Paris, França, 23/03/2011 – Interesses nacionais e eleitorais, bem como fins políticos e militares convergentes influem na missão militar liderada por Europa e Estados Unidos para impor a exclusão aérea à Líbia, ordenada pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. Os sinais destes interesses apareceram tão logo as forças de Grã-Bretanha, França e Estados Unidos começaram a bombardear, no dia 19, objetivos militares e de infraestrutura da Líbia.
A operação foi projetada com o declarado fim de frear a ofensiva do regime de Muammar Gadafi contra civis rebeldes que começaram, no mês passado, a reclamar o fim de seu governo e que, graças a uma importante deserção de militares, tomaram o controle de algumas cidades e de uma parte do armamento do Exército.
Enquanto a Turquia expressava sua indignação por não ter sido convidada para a cúpula de governantes e chanceleres realizada no dia 19 em Paris, o secretário-geral da Liga de Estados Árabes, o egípcio Amr Moussa, vacilava entre criticar o alcance da operação militar e depois se retratar.
“O que ocorre na Líbia difere da imposição da zona de exclusão aérea”, disse Amr no domingo. Tanto a Liga Árabe como a União Africana concordaram com a resolução 1973 adotada no dia 17 pelo Conselho de Segurança da ONU. Amr pode ser candidato nas próximas eleições presidenciais no Egito. Por essa razão, alguns consideraram suas declarações sobre o suposto ataque aliado à população civil na Líbia como mensagem dirigida ao seu eleitorado.
A Turquia, país muçulmano como a Líbia, também é membro do Tratado da Organização do Atlântico Norte (Otan) e se considera uma ponte entre essa aliança militar ocidental e o mundo islâmico. Assim, expressou seus reparos ao envolvimento da Otan na missão para aplicar a resolução das Nações Unidas. Por não haver uma condução clara da chamada Odisseia ao Amanhecer, a Noruega informou que suspendia sua participação na missão.
Além dessas suscetibilidades, a postura francesa de não descartar a derrubada do regime líbio de Gadafi, apesar do mandato específico e restrito da resolução 1973, só agravou a confusão. E pior, os contínuos ataques franceses, britânicos e norte-americanos contra objetivos militares e governamentais líbios nos dias 20 e 21, apesar de suas próprias declarações indicando que a zona de exclusão já estava imposta, despertaram dúvidas sobre os verdadeiros propósitos desta coalizão.
No dia 21 à tarde, a pergunta era se a operação militar não acabaria criando uma situação sem saída, com o regime de Gadafi privado de empregar sua força aérea, mas com poder suficiente para resistir à rebelião armada que começou em 15 de fevereiro. Segundo fontes francesas e norte-americanas, os ataques destruíram aviões líbios, artilharia antiaérea e outros equipamentos militares. Também mataram muitos soldados líbios, especialmente nas proximidades da cidade de Bengasi, a segunda maior do país e reduto dos rebeldes.
Gadafi respondeu, em discurso transmitido pela televisão nacional, ameaçando com uma guerra que converteria todo o Mar Mediterrâneo em campo de batalha. O coronel acusou França, Estados Unidos e Grã-Bretanha de bombardearem a Líbia para controlar seu petróleo. “Não deixaremos nosso óleo para Estados Unidos, França ou Grã-Bretanha, nem para os Estados cristãos inimigos que se alinharam contra nós. Não deixaremos nossa terra. Vamos lutar por cada centímetro e libertar cada centímetro”, acrescentou.
Gadafi, que governa desde 1969, também afirmou que estava distribuindo armas “ao povo líbio” para defender o país do ataque aliado. “Agora foram abertos os depósitos de armas e todo o povo líbio está sendo armado”, disse. Ao mesmo tempo, o regime anunciou que ordenara um cessar-fogo imediato, supostamente iniciado às 21 horas locais do dia 20, em resposta ao chamado da União Africana para deter todas as ações militares na Líbia.
O governo russo também condenou o ataque ocidental, que qualificou de “indiscriminado uso da força”. Contudo, Rússia e China, membros com direito a veto no Conselho de Segurança, se abstiveram na sessão que aprovou a resolução 1973. Apesar dos reclamos africanos, árabes e russos, nos dias 20 e 21 continuaram as ações contra prédios governamentais na capital da Líbia, Trípoli, sobretudo as principais sedes do governo e a suposta residência de Gadafi.
Em resposta às queixas da Liga Árabe, o governo francês disse que sua intervenção militar na Líbia limita-se a “excutar a resolução do Conselho de Segurança”. No entanto, essa afirmação chocou-se com a declaração do ministro das Relações Exteriores, Alain Juppé. Em entrevista ao canal público de televisão France 2, ele admitiu que o objetivo “não está escrito na resolução. Deveríamos deixar de contar histórias. É óbvio que o fim de todos estes ataques é permitir que o povo líbio escolha seu próprio governo”, acrescentou. “E tenho a impressão de que o povo elegeria Gadafi”, disse.
A resolução exclui a “ocupação de uma força estrangeira de qualquer forma ou em qualquer parte do território líbio” e destaca “a necessidade de intensificar os esforços para encontrar uma solução para a crise que responda as demandas legítimas do povo líbio e facilitar um diálogo que leve às reformas políticas necessárias para uma resolução pacífica e sustentável”.
Alguns críticos indicam que a condução francesa da intervenção na Líbia constitui uma “mudança radical” da tradicional postura do presidente Nicolas Sarkozy em relação ao Magreb. O líder do Partido Verde francês, Noël Mamère, recordou que em 2007 Sarkozy tentou vender instalações de energia nuclear ao regime líbio. “Naquele ano, recebeu Gadafi em Paris com todas as honras e permitiu que montasse suas tendas no Palácio do Eliseu”, residência oficial do presidente, disse Noël.
Sarkozy também tentou vender aviões militares à Líbia. Noël descreveu a conduta do presidente diante de Gadafi como a de “um executivo de vendas” da indústria militar e nuclear francesa. A França mantinha lucrativas relações políticas e econômicas com praticamente todos os regimes autoritários do Magreb até o começo deste ano. Envolverde/IPS

