ANTANANARIVO, 09/05/2011 – “Apelamos a todos os cidadãos,” disse Riovoarilala Rakotondrabe, finalizando um cartaz gigante que anuncia uma grande acção de limpeza comunitária no domingo seguinte. “Uma vez que estamos a meio da época das chuvas, a administração da cidade recomendou que cada fokontany (a unidade administrativa básica a nível de bairro em Madagáscar) devia levar a cabo uma limpeza colectiva,” acrescentou. Rakotondrabe é a directora local da associação responsável por manter as infra-estruturas hídricas, a higiene e o saneamento.
A limpeza devia incluir varrer ruas e becos, desbastar do mato e recolher o lixo espalhado pelo bairro assim, e ainda a limpeza das sarjetas e dos colectores pluviais que atravessam a área.
Situado nos terrenos planos de Antananarivo, Ankorondrano-Andranomahery é um dos bairros mais pobres da capital malgaxe. Fazendo parte de uma grande zona industrial, o bairro apresenta contrastes chocantes. Ao lado de grandes edifícios modernos albergando diversas empresas, existem muitas casas feitas de velhas caixas de madeira e outros materiais recuperados.
“Muitas destas casas não têm retretes, obrigando alguns residentes, especialmente crianças, a defecarem em qualquer sítio,” afirmou Rakotondrabe.
As sarjetas e os colectores pluviais estão a céu aberto e os habitantes e transeuntes atiram lixo para elas. “Estes canos abertos constituem um verdadeiro perigo para a saúde pública,” explicou Rakotondrabe. “Durante a época das chuvas, tendem a transbordar porque é difícil limpá-los devido ao lixo que os bloqueia.”
O RF2 dirigido por Rakotondrabe – a sigla refere-se a Rafitra Fikojana ny Rano sy ny Fahadiovana – é um grupo comunitário criado para assumir responsabilidade pela higiene e pelo saneamento. A ideia é que as receitas das associações locais consumidoras de água sejam usadas para cobrir o custo da mão-de-obra local para limpar esgotos e tratar do saneamento em fokontany e ainda das pessoas que circulam pelo bairro para sensibilizar os habitantes sobre questões de higiene.
“Devido à falta de recursos, estamos a resolver o problema com o pagamento mensal a jornaleiros e, quando as circunstâncias assim o exigem, fazemos esforços colectivos adicionais.”
Ninguém recebeu pagamento pela limpeza feita no domingo recente. A limpeza, afirmou Rakotondrabe, “é uma obrigação cívica e aqueles que não participam têm de pagar uma multa.”
Miakatra Rakotobe, responsável pelos pontos de obtenção de água no bairro, explicou à IPS que “a falta de recursos financeiros se deve ao facto de Ankorondrano-Andranomahery RF2 ainda não ter sido criado formalmente. As entidades que devem pagar para o funcionamento da associação hesitam em pagar as suas contribuições. Se a associação estivesse registada oficialmente, não teria qualquer problema a nível de financiamento.”
No caso de Ankorondrano-Andranomahery, segundo Rakotondrabe, todos os contribuintes estão preparados para investir no projecto.
“As seis associações de consumidores de água que gerem as infra-estruturas hídricas (uma casa para lavagens públicas e cinco pontos onde é retirada a água) estão entusiasmadas,” disse. “É possível determinar-se este facto a partir dos 5.000 ariary (2.50 doláres) que cada uma delas acrescentou ao preço da água potável vendida aos utentes, e que já tinham sido prometidos para ajudar a operação do RF2.”
As muitas empresas no bairro estão igualmente preparadas para meterem dinheiro no RF2. “Devido a conflitos internos no centro do fokontany, estamos com alguma hesitação em pedir-lhes que paguem o seu quinhão,” afirma Rakotondrabe. “É um conflito que temos de resolver rapidamente se quisermos andar para a frente.”
O modelo do RF2 está a ter êxito em Ankazomanga Atsimo, outro dos outros sete bairros onde foi implementado.
“Ankazomanga Atsimo é um sucesso porque os responsáveis conseguiram mobilizar todos os residentes em torno do mesmo projecto,” afirmou Razanakombana, que trabalha para a municipalidade. “Enquanto que em Ankorondranao-Andranomahery as diferenças políticas entre os dirigentes locais têm representado um obstáculo, os residentes em Ankazomanga já passaram por essa fase.”
Enquanto o novo sistema está a ser implementado, os 9.000 residentes de Ankorondrano-Andranomahery continuam dependentes dos esforços de organizações não governamentais para gerir os esgotos e a canalização do bairro. “Felizmente, as ONG dependem de métodos que usam mão-de-obra intensiva e programas de troca de trabalho por alimentos para ajudar a manter as nossas infra-estruturas,” afirmou Rakotondrabe.

