimos plena solidariedade com eles. Ajudaremos na medida em que o Japão necessitar e queremos continuar ajudando no que for necessário”, disse Wen.
O governo também tenta calar os crescentes temores de radiação nuclear que chegam do Japão, após várias explosões e incêndios na central nuclear de Daiichi, em Fukushima. Na China circulam mensagens de texto anônimas alertando sobre a radiação. A pesquisa Sina Weibo/Kaixin001 revelou que 82% de todos os entrevistados estavam preocupados com a radioatividade.
Zhang disse que o tema dominante de debate em sua escola é a possibilidade de a radiação chegar até ali. “O governo diz que estamos seguros, então comecei a me acalmar um pouco. Mas vi filmes norte-americanos sobre o que acontece com as vítimas da radiação. Então, naturalmente, ainda estou um pouco preocupada”, acrescentou a professora.
As autoridades de municípios costeiros da China começaram a controlar os níveis de radiação, e funcionários da aviação nas cidades de Shenyang e Dalian começaram a checar o grau de exposição dos passageiros que chegam por via aérea do Japão, segundo a imprensa estatal. A China possui seis centrais nucleares atualmente em operação, mas suspendeu a aprovação de qualquer nova usina atômica e disse que vai revisar seus padrões de segurança. Envolverde/IPS

