Ancara, Turquia, 31/03/2011 – Depois da exitosa pressão do dia 26 para transferir da França para a Organização das Nações Unidas do Tratado do Atlântico Norte (Otan) a condução da guerra aérea contra o líder líbio Muammar Gadafi, o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, volta sua atenção para um problema mais próximo: a Síria. Erdogan e o presidente sírio, Bashar al Assad, mantiveram conversas telefônicas diárias no final de semana, sendo seguidos pelo chanceler turco, Ahmet Davutoglu, que em uma teleconferência com seu colega da Síria, Walid al-Moualem, ofereceu ajuda turca a um eventual processo de democratização.
O chefe da inteligência da Turquia, Hakan Fidan, foi enviado no dia 27 a Damasco para expressar a preocupação de seu governo pela multiplicação do mal-estar social sírio de Daraa, no sudoeste, para cidades maiores, como Latakia, um porto no Mar Mediterrâneo perto da fronteira turca. Desde que começaram os protestos, há duas semanas, quase cem manifestantes morreram e centenas ficaram feridos nos choques com forças policiais e militares.
Os problemas domésticos sírios causam especial preocupação na Turquia. Embora os dois países ainda mantenham diferenças territoriais, a agitação em um pode desestabilizar o outro. A fronteira que compartilham, de 800 quilômetros, é uma zona de contínua passagem de ativistas políticos. Uma preocupação importante para as autoridades turcas é a população curda residente na Síria, de 1,4 milhão de pessoas que, no caso de colapso do regime de Assad, poderiam atuar em acordo com os 15 milhões de curdos da Turquia, os outros sete milhões que vivem no Irã e os seis milhões do norte do Iraque, para reclamar um Curdistão independente.
Para prevenir semelhante extremo, Ancara e Damasco criaram em 2009 o Conselho de Cooperação Estratégica de Alto Nível e, em abril de 2010, realizaram os primeiros exercícios militares conjuntos. Desde 1978, a Turquia mantém um conflito armado com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), uma organização separatista qualificada como terrorista pelo governo turco, pela União Europeia e pelos Estados Unidos. As hostilidades causaram a morte de, pelo menos, 40 mil pessoas, entre soldados e militares turcos, guerrilheiros e civis curdos, enquanto os feridos passam de 30 mil e há 17 mil desaparecidos.
Um estudo feito em 1998 pela Brunswick University, dos Estados Unidos, estimou que, devido à guerra, pelo menos três milhões de pessoas foram deslocadas do sudeste da Turquia e da zona fronteiriça com o Iraque, enquanto três mil aldeias foram total ou parcialmente destruídas. A autonomia curda é um tema muito delicado para a opinião pública de Turquia, Irã e Síria, países nos quais a integridade territorial constitui um tema prioritário desde que ficaram independentes do controle do Ocidente.
Os governos de Irã e Síria são intransigentes quanto a outorgar liberdades aos curdos, enquanto Erdogan, no poder desde 2002, abriu um diálogo com a minoria curda de seu país para autorizar a autonomia cultural, que, depois das eleições nacionais deste ano, poderia evoluir até a cessão de alguns poderes de governo às administrações locais. Ante tal perspectiva, os partidos nacionalistas e o exército mostram uma hostilidade implacável.
O mal-estar turco diante da situação interna que vive a Síria também obedece a fatores geopolíticos e econômicos. Depois de um longo período de frieza, com ocasionais ameaças de choques armados, Assad e Erdogan superaram as diferenças e desenvolveram uma estreita relação. No plano estratégico, os dois países consideram que a cooperação é fundamental para manter o statu quo geopolítico regional, baseado na integridade territorial do Iraque, para frustrar as aspirações pan-curdas e para manter sob controle a agressividade de Israel e do Irã.
O primeiro-ministro turco disse no dia 28 aos jornalistas que pediu a Assad para ter um espírito conciliador com seu povo. “Dissemos a Assad que responder positivamente às demandas populares com uma posição reformista ajudaria a Síria a superar mais facilmente os problemas. “E a resposta que obtive não foi um ‘não’”, disse, acrescentando que esperava de Damasco anúncios de reformas esta semana.
O regime sírio tem uma longa trajetória de mão-de-ferro, destinada a garantir a sobrevivência do governante partido Baaz. Hafez al Assad, pai do atual presidente e líder do golpe que instalou essa força política no poder em 1963, impôs de imediato uma lei de emergência que suprimiu quase todas as liberdades civis e que continua em vigor ainda hoje.
O partido Baaz – dominado pelos alauitas, corrente do xiismo muçulmano tolerante em matéria religiosa – está inimizado com o movimento sunita sírio. Em 1982, Hafez al Assad reprimiu com violência uma revolta da sunita Irmandade Muçulmana, matando cerca de 20 mil rebeldes. A Síria costuma encabeçar a lista de países com as leis mais repressivas do Oriente Médio, segundo a Anistia Internacional. Em uma tentativa de acalmar os espíritos, Bashar al Assad ofereceu na semana passada reformar a lei de emergência e autorizar a formação de novos partidos. Mas o gesto não foi aceito pelos opositores, que reclamam uma democratização total.
Empresários e observadores turcos pediram a Erdogan que inclua em seus conselhos a Assad medidas destinadas a reduzir a corrupção, o nepotismo e o clientelismo, endêmicos na economia síria e uma das fontes de pobreza, que são obstáculo à chegada de investimento estrangeiro turco. Mas a Turquia (um Estado de maioria sunita com minorias religiosas que foram “domesticadas” pelos militares no Século 20) não está em situação cômoda dando conselhos ao seu vizinho, um sócio comercial cada vez mais importante.
Com o crescente mal-estar na casa do vizinho, e também no Bahrein, na Jordânia, no Iêmen e, em menor medida, na Arábia Saudita, Argélia e Marrocos, é muito provável que os ambiciosos planos turcos para o Oriente Médio e o norte da África voltem à estaca zero. Envolverde/IPS

