As bases exigem seu lugar

Nova York, Estados Unidos, 04/03/2011 – As vozes de muitas mulheres comuns impregnaram as paredes de uma pequena capela diante da sede da Organização das Nações Unidas (ONU) com suas dolorosas e sacrificadas histórias de vida, e reclamaram um lugar em cargos de decisão. Procedentes de mais de 27 países, diretoras de cooperativas alimentares, educadoras e ativistas se juntaram, no dia 2, paralelamente às reuniões plenárias da 55ª sessão da Comissão sobre o Status da Mulher (CSW), para discutir sobre moradia, ecossustentabilidade e segurança urbana.

Mulheres visionárias expressaram de maneira forte e clara sua mensagem: “Somos agentes de mudança, não beneficiárias de assistência”. A Comissão Huairou organizou o encontro chamado “Grassroots Speakout on UN Women” (Pronunciamento das Bases sobre a ONU Mulheres), que reuniu 50 ativistas que compartilharam relatos, sugestões e críticas à nova agência das Nações Unidas para igualdade de gênero. A coalizão internacional trabalha em nível de base promovendo o poder político feminino e coletivo no âmbito global.

“Durante muito tempo as mulheres comuns ficaram fora da agenda, do planejamento e das consultas dentro da arquitetura de gênero da ONU”, diz uma declaração da Huairou na CSW. “A isso se somou o fato de serem consideradas objetivo ou beneficiárias de projetos ou incluídas em paineis para fazer ato de presença”, acrescenta. É hora de aproveitar a existência da ONU Mulheres para integrar as verdadeiras ativistas, as vítimas de abusos e as trabalhadoras.

Rose Mapendo, sobrevivente de um “acampamento da morte” na República Democrática do Congo e fundadora da rede de apoio Mapendo New Horizons, não conseguiu conter as lágrimas ao relatar sua vida marcada pela perda de entes queridos, sobrevivência e luta. Após presenciar a morte do marido, foi arrastada para um “acampamento da morte”, apoiado pelo governo, junto com seus dez filhos e filhas, onde matavam de fome e batiam sistematicamente em mulheres, meninas e meninos. Nesse ambiente deu à luz a gêmeos e teve ela mesma que amarrar o cordão umbilical com seu cabelo. A experiência, o terror da guerra e as atrocidades a converteram em uma aguerrida lutadora pelos direitos femininos.

“Somos iguais”, disse Rose à IPS. “Os homens não podem sobreviver sem nós, todos nasceram de uma mulher, precisam da gente”, afirmou. “Como sobrevivente, sei como dar valor às mulheres, sei o que temos em comum. Somos mães, somos iguais. Envergonhar uma é envergonhar todas, é minha própria vergonha e a sua e também da agência da ONU”, prosseguiu. “É necessária a participação de todas as vítimas, das que sofrem, das que realmente compreendem, desde as entranhas, que temos de lutar juntas e amarmos umas às outras. São elas que devem ser ouvidas”, ressaltou.

Uma por uma, com audácia e confiança, mulheres que até agora não haviam saído de seus países falaram ao microfone e concordaram com Rose. Todas são líderes em suas comunidades, agricultoras do Peru que trabalham para garantir a segurança alimentar no longo prazo, moradoras de assentamentos na capital de Papua Nova Guiné concentradas em fazer com que as áreas de mais gente amontoada sejam mais seguras para as mulheres, trabalhadoras de cooperativas das Filipinas que oferecem créditos a empresárias, e camponesas da Nigéria que se esforçam para criar aldeias com economias ecológicas.

As participantes representavam um conglomerado de mil ou mais organizações menores, e lamentaram sua exclusão das consultas de alto nível, dos órgãos de decisão e das estruturas de direção da ONU. Todas pediram à ONU Mulheres que mude sua estrutura, que ponha fim à exclusão e integre organizadoras locais, se pretende conseguir uma mudança real e duradoura.

Centenas de mulheres comuns e profissionais participaram, no dia 26 de fevereiro, do encontro “Celebrando a ONU Mulheres: Para a Frente”. A organização esteve a cargo da Women’s Learning Partnership (Associação de Mulheres para Aprender), dedicada a capacitar e apoiar as potenciais líderes em países de maioria muçulmana. O encontro reuniu oradoras que falaram sobre o rumo de ação adequado para a nascente ONU Mulheres, que já está gerando mal-estar por sua incapacidade de enfrentar os enormes desafios que tem pela frente.

“O fracasso de planos e ideias de agências anteriores da ONU foi tremendo. Porém, decidimos nada mudar e continuar igual aos últimos 65 anos”, lamentou Mallika Dutt, presidente e diretora-geral da Breakthrough. Em lugar de concentrar mais mulheres na “mesa quebrada”, a ONU Mulheres deve mudar de forma radical o desenho da mesa, como fazem há anos as ativistas de base. “Não basta agregar mulheres a uma série de políticas e entidades falidas. A agência da ONU deve ser uma voz política para as bases”, acrescentou.

Durante muito tempo as Nações Unidas permitiram que fundamentalistas religiosos usurpassem as conversações sobre igualdade de gênero, defendendo as prioridades das mulheres dentro do fórum patriarcal, disse Francis Kissling, pesquisadora convidada do centro de bioética da norte-americana Universidade da Pennsylvania. “O status da Santa Sé dentro da ONU melhorou muito nos últimos 20 anos. As agências a temem. Lançou campanhas contra o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e o UNFPA (Fundo de População das Nações Unidas), que reforçaram sua cautela natural”, disse Francis, ex-presidente da organização Católicos pela Liberdade de Escolha.

“A própria existência do Conselho de Segurança é antiética a respeito de um modelo feminista de resolução de conflitos. Assume que os mais poderosos são os que resolvem os problemas dos mais fracos e sem sua participação”, insistiu Francis. “A fórmula do veto impossibilita a negociação entre pares. Em um modelo feminista, as partes enfrentadas ocupariam os lugares mais privilegiados da mesa. Suas experiências e necessidades seriam prioritárias”, explicou Francis.

“Necessitamos que vítimas e testemunhas estejam presentes nas altas esferas da ONU Mulheres”, disse Rose à IPS. “Só quando ouvirmos suas histórias poderemos verdadeiramente, de nossos corações, lutar para acabar com as atrocidades. Não podemos mudar o passado, mas podemos trabalhar juntas, em nível de base, para mudar o futuro”, concluiu. Envolverde/IPS

Kanya D'Almeida

Kanya D'Almeida is a Sri Lankan journalist, currently based in Washington D.C. Kanya joined IPS as a United Nations correspondent in October 2010, where she covered the Millennium Development Goals with a strong focus on gender and ecological justice in Asia, Africa and the Middle East and the problems of neocolonial development in the global South. As IPS's Washington, D.C. correspondent, she monitors the global impacts of the Bretton Woods institutions, United States economic and foreign policy in the global South, the actions of transnational corporations and both national and international ecological crises. Kanya earned her B.A. from Hampshire College in Amherst, Massachusetts, where she completed a double major in political science and fiction writing, and produced a book of essays and short stories on women and war in Sri Lanka. She is currently a member of Scientific Soul Sessions, in Harlem, New York.

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